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Djavan chega a Salvador com o show mais elegante do Brasil

Na turnê "Djavanear 50 anos", artista rejeita a lógica da pressa, transforma arenas lotadas em experiências íntimas e mostra por que atravessa gerações sem perder a atualidade

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 17 de maio de 2026 às 05:00

Djavanear 50 anos
Foto Iris Alves - @IrisAlvesC Crédito: Divulgação

Djavan é Djavan. Pra mim, pelo menos desde Luz, álbum lançado em 1982, que tocava sem parar na casa da minha infância. Agora, enquanto artistas vivem sob pressão para se reinventar e adaptar a própria trajetória ao ritmo das redes sociais, ele chega a cinco décadas de carreira fazendo praticamente o contrário. Djavan não corre atrás do “novo”, nem parece minimamente aflito diante da velocidade destes tempos. Está aí a principal força de Djavanear 50 anos, turnê que chega a Salvador no próximo sábado (23), na Fonte Nova.

Saí do Allianz Parque, em São Paulo, no último dia 8, com a certeza de ter assistido a um artista interessado em música antes de qualquer outra coisa. O que, para um cantor e compositor, deveria ser o óbvio, claro. Mas deixou de ser há algum tempo. Nos últimos anos, boa parte dos grandes espetáculos virou uma disputa frenética por atenção. Quase sempre tudo é excesso. Luz demais, conceito demais, participação especial demais, estímulo demais, figurino demais, interação demais, cenário demais, historinha demais, ansiedade demais. Em Djavan acontece outra coisa. O palco parece organizado para proteger a música da pressa e o público da distração. É um espetáculo adulto, no melhor sentido disso.

Foto Iris Alves - @IrisAlvesC por Divulgação

Por duas horas e meia, ele praticamente não para de cantar. Não existe sequer aquele truque dos medleys feitos para impedir qualquer ameaça de dispersão. As músicas permanecem inteiras e, pelo menos na apresentação a que assisti, o público segue inteiro junto com elas. Eu vi mais de 45 mil pessoas acompanhando canções completas sem precisar de refrões mastigados ou versões resumidas. Djavan aposta que o público tem capacidade de sustentar atenção quando o que está no palco realmente vale a pena. E ganha a aposta.

Durante todo o show, a multidão cantou tudo, inclusive aquelas músicas que durante décadas foram classificadas como “incompreensíveis”. “Açaí guardiã”, “mais fácil aprender japonês em braile” e tantos outros versos que a preguiça da crítica (com pitadas de preconceito) transformou em piada durante anos. O que vi no Allianz foi quase uma vingança contra essa leitura simplista da obra dele. As pessoas não apenas entendem. Elas sabem as letras de cor, se emocionam, fecham os olhos enquanto dançam abraçadas com seus pares românticos, filhos e amigos. As pessoas moram, também, dentro das músicas de Djavan e não é exagero dizer isso.

A arena estava lotada por casais, famílias inteiras, grupos de pessoas na faixa dos 60+ e também gente muito jovem que provavelmente chegou até “Oceano” perdida em algum algoritmo de streaming. Todos capturados por letras e melodias sofisticadíssimas. Djavan nunca simplificou a própria linguagem para parecer acessível e, ainda assim, se tornou esse fenômeno popular. Poucos artistas brasileiros passaram por tantas gerações sem negociar pelo menos parte da própria identidade no meio do caminho. Ou, minimamente, fazer adaptações para "não envelhecer", o que quer que isso signifique.

Por falar nisso, Djavan já pareceu fisicamente mais velho em outros momentos da carreira. Tomei um susto divertido ao vê-lo, aos 77 anos, sentando e levantando no chão do palco com a flexibilidade de um menino. Ao meu redor, as pessoas comentavam a mesma coisa. É uma vitalidade muito distante daquele registro constrangedor de artistas que tentam fabricar juventude a qualquer custo. Djavan parece apenas saudável, de um jeito elegante e charmoso. Cara de quem dorme direito, bebe água e não briga contra o tempo. O corpo funciona com leveza, a voz continua limpa e precisa e o figurino obedece a essa lógica sem agonia. Ele estava muito bonito. Referências discretas aos anos 1980, tecidos leves, uma troca aqui, um chapéu ali. Tudo funciona bem.

