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Flavia Azevedo
Publicado em 11 de julho de 2026 às 05:00
Antes de ser um problema financeiro, o vício em apostas é um problema cerebral. É essa a tese que psiquiatras e neurocientistas vêm defendendo para explicar um fenômeno que atinge a Bahia em cheio. Nosso estado ocupa hoje a 4ª posição no ranking nacional de apostadores on-line, com cerca de 1,5 milhão de baianos afirmando ter apostado em sites ou aplicativos em um intervalo de apenas 30 dias, segundo estimativa do Instituto DataSenado, do Senado Federal. No Brasil como um todo, o fenômeno também é assustador: o Departamento de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP) estima que mais de dois milhões de brasileiros sejam afetados pelo transtorno, enquanto um levantamento do Instituto Locomotiva aponta que 52 milhões de pessoas já apostaram ao menos uma vez no país. >
A resposta para essa escalada é biológica e está em um mecanismo cerebral antigo, o mesmo que garantiu a sobrevivência da espécie humana, hoje explorado por aplicativos de celular. Esta reportagem reconstrói o percurso dessa engrenagem: o que acontece dentro do cérebro no instante da aposta, o que essa dinâmica provoca no corpo e na vida de quem vicia, e o rastro que ela deixa na saúde pública e nos tribunais de família da Bahia.>
Circuito ativado>
Tudo começa com uma substância chamada dopamina, o neurotransmissor associado à sensação de prazer e recompensa. Ao contrário do que a cultura popular sugere, a dopamina não é liberada apenas quando ganhamos algo. Ela dispara, com força ainda maior, no momento da expectativa da recompensa. Esse processo, chamado de "reforço intermitente", explica por que o cérebro humano responde de forma tão intensa a recompensas incertas: como o apostador nunca sabe quando vai ganhar, seu sistema nervoso permanece em estado constante de expectativa, inclusive depois de sucessivas perdas.>
O professor Esdras Cabus Moreira, do Departamento de Neurologia e Psiquiatria da Faculdade de Medicina da UFBA, detalha: "Com o aumento da atividade do sistema de recompensa, os sistemas de controle inibitório de comportamentos que buscam prazer são comprometidos", explica. "A pessoa pode até pensar 'eu vou perder', mas como o controle inibitório está prejudicado, ela tende a ter menos capacidade de controlar essa compulsão para a repetição do comportamento." A contadora baiana Amanda Santos, 30 anos, sentiu esse sistema na pele, ao ser cooptada pelas bets. "Era a mesma sensação de estar usando uma droga, embora eu nunca tenha usado entorpecentes", afirma.>
Quase ganhei>
O mecanismo chamado "near miss", ou "quase vitória" também ajuda a compreender por que é tão difícil parar. Trata-se do resultado desenhado propositalmente pelas plataformas para simular uma quase-vitória: três símbolos iguais e um quase alinhado, um placar que quase bateu, um número que ficou a um dígito do prêmio. Em 2010, os pesquisadores Luke Clark e Henry Chase, da Universidade de Cambridge, publicaram no Journal of Neuroscience um estudo em que analisaram, por ressonância magnética funcional, os cérebros de 20 apostadores enquanto jogavam em uma máquina caça-níqueis. Os resultados mostraram que as regiões cerebrais ligadas ao processamento de recompensa eram significativamente mais ativadas diante de resultados "quase vencedores" em apostadores com problemas de jogo do que em apostadores sociais. "Os resultados sugerem que as derrotas por pouco podem estimular uma resposta dopamínica nos jogadores mais frequentes, mesmo quando isso não resulta em um prêmio", afirmou Clark à época.>
Amanda descreve esse ciclo. Seu primeiro contato com apostas on-line aconteceu em 2021, em um momento de fragilidade emocional. Um vídeo de uma influenciadora das redes sociais divulgava o Aviator, jogo em que um avião sobe na tela e o apostador precisa "sacar" o valor antes que ele exploda. "Coloquei R$ 15,00 e, em dois minutos, já tinha R$ 100,00", relembra. O retorno rápido foi o suficiente para virar, em suas palavras, "a chave" da sua cabeça. Dali em diante, veio a escalada clássica do transtorno: "No começo você ganha e quer mais, mas a pior parte é quando você perde e acha que precisa colocar mais para recuperar o prejuízo". Amanda chegou a acumular mais de R$ 20 mil em ganhos ao longo do vício, mas perdeu mais de R$ 50 mil, incluindo dinheiro emprestado sob mentiras como supostos tratamentos médicos de familiares.>
