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ET, minha casa: por que famosos, vídeos virais e documentos secretos colocaram os alienígenas de volta no centro das atenções

Enquanto o governo dos EUA abre arquivos secretos sobre Ovnis, celebridades surfam na onda com vídeos virais e doses maciças de paranoia e marketing. James Franco gravou até um alien no seu quintal

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 18 de julho de 2026 às 10:23

James Franco mostra gravações de um suposto ET na sua casa
James Franco mostra gravações de um suposto ET na sua casa Crédito: Reprodução

Há mil e quinhentos anos, todos acreditavam que nosso planeta era o centro do universo. Quinhentos anos atrás, todo mundo pensava que a Terra era plana (alguns ainda acham). Estamos em 2026, e nós ainda cremos que somos os únicos seres do universo. Durante décadas, falar sobre discos voadores era assunto quase exclusivo de programas de televisão sobre mistérios, convenções de ufologia e fãs de ficção científica. Na era da tecnologia e da informação instantânea, parece que os alienígenas resolveram fazer turismo aqui, com aparições até para o ator hollywoodiano, James Franco, além do influencer brasileiro Mayk Leão, na zona rural de Campo Largo. Agora imagine um ser de outro planeta percorrendo milhões de anos luz para visitar uma chácara no interior do Paraná. A pergunta que fica é só uma: verdade ou culhuda?

Nem uma coisa, nem outra. O assunto, apesar de entrar na esfera das redes sociais e dos famosos, é algo sério, cheio de critérios e precisa de cuidado na hora de falar. Na última semana, o ator James Franco surpreendeu ao publicar imagens de um suposto alienígena passeando na sua mansão, flagrado pelas câmeras de segurança. Para muitos, uma prova viva da existência de vida fora da terra. Para outros, um famoso querendo aparecer. Contudo, a ufologia prefere tratar com cautela e muita, muita investigação antes de cravar a veracidade, ou não, do caso.

“Sobre o caso do ator, eu prefiro ter bastante cautela. O fato de ser uma pessoa famosa não torna o vídeo mais verdadeiro. Para mim, ele precisa passar pelos mesmos critérios de qualquer outro registro: verificar o arquivo original, entender as circunstâncias da gravação, procurar outras testemunhas e analisar se pode ter sido uma montagem, uma encenação ou alguma interpretação equivocada”, disse Daniel Gevaerd, um dos mais importantes ufólogos brasileiro e líder da revista Ufo, que fala sobre o tema desde os anos 80. “Enquanto não houver uma análise técnica independente, eu não afirmaria que aquilo é um ser extraterrestre. É um vídeo curioso, pode ser investigado, mas ainda está muito longe de ser uma prova”, crava Daniel.

Para a ufologia, mais de 90% dos casos que envolvem óvnis e alienígenas são descartados. Esta comunidade de estudiosos, curiosamente, primeiro busca provar que não se trata de um objeto alienígena. Só depois de descartada todas as possibilidades, o caso ganha destaque.

“Meu pai sempre dizia que o trabalho do ufólogo não era provar que tudo era uma nave extraterrestre. Era justamente o contrário: primeiro era preciso eliminar todas as explicações convencionais”, lembra Daniel. Seu pai, Ademar José Gevaerd, foi o fundador da revista Ufo e o principal nome sobre o assunto no país e referência no mundo. Ele morreu em 2022 e chegou a ser entrevistado pelo CORREIO. Na época, ele explicou o quanto era importante a Bahia na ufologia.

“A Bahia é uma referência na ufologia desde sempre. O caso de Feira é tão importante quanto o de Varginha. Feira de Santana só não foi tão pesquisado porque aconteceu numa área remota, enquanto Varginha foi em área urbana. É na Bahia que temos a Chapada Diamantina, considerada uma referência no avistamento em todo o mundo”, disse Ademar, em 2021. Ele lembrou do caso em que dois alienígenas teriam sido capturados em Feira de Santana, em 1995.

Após o Pentágono reconhecer oficialmente a existência dos chamados UAPs (Fenômenos Anômalos Não Identificados, na sigla em inglês), desclassificar vídeos gravados por pilotos da Marinha americana e criar programas específicos para investigar ocorrências aéreas sem explicação conhecida, o tema deixou de ser tratado apenas como histeria. Hoje, governos, militares, cientistas e até agências espaciais discutem o assunto com mais seriedade, como os ufólogos sempre fizeram, ainda que isso esteja longe de significar a confirmação da existência de extraterrestres.