Djavan sobe ao palco acompanhado por Felipe Alves na bateria, Marcelo Mariano no baixo, Torcuato Mariano na guitarra e violão, Paulo Calasans no piano e teclado, Renato Fonseca nos teclados, Jessé Sadoc no trompete e flugelhorn, Marcelo Martins no sax tenor e flauta, Rafael Rocha no trombone, além dos vocais impecáveis de Clara Carolina e Jenni Rocha. É uma banda de altíssimo nível técnico, com vários músicos também na faixa dos 60+. Tudo soa limpo, elegante, afetuoso e, de novo, sem excessos ou maneirismos.

Esse artista parece completamente desinteressado no modelo contemporâneo de multitarefa, aquele que precisa cantar, emocionar, militar, viralizar, “mandar um recado”, produzir cortes e alimentar permanentemente a própria persona digital. Ele fala pouco durante o show. Canta e sustenta silêncios. A direção artística de Gringo Cardia acompanha essa inteligência. Djavan tem o universo das canções traduzido em painéis de LED que funcionam como extensão sensorial da obra, sem protagonizar. Surgem referências de Athos Bulcão, Portinari, Espedito Seleiro, Vik Muniz, Walter Firmo e outros artistas brasileiros. Adoro na maior parte do tempo. Porém, na van voltando do show, minha colega disse que, em alguns (poucos) momentos, parece "papel de parede". Doeu, mas tive que concordar um pouquinho.

O repertório passa por praticamente toda a carreira e reúne 27 músicas como “Sina”, “Oceano”, “Um Amor Puro”, “Se…”, “Eu Te Devoro”, “Samurai”, “Flor de Lis” e “Açaí”. Ao fim de duas horas e meia, a sensação é de que ainda faltou coisa. Saí do show lembrando de pelo menos mais umas três músicas que caberiam perfeitamente ali sem ninguém arredar pé da arena. Eu queria ter escutado, por exemplo, que "sabe lá o que é não ter que ter que ter pra dar". Algumas das frases mais lindas da música popular brasileira foi ele que nos deu.

Muito coerente com a proposta do espetáculo, o momento mais "frio na barriga" acontece justamente quando tudo diminui. No bloco acústico, sozinho ao violão, no proscênio, cantando e tocando “Meu Bem Querer”, “Oceano”, “Lambada de Serpente” e “Mal de Mim”, Djavan cria um nível de intimidade raríssimo para um espaço daquele tamanho. Ali fomos transportados para esteiras na areia da praia.

Naquele momento, milhares de pessoas voltaram ao violão dos amigos, às luas cheias, às primeiras dores de amor e – a depender da quantidade de uísque – possivelmente até a relacionamentos que claramente já deveriam ter sido enterrados, só que não. Eu acho, pelas lágrimas que vi em algumas caras. Mas certeza mesmo, de verdade, eu tenho é de que, em um tempo dominado pela urgência de parecer “novo”, Djavan oferece uma coisa muito mais sofisticada: permanecer interessante e contemporâneo sem precisar perseguir novidades.

DJAVAN EM SALVADOR

Turnê: “Djavanear 50 anos. Só Sucessos”

Data: 23 de maio (sábado)

Local: Casa de Apostas Arena Fonte Nova

O show: Espetáculo comemorativo de 50 anos de carreira, apresentando os maiores hits de todas as fases da discografia do artista

Setlist: Pelo menos 25 canções, incluindo clássicos como “Sina”, “Oceano”, “Um Amor Puro”, “Se…”, “Eu Te Devoro”, “Samurai”, “Flor de Lis” e “Açaí”

Direção Artística: Gringo Cardia

Banda: Djavan (voz, violão e guitarra) acompanhado por Felipe Alves (bateria), Marcelo Mariano (baixo), Torcuato Mariano (guitarra e violão), Paulo Calasans (piano e teclado), Renato Fonseca (teclado), Jessé Sadoc (trompete e flugelhorn), Marcelo Martins (sax tenor e flauta), Rafael Rocha (trombone), Clara Carolina e Jenni Rocha (backing vocals)

Venda Online: ticketmaster.com.br/event/djavan

Por @flaviaazevedoalmeida

A jornalista viajou a convite da produção do evento.