O mecanismo é o mesmo descrito pela auditora do Tribunal de Contas da Bahia, Juliana Prates, que perdeu o irmão Otacílio Prates, também auditor fiscal do Tribunal de Contas da Bahia, em um suicídio, após acumular dívidas de aproximadamente R$ 1,5 milhão em menos de dois anos de vício em plataformas de apostas: "Ele foi perdendo o dinheiro e ficava tentando recuperar." O professor Esdras Cabus Moreira nomeia o processo: "O dependente opera com o que se chama de Delay Discounting, a tendência de preferir uma recompensa imediata menor a uma recompensa maior que virá depois. Toda essa lógica de avaliação de risco é modificada. O dependente avalia, entende os riscos, mas nesse balanço acaba voltando ao mesmo comportamento que lhe traz prejuízo.">
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Corpo vivo>
As vítimas desses processos neurológicos têm endereços, rostos e histórias. Formada em Contabilidade e com pós-graduação na área, Amanda sempre foi, segundo ela mesma, "a pessoa de confiança" da família para lidar com dinheiro. Era ela quem organizava as finanças dos pais, da irmã e do próprio relacionamento. >
O vício avançou de forma quase invisível justamente porque seu trabalho era feito pelo celular, o que facilitava esconder o comportamento de quem morava ao seu lado. "Eu acordava de madrugada para jogar, ia para o banheiro e ficava lá. Eu estava em um estado de descontrole total", relata. Aos poucos, o isolamento social se instalou: "Eu mudei meu comportamento, não participava mais das conversas, meu pensamento estava sempre no jogo". Os efeitos não ficaram restritos à mente. Amanda descreve sintomas físicos claros: "Eu dormia e acordava com o coração acelerado. Eu me tremia em determinados momentos e nunca tinha paz." Dormir havia se tornado o único refúgio possível, "um mundo onde ninguém ia me cobrar". Mesmo uma simples publicidade de aposta provocava reação física imediata: "Meu coração acelerava só de ver qualquer anúncio de jogo no Instagram".>
O isolamento e a mudança de comportamento são, segundo Juliana Prates, os primeiros sinais e as famílias costumam não reconhecer. "Meu irmão foi ficando mais fechado, ficava muito tempo no celular, começou a emagrecer muito. A gente até imaginou que ele estivesse usando drogas pesadas. Nunca imaginou que fosse aposta", conta. A situação de Amanda se tornou insustentável em 2022, quando uma dívida de R$ 10 mil contraída com uma credora que precisava urgentemente do dinheiro de volta a colocou contra a parede. Incapaz de pagar, ela recorreu à própria mãe e tentou, mais uma vez, mentir sobre o motivo. "Minha mãe percebeu que eu estava mentindo, ajoelhou comigo e me apertou para saber a verdade", conta. Foi o início de um processo de reconhecimento familiar do problema, que culminou em uma internação de três meses em uma clínica psiquiátrica.>
A recuperação não foi linear. Ao sair, em janeiro de 2023, ela conseguiu ficar um mês sem celular. Mas o simples fato de retomar o aparelho reativou o impulso: "A sensação de querer jogar voltou imediatamente". Ela recaiu duas vezes seguidas, perdendo os dois primeiros salários do novo emprego. O divisor de águas veio de uma reflexão sobre as pessoas que "moveram montanhas" para ajudá-la: "Doeu profundamente ver que eu estava decepcionando meu pai, minha mãe e todos". Amanda está sem apostar desde julho de 2023 e resume bem a natureza permanente do transtorno: "Adicto não se cura, trata-se todos os dias".>
Sistema saturado>
O drama vivido por Amanda, Juliana e por tantas famílias baianas já estrangula a rede pública de saúde. Segundo dados da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), o número de atendimentos por dependência em jogos de azar na Rede de Atenção Psicossocial (Raps) cresceu 142,86% entre 2023 e 2024 - de 7 para 17 atendimentos, com mais 9 novos casos registrados apenas no primeiro semestre de 2025. Entre 2022 e 2025, 21 unidades da Raps na Bahia relataram atendimentos a pessoas com uso problemático de jogos, somando 41 ocorrências com registro do código CID F.63, correspondente à ludopatia - transtorno reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como condição psiquiátrica grave. Os números modestos em relação à real dimensão do problema sugerem subnotificação já que a maioria dos dependentes não busca tratamento especializado e quando busca, muitas vezes não sabe que o que tem é uma doença com nome e código diagnóstico. Para o professor Esdras Cabus Moreira, a lógica da dependência comportamental opera nos mesmos circuitos neurológicos da dependência química, o que significa que o tratamento exige o mesmo rigor - e a mesma estrutura - que o SUS oferece para outras adições.>
