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Moyses Suzart
Publicado em 15 de agosto de 2026 às 05:00
A mistura lírica de um tenor da música popular brasileira está no DNA de Dori Caymmi. Sua voz forte de canções marcantes mostram que o sangue também canta. Filho de Dorival Dori segura com firmeza sua carreira, mas também tem outra função providencial para a história da nossa terra: cuidar do legado do pai, o homem que, ao lado de Jorge Amado e Carybé, inventou a baianidade. E isso dá um trabalho que só ele e o irmão, Danilo, sabem. >
Uma possível Casa Dorival Caymmi em Salvador, nos moldes da Casa de Jorge Amado, ganhou força nos últimos tempos. Em entrevista ao CORREIO, Dori Caymmi afirma que nem ele, ou Danilo, tampouco o espólio de Nana Caymmi, autorizaram qualquer negociação para criar um espaço dedicado ao pai e critica iniciativas tomadas sem o aval dos herdeiros. >
Desmentido o boato com firmeza, Dori também mostra leveza numa entrevista que mais pareceu um bate-papo. Aos 83 anos, Dori relembra a simplicidade do pai, revela que Dorival morreu sem fortuna (mas feliz), conta como o compositor reconhecia Salvador pelo cheiro. Fala também sobre sua carreira e sobre a música, digamos, moderna. Vale cada linha. >
Dorival Caymmi
Afinal, é verdade que está sendo feita uma casa de Dorival Caymmi em Salvador?>
Não da nossa parte, que somos os herdeiros. Há muita informação não confirmada pelos herdeiros, porque os herdeiros somos eu, o Danilo e o espólio da Nana. E nós não tomamos nenhuma decisão com relação a nada — somos nós que tomamos as decisões, claro. E parece que está havendo muita informação sem fundamento, muito boato, muita conversa. E eu espero que não acreditem que outras pessoas tenham o direito de fazer esse acordo [de uma casa dedicada a Caymmi]. As pessoas se arvoram um pouco, e as pessoas no Brasil estão ficando muito divididas, uma polarização terrível, até nas famílias. >
E como surgiu esta conversa?>
Na realidade, existe um lado da minha família que acha que pode fazer as coisas sem consultar os herdeiros. Eu conversei muito com o Danilo e essas autorizações são minhas, dele e da pessoa encarregada do espólio da Nana, que ainda não está terminado. Inclusive, está dando polêmica também o espólio da Nana lá entre os filhos e tal. O fato é o seguinte: nós, os três filhos, fizemos um trabalho bonito na música do Brasil em respeito ao grande compositor e ao grande brasileiro que foi nosso pai. E nós somos os verdadeiros herdeiros de Dorival Caymmi. Então qualquer outra informação, qualquer outra tentativa de negociar que não venha de nós, não existe. >
E de onde saiu este boato?>
Alguns netos do meu pai resolveram tomar essa iniciativa. E, por mais que eu entenda que eles tenham boas intenções, eu acho que eles são muito afoitos. E nesse ponto, inclusive, já houve a ocasião de fazer coisas sem nos pedir autorização. Repito: qualquer iniciativa para qualquer coisa a respeito de Dorival Caymmi será tomada pelos dois filhos e, possivelmente, pelo espólio da Nana, quando for o caso. Eu odeio dizer isso e não gosto de briga em família, mas chegou um ponto em que tenho que desmentir estas coisas.>
Mas, é possível fazer uma casa de Caymmi, nos moldes da Casa de Jorge Amado?>
Você depende muito de política para fazer esse tipo de coisa, ou de patrocínio. Do político eu desconfio. E o patrocínio acaba. Acabou com o Instituto Tom Jobim, que praticamente ficou num cantinho quando encerrou o patrocínio. O Glauber Rocha também. Quer dizer, são brasileiros importantes que recebem um determinado patrocínio e daqui a pouco as pessoas tiram o patrocínio. Não queremos assim. >
Então, apesar de não ter nenhum projeto, não significa que nunca teremos, né?>
