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Moyses Suzart
Publicado em 12 de julho de 2026 às 10:23
Quem diria que o osso se tornaria mais cobiçado que o filé. E nem estamos falando daquele ossinho de mocotó com pirão do mocofato que comemos aos domingos. O caldo de ossos, uma tradição milenar, voltou a virar febre principalmente entre celebridades e influencers, que atribuem a iguaria a benefícios para a saúde, principalmente ao colágeno, uma importante proteína que ajuda a pele a ter firmeza, maciez e elasticidade. Ou seja, um combatente contra as marcas da idade. Mas, afinal, funciona mesmo? >
Primeiramente, é preciso lembrar que esta prática não é nenhuma novidade na história do homem. Desde a pré-história, há indícios que os homo-sapiens já cozinhavam ossos para se alimentarem. Na época, pela escassez de alimentos, tudo era aproveitado. Na China antiga, há documentos que mostram a utilização do caldo de ossos de tigre para conter hemorragias. Hipócrates, o pai da medicina, também recomendava o caldinho para problemas digestivos. Agora, a sua utilização vai além do conceito de super alimento. Ele se tornou uma poderosa arma contra o envelhecimento. >
Até Ivete Sangalo e seu ex-marido, Daniel Cady, entraram na onda. Nutricionista conceituado, Cady vende produtos naturais por meio de sua marca própria, incluindo o caldo de ossos. Curiosamente, é o único produto esgotado no site de vendas. Ele custa R$ 17, um pacote com 500 ml, e promete “muito colágeno e proteínas, contribuindo para a saúde das articulações, pele e ossos. Seu longo tempo de cocção, que varia de 12 a 24 horas, garante a extração máxima de nutrientes dos ossos, proporcionando um caldo rico e altamente nutritivo. Feito com ingredientes 100% naturais, este caldo de ossos é ideal para consumo direto, proporcionando uma refeição saudável e rica em colágeno e proteínas”, diz a descrição. >
Martha Sueli, de 55 anos, surfou na onda do caldo de ossos e comprou o produto de Cady. “Eu fico sempre procurando fazer tudo o que é possível até eu ir para a coisa certa, que é ir para o médico resolver, né? Tudo começou porque eu queria perder peso e também estava com um processo de inflamação intestinal. O caldo era consumido principalmente pela manhã, mas a alimentação não era restritiva. Aos poucos, outros alimentos eram reintroduzidos. Eu segui tudo direitinho e perdi peso. Uma amiga minha também fez e emagreceu cerca de cinco quilos”, disse Sueli, que já não usa com frequência. >
“Eu gostei da experiência e me fez bem, mas acredito que o resultado veio do conjunto da alimentação saudável, e não apenas do caldo. Também tenho dúvidas sobre algumas promessas que circulam na internet, como a reposição de colágeno. Ainda gosto de usar o caldo na cozinha, para preparar risotos e outras receitas, porque dá sabor e praticidade”, completa Martha. >
A explicação para essa fama está na composição do caldo. Quando os ossos, cartilagens, tendões e ligamentos são cozidos lentamente, entre 12 e 48 horas, parte de seus componentes passa para a água. Entre eles estão aminoácidos, minerais e fragmentos de colágeno, proteína responsável por dar sustentação aos tecidos do corpo.>
É justamente aí que mora a maior parte das promessas. Nas redes sociais, não faltam relatos de pessoas que afirmam ter notado melhora na pele, fortalecimento das unhas, redução de dores nas articulações e até benefícios para o intestino após incluir o caldo na alimentação. O problema é que nem tudo o que parece lógico biologicamente foi comprovado pela ciência.>
Existem poucos estudos que comprovem a eficácia do caldo. Não que ele faça mal ou não tenha o que promete. Até tem, mas talvez não seja o suficiente para cumprir o que promete. Um estudo publicado pelo Centro Nacional de Informação sobre Biotecnologia, dos Estados Unidos, “É improvável que o caldo de ossos forneça concentrações confiáveis de precursores de colágeno em comparação com as fontes suplementares de colágeno utilizadas em pesquisas sobre colágeno”. O estudo, inclusive, diz que a receita tradicional, caseira, apresentou mais quantidade de nutrientes que o industrializado. “Para preparações padronizadas, os comerciais apresentaram teores mais baixos de todos os aminoácidos do que as variedades preparadas em casa”, conclui. >