Desenhos baseados em relatos colhidos pelo ufologo Alberto Romero por Alberto Romero

“Hoje, quando o Pentágono e o Congresso dos Estados Unidos admitem que existem ocorrências que não foram identificadas, isso ajuda a reduzir o preconceito em torno do tema. Pilotos, militares e operadores de radar passam a se sentir mais seguros para falar”, declara Daniel Gevaerd, quase como um desabafo. “Durante décadas escondendo tudo de nós, o assunto foi ridicularizado publicamente, mesmo existindo documentos que mostravam que governos e militares investigavam esses casos de forma reservada”.

Até o Brasil tinha uma divisão especial que tratava do tema. Entre 1969 e 1972, a Aeronáutica criou o Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados (Sioani), que estudava aparecimentos de Ovnis. O setor era secreto, ninguém sabia de sua existência. Em 2018, a Força Aérea abriu parte de seus documentos secretos e revelou que existia essa divisão. Foram disponibilizados 743 registros de aparições, entre 1952 e 2016, incluindo alguns casos baianos. São mais de 20 mil páginas. Os documentos estão disponíveis no site do Arquivo Nacional e ainda são constantemente atualizados.

As aparições parecem ganhar mais força a cada dia. No último dia 15 de julho, um piloto de voo particular relatou à torre de controle ter visto luzes estranhas no céu do Paraná. “Tem uma luz lá pra frente, que eu não sei se é planeta ou o que que é, muito distante, que ela tá sempre lá, né? Mas dá um calafrio na gente quando a gente vê as luzes, e é de intensidade muito forte e de movimento muito rápido. É inacreditável", reportou o piloto, em áudio recuperado pelo Portal G1.

O último caso mais famoso aconteceu também no Paraná e dividiu opiniões. O influencer Mayk Leão, de 31 anos, acredita ter sido um contato de outro planeta. Apesar das milhares de visualizações e exposição na mídia, o caso levantou diversas suspeitas e Leão decidiu até destruir os arquivos.

O grande problema é que, se antes uma fotografia tremida ou um vídeo de baixa qualidade já bastavam para alimentar discussões sobre discos voadores, a popularização da inteligência artificial elevou esse desafio a outro patamar. Ferramentas de geração de imagens e vídeos permitem criar, em poucos minutos, cenas altamente convincentes de supostos discos voadores, seres extraterrestres ou encontros imediatos. Isso não significa que todo novo registro seja falso, mas torna o trabalho de verificação muito mais complexo.

“Uma pessoa sem grande conhecimento técnico já consegue criar imagens de Ovnis, seres estranhos, vozes e até depoimentos falsos em poucos minutos. Isso torna o nosso trabalho mais difícil, pois precisamos avaliar a origem do arquivo, os metadados, as sombras, a iluminação, os movimentos, os reflexos, a anatomia e possíveis sinais de manipulação”, explica Daniel Gevaerd. Ele também fala do lado positivo da IA.

“Ao mesmo tempo, a inteligência artificial também pode ajudar. Ela pode ser usada para estabilizar vídeos, comparar imagens, identificar objetos conhecidos e encontrar inconsistências”.

A Bahia é campeã de aparições, apesar dos supostos Ovnis terem perdido recentemente um pouco do interesse em visitar o solo baiano. Um caso, inclusive, foi tão emblemático que resultou na fundação de uma universidade que fala sobre seres de outro planeta, a Unikósmica, com sede em Lauro de Freitas.

Este centro foi fundado pelo conquistense Paulo Fernandes, em 1973. O baiano teve uma experiência marcante nas dunas de Stella Maris, em Salvador. Segundo relatos de Paulo, que virou um livro, ele se encontrou com Ashtar Sheran, “um ser extraterrestre com elevada evolução espiritual”, como consta nos relatos. O curioso é que, alguns anos depois do encontro, este mesmo Sheran teria aparecido para outras pessoas pelo mundo. O suposto contato imediato lembra muito experiências mediúnicas no espiritismo, apesar de Sherman ter chegado num disco voador, segundo o baiano, que morreu em 1981.

Outro fenômeno famoso entre os ufólogos aconteceu em Maracangalha e não tem nenhuma relação com Dorival Caymmi. Dois homens teriam sido abduzidos por seres de outro planeta, em 1973. O próprio CORREIO chegou a falar sobre o episódio, no Correio Repórter publicado em 2001. É um caso triste de lembrar. Um dos abduzidos se matou pouco depois da experiência e o outro se mudou do lugar e sumiu. Uma moradora chegou até a falar sobre o assunto. “É mentira isso. Aqui não tem ET nenhum, o que tem em Maracangalha é Lobisomem”, disse. É muito mistério pra pouca pauta…

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Alien Ovnis