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Entenda por que Brasil e Argentina continuam parceiros apesar da crise entre Lula e Milei

O comércio bilateral, a integração da indústria e o Mercosul tornam improvável um rompimento entre os dois maiores parceiros econômicos da América do Sul.

  • Foto do(a) author(a) Donaldson Gomes
  • Donaldson Gomes

Publicado em 1 de agosto de 2026 às 05:00

O brasileiro Lula e o argentino Javier Milei jamais tiveram relação de proximidade Crédito: Ricardo Stuckert/PR/Arquivo

Faz tempo que os governos do Brasil e da Argentina se dão mal. A última vez que os mandatários de Brasília e de Buenos Aires tiveram um alinhamento político e ideológico claro foi em 2023, durante os doze meses que coincidiram com o primeiro ano de mandato de Lula aqui no Brasil e o último de Alberto Fernández por lá. Se agora Lula e Javier Milei estão em pé de guerra, antes foram Jair Bolsonaro e Fernández. A última vez que os dois países tiveram um ciclo longo de sintonia política aconteceu há quase 20 anos, com Lula e Néstor e Cristina Kirchner.

Sabe o que não mudou, independentemente das forças políticas que ocuparam o Palácio do Planalto ou a Casa Rosada? Os profundos laços que unem os dois países. Se, no futebol e, conjunturalmente, na geopolítica, as duas nações estão em polos opostos, existe uma relação de interdependência entre Brasil e Argentina que certamente sobreviverá a qualquer tensão eleitoral. Em 2025, a corrente de comércio entre eles foi de US$ 31 bilhões, o que faz dos argentinos o principal parceiro comercial do Brasil na América do Sul, e vice-versa. No primeiro semestre deste ano, o comércio entre os dois países já movimentou quase US$ 14 bilhões, sendo mais da metade em exportações brasileiras.

Mais de 90% das exportações brasileiras para o país vizinho são de produtos industrializados, que possuem maior valor agregado. Milhares de empregos no Brasil dependem deste mercado. Do outro lado da fronteira, o Brasil é o principal destino das exportações, superando inclusive China e Estados Unidos. É o principal mercado da indústria automobilística argentina.

Ao longo de décadas, os dois países integraram grande parte das suas cadeias produtivas. Ao contrário do que acontece na relação entre o Brasil e a China, em que um exporta commodities e o outro, produtos manufaturados, com os hermanos o papo é de complementaridade. Desde a criação do Mercosul, do qual Brasil e Argentina são os principais fiadores, o mercado passou a enxergar dois países diferentes, mas um único mercado. Um carro pode ter o motor fabricado no Brasil, a transmissão na Argentina, e ser montado em qualquer um dos países.

Com isto em mente, é fácil responder a uma pergunta que chegou a ser feita no decorrer da última semana: Brasil e Argentina podem romper relações? É bastante improvável que isto aconteça. Por mais que as relações sejam assimétricas – a economia argentina depende muito mais do Brasil do que o Brasil depende dela –, seria uma tolice gigantesca para o governo brasileiro abrir mais uma frente de batalha comercial. Já somos taxados pelos Estados Unidos e a União Europeia anunciou um embargo à carne e outras proteínas brasileiras a partir de setembro, que podem causar um prejuízo de US$ 500 milhões (equivalente a R$ 2,5 bilhões).

Na política, Brasil e Argentina podem alternar momentos de amizade e hostilidade. Na economia, porém, continuam condenados a cooperar. Brigar com a Argentina só faz sentido no palanque.

Outro irmão ofendido

A boa notícia no campo das relações diplomáticas brasileiras é que a crise com o Paraguai, após a declaração do presidente Lula sobre a Guerra da Tríplice Aliança, arrefeceu. Ao defender a necessidade de o país investir na melhoria do seu sistema de defesa, ele lembrou do conflito, envolvendo o Paraguai. "A gente gosta de paz, mas a gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina. E aquela guerra que parecia que era nada durou cinco anos", afirmou, despertando revolta no país vizinho. O conflito armado, considerado o mais sangrento na história da América Latina, teria causado a morte de aproximadamente 150 mil paraguaios, quase 70% da população. Entre os brasileiros, foram 50 mil baixas. Depois de manifestar toda a sua contrariedade com as palavras de Lula, inclusive com a convocação do embaixador brasileiro em Assunção para explicações, o governo paraguaio deu o assunto por encerrado. O ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano, disse ter aceitado as explicações do Brasil. O governo do Paraguai emitiu uma nota pedindo que o período histórico seja abordado com prudência, a devolução de troféus de guerra e cópias de documentos históricos sobre o conflito.

A aposta democrata

Uma deputada de origem latina, Alexandria Ocasio-Cortez, de 36 anos, está se consolidando como uma das principais apostas democratas para a disputa presidencial nos Estados Unidos, em 2028, quando se encerra o segundo mandato de Donald Trump. A jovem parlamentar que representa o estado de Nova York é conhecida como AOC e foi uma das primeiras vozes a se levantar contra o tarifaço aplicado ao Brasil no ano passado. Na última semana, ela foi apontada pelo The Gardian como uma possibilidade "séria" de vitória democrata no próximo pleito. Quando disputou a vaga na Câmara pela primeira vez, derrotou Joe Crowley, uma estrela democrata que estava em seu 10º mandato e chegou a ter o nome citado como possível presidente da casa legislativa. A ex-bartender e garçonete se intitula uma socialista democrática e faz parte da ala mais à esquerda do partido. Certamente terá dificuldade para convencer o grupo de que se trata de um nome viável, mas como Ocasio-Cortez já quebrou a banca de apostas antes, não custa esperar antes de tira-la do tabuleiro.

O bebê de Noronha

No último domingo, nasceu um bebê no arquipélago de Fernando de Noronha, após mais de 20 anos. Desde 2004, as gestantes são transferidas para Recife ou Natal, por conta da falta de maternidade e de UTI para mães e bebês na ilha. A mãe deu entrada no hospital local sem informar que estava em trabalho de parto. Na segunda-feira, a criança foi transferida numa UTI aérea para Recife. Normalmente, o governo de Pernambuco custeia passagens, hospedagem e alimentação das gestantes e um acompanhante em Recife no sétimo mês da gestação. A situação peculiar motivou há alguns anos o documentário Proibido Nascer no Paraíso. Mesmo que cheguem ao mundo por Recife ou Natal, os bebês filhos de pais residentes no arquipélago podem ser registrados como noronhenses.

meme da semana

Vendaval provocou sérios transtornos, mas ainda assim o brasileiro faz graça com situação Crédito: Reprodução 

O vendaval que atingiu o Sudeste no início da semana trouxe de volta este meme para as redes sociais. A brincadeira com a estátua do Cristo Redentor surgiu por conta dos leques no show de Lady Gaga, mas parece mesmo ter sido pensada para o momento atual, não acha?

(Viu algum meme interessante? Encaminha para donaldson.gomes@redebahia.com.br)