Exatamente. Eu e o Danilo conversamos muito a respeito: se for feito alguma coisa, será por nosso intermédio. E uma coisa garantida em termos de governo, garantida como uma coisa perene, como os grandes brasileiros merecem. Porque você sabe, uma coisa que sempre me deu uma certa tristeza é que o intelectual brasileiro sempre precisou de um emprego público, como foi com Manuel Bandeira, Carlos Drummond, Guimarães Rosa...>
Alguém já procurou os filhos para fazer algo do tipo?>
Já foi feito no tempo que Jaques Wagner era governador. Eu fui a Salvador, tinha a intenção de fazer uma casa no Terreiro de Jesus. Até visitei a casa, conversei com o secretário de Cultura na época. E aí, os irmãos não chegaram a um consenso. Tinham umas exigências que não concordamos. >
Quais?>
A principal era que o acervo ficaria pertencente ao governo. Imagine! E aí eu não sabia se o acervo era do PT, do governador da época, ou se o acervo era do governo da Bahia, né? Que tipo de contrato se faria? Temos um acervo inestimável para ser dado assim, sem clareza. A Nana discordou e eu também não fiquei muito feliz, não. Quando o cara pediu todo o acervo, eu desconfiei. >
Vocês deixam claro que a intenção não é recusar homenagens, mas, sim, garantir que não sejam feitas de qualquer jeito.>
É, e eu não sei o que saiu na Bahia, mas eu espero que as pessoas não estejam acreditando que isso vai acontecer sem autorização minha e sem autorização do Danilo. Vamos fazer com o maior respeito à figura de Dorival Caymmi. O fato é que não há confiança. A iniciativa privada não vai segurar por tempo nenhum. Quer dizer, você pega um patrocínio de qualquer companhia grande, ela resolve parar num determinado momento e a casa fica abandonada. Está acontecendo até com o Villa-Lobos, no Rio de Janeiro.>
Aqui temos a Casa de Jorge Amado, a de Carybé... Está faltando Caymmi. Talvez, por isso, tenha ganhado grandes proporções, não?>
Nós queremos que isso seja feito com estrutura, planejamento. Porque, veja bem, eu fui informado que algum tempo atrás iam fazer o Museu Carybé e Dorival Caymmi juntos. Parece que fizeram o Carybé. Eu acho que na época, se eu não me engano, eles haviam mencionado que essa casa seria de Carybé e Dorival Caymmi juntos. E de repente foi só Carybé. Eu vi até na televisão uma coisa assim, um audiovisual bonito e tudo. Continua aberto?>
Sim, muito bonito, por sinal, lá no Porto da Barra.>
Eu sou fã do Carybé, acho o Carybé o mais baiano de todos, como disse Jorge Amado no filme 3 Obás de Xangô. Meu pai saiu da Bahia porque você há de compreender que nessa época do Brasil todo mundo vinha para o Rio de Janeiro, porque não havia outra possibilidade.>
Como o senhor vê essa presença viva do seu pai na cultura de hoje, em paralelo a essas mudanças tão radicais no mercado da música?>
Já foram feitos alguns documentários importantes a respeito dele. Quer dizer, a figura dele está muito viva. 3 Obás de Xangô vai sair numa escola de samba de São Paulo. Existe um interesse muito grande ainda na figura do velho, né? Apesar de estarmos num mundo diferente.>
Que mundo diferente é esse? Na música?>
Outro dia até me fizeram uma brincadeira em uma entrevista sobre isso e eu fui direto: não sou bailarino, sou um senhor de idade e não vou ficar dançando com dez bailarinas atrás de mim no show. A música mudou, inclusive aí na Bahia. Teve uma época em que disseram que o papai esculhambou o axé, foi mal interpretado. Eu tinha dado umas aulas na Ufba a convite do meu amigo Oscar Dourado, então diretor da Escola de Música. Não sou professor, mas fui falar sobre a importância da música do Brasil e disse que, para o meu gosto pessoal, não achava legal essa coisa fabricada do axé, não do ritmo em si, entende? Esse apelido que a indústria inventa para tudo, como faz com a MPB. Teve toda uma controvérsia na época, mas ouvi de vários compositores talentosos que assistiram a minha aula que eram obrigados a trabalhar nos trios elétricos por pura sobrevivência, pois só se fazia isso. Vi rapazes de muito talento sem espaço para criar, porque a terra continua produzindo artistas, mas hoje, ou você vem para o Rio e São Paulo para estourar, ou tem que subir no trio elétrico e fazer o Carnaval. >
