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Bahia x Corinthians: uma semifinal histórica e um horário que revela o descaso com o futebol feminino

Às vésperas da Copa do Mundo de 2027, decisão expõe a falta de articulação entre CBF, clubes, emissoras e poder público para transformar o crescimento da modalidade em presença nos estádios

  • Foto do(a) author(a) Miro Palma
  • Miro Palma

Publicado em 12 de setembro de 2026 às 13:00

Mulheres de Aços estão fazendo história na elite nacional
Mulheres de Aços estão fazendo história na elite nacional Crédito: Catarina Brandão/ EC Bahia

21h30 de terça-feira. É esse o horário escolhido para uma semifinal histórica do Brasileirão Feminino. O Bahia decide a vaga na decisão com o Corinthians, em uma das partidas mais importantes da história do futebol feminino do clube, mas o horário marcado afasta o torcedor e esvazia a chance de fazer desse jogo um grande acontecimento. Para uma semifinal inédita, contra uma das maiores forças da modalidade, com as Mulheres de Aço entre os quatro melhores times do país, esse horário simplesmente não serve. Por que não domingo, 16h? A pergunta é direta, e não deveria ser dirigida só à CBF.

O calendário é da entidade, mas o Bahia também entra nessa conta. O clube não decide a data, porém tem diretoria e articulação política de sobra para tentar uma alternativa: falar com a CBF, com o Governo do Estado e discutir com a Sudesb, por exemplo, o uso de Pituaçu - já que o gramado da Fonte Nova recebe críticas por causa dos shows e jogos do futebol masculino. Pituaçu é um estádio com capacidade para 32 mil pessoas, com suporte necessário para uma partida desse tamanho. Pode ser que não desse certo, mas caberia tentar. E se tentou e não conseguiu, precisa vir a público falar os motivos.

Isso importa ainda mais porque falta menos de um ano para a Copa do Mundo Feminina de 2027. Salvador é sede, com jogos na Fonte Nova, e Pituaçu está entre os locais avaliados para treinos durante o Mundial. O Governo da Bahia já fala da Copa como legado para o futebol feminino. Só que esse legado não nasce em 2027. Nasce agora, quando uma semifinal nacional consegue levar gente ao estádio e mostrar a uma menina que joga bola que existe um caminho para ela ali, perto de casa.

O futebol feminino não tem o público do masculino hoje. Isso é fato, e não tem problema em dizer. No Brasil, vale lembrar, mulheres foram proibidas de praticar o esporte de 1941 a 1979. Desde 1965 havia até uma norma do antigo Conselho Nacional de Desportos citando o futebol entre os esportes vetados a elas. Quase quatro décadas em que o país montou toda a estrutura do esporte mais popular do planeta com as mulheres de fora. Não dá para cobrar dessa modalidade, em poucos anos, a mesma torcida e a mesma tradição do masculino, que teve anos e mais anos de vantagem.

E já ficou provado que existe público, e muito, para o futebol feminino. A Copa do Mundo de 2023, na Austrália e Nova Zelândia, levou quase 2 milhões de pessoas aos estádios e quebrou recordes de audiência. A Fifa contou 2 bilhões de interações de mídia no torneio. A final entre Espanha e Inglaterra chegou a 222 milhões de espectadores, com média global de audiência ao vivo de 14,1 milhões. Não são números que se replicam em Salvador, mas mostram uma coisa clara: com visibilidade, investimento e condição de acesso, o torcedor aparece.

No Brasil esse caminho também está sendo feito. A própria CBF fala em crescimento de audiência e cobertura do Brasileirão Feminino. A semifinal entre Bahia e Corinthians vai passar nas principais emissoras. Tem público ali, sendo construído.

E vale abrir um parênteses aqui: esse horário não sai só da CBF. A entidade tem contratos plurianuais com as emissoras para transmitir o Brasileirão, e esses contratos vêm com janelas de exclusividade e exigências de grade. Foi por isso que a CBF já chegou a desmembrar rodadas inteiras, colocando um jogo por dia, para ganhar mais espaço na TV aberta e na paga. E é por isso que a Globo reserva o sábado à tarde da própria grade para o campeonato. Quando uma partida cai numa terça, às 21h30, a emissora que vai exibir aquele jogo também aceitou esse horário dentro do acordo. Cobrar só a CBF é simplificar o problema.

Isso é tarefa de várias pontas. A CBF, pensando em horários que ajudem — não que escondam — a competição. As emissoras, que têm poder real sobre esses horários por força dos próprios contratos, entendendo que também são responsáveis por decidir quando o jogo entra na grade, e que audiência se constrói, não só se mede. O Governo do Estado, principalmente agora, às portas de uma Copa, fazendo mais pela modalidade. E o Bahia, com a torcida e os canais que tem, usando esse peso para exigir melhores condições para sua própria equipe.

A imprensa também tem grande peso nisso. Não dá para reclamar de falta de público se só lembramos do futebol feminino quando chega a uma semifinal. Falta cobertura o ano inteiro, falta conhecer as jogadoras, divulgar os jogos, tratar a modalidade com a naturalidade que tratamos o masculino. Se queremos o torcedor levando isso pra rotina dele, alguém precisa colocar a modalidade na agenda primeiro.

Bahia x Corinthians podia ser um desses jogos que muda alguma coisa. Semifinal inédita, numa cidade se preparando para receber uma Copa do Mundo. Talvez Pituaçu não coubesse. Talvez domingo não fosse possível para a emissora que detém os direitos daquela rodada. Mas seria bom saber, ao menos, que Bahia, CBF, a emissora responsável e o Governo do Estado tentaram achar uma saída juntos. Porque o futebol feminino não cresce por decisão de um só. Cresce quando todo mundo empurra na mesma direção.

A Copa de 2027 está chegando. Antes dela, existe a chance de mostrar que Salvador quer mais do futebol feminino do que sediar sete jogos na Fonte Nova. Quer que ele faça parte da cidade, de verdade. E isso começa reconhecendo que uma semifinal histórica merece mais do que 21h30 de uma terça-feira. Pena que não dá mais tempo...

Miro Palma é coordenador do impresso e apaixonado por futebol, seja ele masculino ou feminino.