Casa em ruínas>
Fora dos consultórios, a mesma engrenagem produz destroços nos tribunais de família. O Judiciário baiano enfrenta uma onda crescente de divórcios motivados pelas apostas on-line, em que bens são dissipados às escondidas e famílias inteiras só descobrem a real dimensão da falência quando um oficial de justiça bate à porta.>
"O chamado 'divórcio de bets' não é uma categoria jurídica prevista na legislação, mas tornou-se um fenômeno real para descrever casos em que o vício rompe casamentos e uniões estáveis", explica a advogada Lise Póvoa, especialista em Direito para Mulheres e sócia do escritório Póvoa, Fleury e Senra Advogadas. "As apostas compulsivas geram um efeito em cadeia: endividamento, ocultação de gastos, mentiras, perda de patrimônio e a quebra total da confiança. Passa a configurar, em muitos casos, uma forma de violência patrimonial e psicológica, já que um dos parceiros utiliza recursos da família sem o consentimento do outro.">
Quando a falência financeira é descoberta, a divisão das dívidas vira batalha judicial. "Como regra, dívidas assumidas em benefício da família repercutem sobre o patrimônio comum. No entanto, quando comprovamos que os recursos foram utilizados exclusivamente para alimentar o vício, de forma escondida, sem qualquer benefício familiar, existem fortes argumentos para que a dívida permaneça apenas com quem a contraiu", explica Póvoa. O Judiciário também tem sido acionado por meio de ações de interdição por prodigalidade - instrumento que restringe a capacidade do dependente para atos patrimoniais sem retirar sua autonomia existencial. "A proteção jurídica do patrimônio e o cuidado com a saúde mental devem caminhar juntos", resume a advogada. "Muitos só buscam orientação quando o patrimônio foi perdido.">
A dimensão trágica desse ciclo não se resume a bens perdidos e casamentos desfeitos. Ao, depois do suicídio do irmão, chegar às redes sociais com o próprio drama, Juliana entendeu o cenário: "Quando fiz o alerta nas redes sociais, comecei a ver que não tinha sido só meu irmão. Muita gente dizia: meu marido tirou a vida, meu filho tirou a vida, minha esposa tirou a vida. Fui contabilizando. Deu 25 suicídios só nas mensagens que recebi", conta.>
Freio possível>
Na Bahia, grupos de apoio como o Jogadores Anônimos, na Pituba, viram o número de participantes dobrar recentemente, com reuniões que já juntam até 40 pessoas por encontro. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, defendeu publicamente em abril deste ano, em declaração à Agência Brasil, que as apostas sejam regulamentadas nos moldes do que já existe para o cigarro, com controle mais rígido sobre propagandas e alertas de risco de dependência. Para muitos especialistas, a solução definitiva depende de regulação mais rígida do setor e de uma conscientização coletiva capaz de romper a normalização das apostas nas redes sociais e nas transmissões esportivas.>
Amanda está sem apostar desde julho de 2023, mas sabe que a vigilância não termina. "Em 2026, quem divulga esses jogos tem 150% de consciência de que está acabando com a vida das pessoas", afirma. Sua recomendação para quem está no início do ciclo é direta: "Que as pessoas gritem por ajuda logo, e não tentem resolver sozinhas.">
Para Juliana Prates, que transformou o luto em ativismo, a questão é mais urgente do que os números sugerem: "A gente não tem nem noção. Chegou um momento em que eu saí de falar do meu irmão, porque passou a ser uma realidade das famílias brasileiras. São pessoas que venderam tudo, que perderam tudo, que devem para todo mundo. E não têm voz.">
Por @flaviaazevedoalmeida>
ONDE BUSCAR AJUDA>
CVV - Centro de Valorização da Vida (Ligue 188): Apoio emocional gratuito, sigiloso e disponível 24 horas por dia para prevenção ao suicídio e suporte em momentos de crise.>
Jogadores Anônimos (Salvador): Atua há 18 anos na capital baiana. Reuniões presenciais na Pituba (Paróquia Nossa Senhora da Luz), às terças e quintas, às 19h. Telefones: (71) 98624-0512 / (71) 99275-7068.>
CAPS (Rede Raps): Oferece atendimento psicológico e psiquiátrico especializado para casos moderados e graves. Atendimento gratuito em unidades espalhadas por Salvador e pelo interior do estado.>
Meu SUS Digital: Aplicativo oficial do Ministério da Saúde com teleatendimento para quem apresenta risco no autoteste de apostas.>