Já tocou no carnaval de Salvador?>
Eu fui convidado para algumas homenagens, e a única vez que eu fui foi num trio elétrico foi num que era de Margareth Menezes, emprestado ao Gilberto Gil. E fui eu, o Danilo e a Alice [Caymmi], mas a Nana deu bolo. Agora, imagine. A Nana me tirou de Los Angeles e eu vim porque ela disse: ‘é uma homenagem ao papai, porque o Carnaval da Bahia vai se chamar Dorival Caymmi’. Aí eu disse: ‘bom, se é uma homenagem tão bonita assim, eu vou’. Não foi nada disso e nós ficamos a ver navios. Fizemos uma volta de trio elétrico pelo Campo Grande e foi só. Sabia que Osmar [Macêdo], do trio elétrico, fez parte da banda de papai aí na Bahia?>
E sobre os novos estilos musicais, como sertanejo, o funk, o que acha?>
Nos dias de hoje não se pode contrariar nada... As pessoas estão ganhando dinheiro, ficando até ricas com essa indústria. Eu não me incomodo com isso, não. E não gosto, não faço parte disso, mas eu respeito que as pessoas têm o seu campo. Está tudo muito diferente. É o que está acontecendo: você vai nos lugares e as pessoas estão com o celular olhando para alguma coisa. Às vezes, não estão nem conversando mais porque cada um está com o celular. Difícil. >
Dorival Caymmi se adaptaria a isso?>
É um mundo novo, é uma coisa nova. Eu entendo essa coisa toda, entendo que as pessoas procuram sobreviver, que procuram enriquecer, né? Nós aprendemos com meu pai: papai nunca entendeu a coisa de ser rico. Para ele, tinha uma coisa chamada Bahia e Brasil, e ele tinha um amor muito grande pelo trabalho dele. Então, ele não tinha compromisso nenhum com esse negócio de enriquecer, de ganhar dinheiro. Eu me lembro assim, a grosso modo, quando papai morreu em 2008, e foi uma coisa linda, porque mamãe não soube que ele morreu, nem ele soube que mamãe morreu, iam fazer quase 70 anos de casados. Enfim. Quando eu fui ver o espólio do meu pai, eram R$ 300 e poucos mil reais no banco, um apartamento que valia R$ 600 mil reais e tinha um sítio que valia R$ 150 mil. Era o que ele tinha.>
Com o perdão da intromissão, pouco para a grandeza e história dele, né?>
É. Ele nunca deu essa importância. E sendo de família humilde ainda tem uma atenção maior... Meu pai, aí em Salvador, era de uma família pobre. Então, ele poderia ter sido uma pessoa ambiciosa, mas antes de tudo ele era um artista. Nunca ligou para dinheiro. E nós, os filhos, procuramos de todas as maneiras não ferir esse lado aí. Eu não posso responder por ninguém mais, mas os três filhos jamais pecaram com relação a Dorival Caymmi. Foi sempre um respeito, uma admiração pelo compositor, pela dignidade, essa coisa toda.>
Esse jeito definiu seu pai não apenas no modo de ser, mas nas suas obras também.>
Sim. Papai era um homem muito simples, nunca teve ambição de coisíssima nenhuma. E carregamos isso dele, nunca fomos ambiciosos. Tem uma história engraçada. A mamãe, numa época, vendeu os quadros dele. Coitado, ficou triste de dar dó. Vendeu um Portinari que ele tinha, um Di Cavalcanti para ter um dinheiro em caixa, pois papai era um sonhador.>
É até um paradoxo, pois ele acabou saindo da Bahia para conseguir mais espaço no Rio de Janeiro, já que não tinha oportunidade aqui.>
Outro fato curioso. Ele era um cara que olhou para a Bahia com aqueles olhos jovens e veio para o Rio de Janeiro porque, segundo ele me contou, ele prestou um concurso em Salvador, tirou o segundo lugar, mas não foi nomeado. Muita gente passou na frente dele, foi chamado, e ele não. Aí ele decidiu pegar um Ita do Norte e veio para o Rio de Janeiro. E teve a primeira chance na rádio do Assis Chateaubriand, Rádio Tupi, né?>