Caldo de Ossos
Embora o caldo realmente contenha colágeno, isso também não significa que o organismo irá absorvê-lo da mesma forma como ele existe na panela. Ao chegar ao sistema digestivo, essa proteína é quebrada em aminoácidos e pequenos peptídeos, assim como acontece com qualquer outra fonte de proteína, seja carne, ovos, leite ou peixe. Depois dessa digestão, o organismo utiliza esses nutrientes conforme suas necessidades, sem direcioná-los automaticamente para a pele, cabelos ou articulações.>
“O caldo de ossos pode ser um alimento interessante, mas não deve ser tratado como ‘superalimento’ Ele pode fornecer água, pequenas quantidades de proteínas na forma de gelatina/colágeno, aminoácidos como glicina, prolina, glutamina e arginina, além de minerais como cálcio, fósforo, potássio, magnésio e zinco. Porém, a quantidade desses nutrientes varia muito conforme o tipo de osso, tempo de cozimento, presença de carne/cartilagem, acidez da preparação e quantidade de sal adicionada”, disse a nutricionista Suelen Fernandez. >
Suelen ainda reforça que estudos sobre composição de caldos mostram que eles nem sempre são fontes relevantes de minerais: em uma análise de diferentes caldos, os teores de cálcio, ferro, cobre e magnésio geralmente não chegaram a 5% da recomendação diária por porção. Ela não vê problema de ser inserida na dieta, mas sem esperar milagres, tampouco achando que pode substituir outros meios saudáveis. >
“Ele pode ser incluído, desde que seja entendido como uma preparação culinária complementar, e não como tratamento. Pode ser útil para pessoas com baixa ingestão alimentar, idosos com menor apetite, pacientes em recuperação que toleram melhor preparações líquidas ou pastosas, e pessoas que buscam variar a alimentação com preparações caseiras. Para atletas, pode entrar como complemento, mas não substitui uma refeição pós-treino com proteína completa e carboidratos adequados, por exemplo”, completa. >
Com o avanço da idade, a produção natural de colágeno diminui. Estima-se que, a partir dos 30 anos, essa redução ocorra de forma gradual, tornando-se mais acentuada após os 50 anos e, nas mulheres, depois da menopausa. É justamente nesse período que surgem com maior intensidade a flacidez da pele, a perda de massa muscular e os desgastes articulares. Por isso o caldo de ossos se tornou uma opção interessante para esta faixa etária. >
Mesmo assim, a iguaria não é o centro da alimentação para especialistas. “Na geriatria, nós não recomendamos o caldo de ossos especificamente. Se o idoso gosta e tem dificuldade para mastigar outros alimentos, ele pode ser uma opção, assim como outros caldos preparados em casa. O importante é garantir uma ingestão adequada de proteínas, cálcio, líquidos, frutas, verduras e legumes. É isso que realmente faz diferença para um envelhecimento saudável", disse o médico Rafael Calazans, geriatra da Clínica Florence. >
Ele reforça que não existe nenhum milagre na sopa. “O caldo de ossos pode ser um alimento interessante, mas a fama dele é maior do que as evidências científicas disponíveis. Ele pode fornecer colágeno, aminoácidos e outros nutrientes, porém não existe comprovação de que, sozinho, seja capaz de prevenir o envelhecimento. Não existe evidência científica de que consumir mais colágeno, seja em suplementos ou no caldo de ossos, faça esse colágeno ir diretamente para a pele ou para as articulações”, completa. >
A verdadeira receita para preservar o colágeno continua sendo bem menos glamourosa do que um caldo daquele mocotó que fica bem melhor no pirão do cozido: manter uma dieta variada e rica em proteínas de qualidade, consumir frutas e verduras, praticar exercícios físicos, dormir bem, evitar o cigarro e proteger a pele da exposição excessiva ao sol. O caldo pode ser um aliado nessa rotina, mas dificilmente será o protagonista.>