Caymmi foi também um concurseiro? >
Estudou e ainda ficou em segundo lugar. Ele também tinha um sonho de ser jornalista. Quando veio para o Rio de Janeiro, em 1938, ele queria ser jornalista. Então ele ficou super empolgado e, de repente, um amigo dele — ou do meu avô, ou um parente próximo, eu não me lembro quem era essa pessoa —, disse assim: ‘Não, você é muito talentoso, tem que mostrar o seu trabalho’. E assim começou. Curiosamente, ele já chegou no Rio com diversas obras prontas. As letras das canções do álbum Canções Praieiras já estavam prontas.>
Dizem que Caymmi, juntamente com Carybé e Jorge Amado, inventaram a baianidade. Ainda existe essa Bahia inventada por eles?>
É um outro mundo. O carioca também já não é mais o carioca. Eu acho que a única coisa que resta ainda é escola de samba e a torcida de futebol. Esta era moderna já não cabe mais o grande criador que se eterniza. Essa globalização tira um pouco das novas gerações a brasilidade cantada no passado, algo que eu tenho na veia. Às vezes, faço um disco e a crítica diz que sou muito conservador. Teve até um repórter que me deu três estrelas e meia no meu último trabalho e, depois, acabou indo assistir ao meu show. Nem sabia que ele estava lá. Pouco depois, escreveu dizendo que era uma coisa linda! Mas esse amor pelo estado onde a gente nasce fica totalmente comprometido com a globalização. Somos dominados pela cultura do mundo e esquecemos da nossa. >
Seu pai ainda tem o merecido reconhecimento?>
Morei durante anos em Los Angeles. E aconteceu muitas vezes, até hoje quando toco fora, de pessoas irem e, ao final do show, me abordarem. ‘Amei o show, que incrível. Mas quando olhei o nome, achei que era seu pai que iria tocar, conheço tudo dele’. Isso fora do país, viu. Teve um norte-americano que me disse: ‘eu viajei para conhecer a Bahia por causa das canções do seu pai’. De três palavras que papai dizia, duas eram sobre a Bahia. Nunca vi paixão igual.>
E quando vem tocar na Bahia?>
Falei até com o Cláudio Leal, que escreveu para o livro sobre as minhas canções para violão que o Sesc fez. Falei com ele que gostaria muito de visitar e cantar na Bahia, sem precisar de um teatro enorme. Uma vez cantei no Teatro Jorge Amado, faz tempo, mas a verdade é que nunca houve nenhuma proposta depois. Eu sou como o meu pai: sou um artista fora da mídia.>
Está faltando o quê, meu Deus?>
As pessoas não nos conhecem mais, entendeu, Moysés? Nem chamam para conhecer, porque criam uma dificuldade. Recentemente toquei num Sesc muito grande em São Paulo e lotei num domingo à tarde — algo que eu jamais imaginei —, o que mostra que existe uma carência no público por nossa música. Não que eu seja um artista formidável, mas vejo Caetano, Bethânia, Gilberto Gil e Milton Nascimento enchendo estádios e fico muito contente. A diferença é que eles são artistas de palco e nunca saíram da mídia. E eu sempre fui mais recolhido no meu canto, faço 83 em agosto, já estou aos 83 minutos do segundo tempo [risos]. Fico gravando meus discos, fazendo arranjos e trilhas, como fiz em Gabriela para o Jorge Amado. >
Desconheço pessoas que amaram tanto a Bahia como seu pai, Jorge e Carybé. >
Na última visita dele a Salvador papai já não estava enxergando quase nada e ouvindo muito pouco. Então, ele foi reconhecendo a Bahia e os lugares pelo cheiro, sabia? O papai conseguiu identificar os lugares, acertou todos os lugares. Ele estava assim na Ribeira e comentava: ‘Isso aqui tem cheiro da Ribeira, Parece o Bonfim’. E era certeiro. Tem uma foto linda dele com os braços para cima, sentado na cadeira de rodas, com a igreja ao fundo, feliz da vida. Tinha uma paixão por Salvador, e a música dele já diz isso para você.>