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Moyses Suzart
Publicado em 2 de agosto de 2026 às 05:00
Pense numa novidade, com certeza chegou antes em Feira de Santana. Quem cresceu na Princesinha do Sertão provavelmente já ouviu alguém falar do Bicho do Tomba, da Xuxa Preta, da Cuca da Lagoa Grande, de algum valentão que "mandava" nas ruas da cidade. Algumas dessas histórias nasceram de fatos reais, outras ganharam força pela imaginação popular, mas todas têm algo em comum: atravessaram gerações e continuam vivas no imaginário dos feirenses. E, para celebrar o mês do folclore, estas lendas urbanas ganharão um novo palco. Neste sábado (2), durante mais uma edição do Unidos pelo Samba, personagens do folclore urbano da cidade serão transformados em performances artísticas, aproximando música, memória e identidade popular. >
A edição do projeto, realizada no estacionamento do Centro de Convenções, também marca um encontro entre a Bahia e o Rio de Janeiro por meio do samba. A cantora feirense Maryzélia, radicada na capital fluminense, divide o palco com o sambista carioca Mingo Silva, integrante do tradicional Samba do Trabalhador. Mas, além da música, o evento aposta em outro patrimônio da cidade: suas histórias.>
Entre os personagens homenageados estão o Bicho do Tomba, a Cuca da Lagoa Grande e a Xuxa Preta, figuras que, durante décadas, povoaram conversas nas calçadas, assustaram crianças, alimentaram boatos e ajudaram a construir uma espécie de folclore urbano tipicamente feirense. Para o professor de História da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Clóvis Oliveira, essas narrativas estão longe de serem apenas histórias inventadas.>
"Em geral, aquilo que chamamos de lenda são construtos sobre fenômenos pontuais da história da cidade. As pessoas procuram dar uma explicação lógica para determinados acontecimentos, transformando fatos em narrativas que atravessam gerações", explica. Segundo ele, praticamente toda lenda urbana nasce de um acontecimento concreto que, com o passar do tempo, vai sendo enriquecido pela imaginação coletiva.>
"A lenda não nasce do nada. Ela parte de um fato real, de um fenômeno ocorrido. Depois, acontecimentos, gestos e até crimes que nunca existiram passam a ser atribuídos àquela figura, que acaba se transformando em mito.">
Se existe uma lenda que simboliza Feira de Santana, ela é o Bicho do Tomba. A história começou na década de 1940, quando o bairro do Tomba ainda era praticamente isolado do restante da cidade, sem luz, só mato. Com pouca iluminação pública, muito mato e estradas precárias, qualquer barulho ou movimento estranho rapidamente se transformava em motivo para boatos.>
"Essa é, sem dúvida, a principal lenda de Feira de Santana. Diferentemente de outras histórias, ela nunca teve um desfecho. Isso permitiu que o Bicho do Tomba continuasse reaparecendo no imaginário popular durante décadas", afirma Clóvis. Segundo o pesquisador, a criatura mistura características de diferentes personagens do folclore. "Ela reúne elementos do lobisomem, que é uma lenda de matriz europeia, mas também incorpora características da cultura popular local.">
A força da narrativa foi tanta que o personagem acabou eternizado em um painel do artista Leno Braga na antiga rodoviária da cidade e, posteriormente, inspirou o romance O Bicho Chegou à Feira, de Muniz André.>
Edição do Unidos pelo Samba transforma personagens do folclore feirense em performances, no dia 2 de agosto
Xuxa Preta>
Muito mais recente, a história da Xuxa Preta mostra como uma pessoa real pode acabar sendo engolida pelo imaginário popular. Ela existiu. Era uma jovem em situação de vulnerabilidade social que circulava entre a rodoviária e o Colégio Gastão Guimarães, em meados de 1994 e 1995. O apelido surgiu por causa dos cabelos descoloridos, que lembravam os da apresentadora Xuxa Meneghel.>
Rapidamente, surgiram boatos de que ela promovia arrastões, perseguia pessoas e espalhava medo pelas ruas. Mas a realidade era outra. "Quando a encontrei pessoalmente, percebi que era uma pessoa franzina, completamente diferente daquela figura gigantesca construída pelas histórias", lembra Clóvis, que viu pessoalmente esta lenda. A personagem acabou desaparecendo do imaginário popular quando outro nome dominou o noticiário da época: Leonardo Pareja.>
"A Xuxa existiu, mas foi absorvida pelo esquecimento quando as atenções da cidade passaram para Leonardo Pareja. Mesmo assim, ela entrou definitivamente para o folclore feirense.". Alguns feirenses juram que ela ainda pode ver na madrugada de Feira. >
Até os anos 1980, nomes como Sílvio Gilmacário circulavam cercados por histórias quase inacreditáveis. "Havia diversas narrativas sobre os valentões da feira. Eram homens que exerciam poder, praticavam violência e acabavam se tornando donos das ruas. Em torno deles se construía um imaginário muito forte.". O certo é que estavam mais para o homem do saco, um jeito de tirar as crianças das ruas. >
Segundo o historiador, trata-se de um fenômeno observado em várias regiões do país. "Em Serra Talhada, por exemplo, existia Vilma Gaia. Criavam histórias sobre uma precisão sobrenatural com armas de fogo, muito parecidas com as narrativas construídas em torno de Lampião.". >
Para Clóvis, um dos fatores que ajudaram a fortalecer tantas lendas urbanas em Feira foi justamente a própria configuração da cidade. "Feira de Santana sempre foi uma cidade muito mal iluminada. Isso favorece o surgimento dessas histórias. Onde existe pouca luz, sobra espaço para a imaginação.">
O historiador lembra que o mesmo aconteceu em diversas cidades brasileiras. Há relatos de monstros criados para esconder namoros clandestinos, histórias inventadas para explicar barulhos misteriosos durante a madrugada e até crenças populares, como a de que "se o galo cantar fora de hora, tem moça fugindo de casa".>
"No fundo, nós temos uma necessidade muito grande de criar narrativas que expliquem o mundo. As lendas cumprem exatamente esse papel". É justamente essa memória coletiva que o Unidos pelo Samba pretende celebrar.>
Ao transformar personagens do folclore feirense em performances durante a roda de samba, o projeto aproxima diferentes gerações e mostra que essas histórias continuam vivas, agora embaladas pelo ritmo que também faz parte da identidade da cidade.>
"Ao trazer essas figuras para o centro da roda de samba, buscamos preservar narrativas que ajudam a contar a história de Feira de Santana e revelar ao público de outras cidades um folclore urbano construído entre a realidade, a memória e a imaginação popular", destaca a organização do evento. Além das atrações musicais e das performances, o evento contará com uma feira de artesanato, economia criativa e gastronomia. O ingresso será cobrado apenas para pessoas a partir dos 13 anos.>
SERVIÇO>
Roda de Samba do Unidos pelo Samba>
2 de agosto, a partir das 15h>
Onde: Estacionamento do Centro de Convenções de Feira de Santana, Bahia>
Atrações: Maryzélia, Mingo Silva, Unidos pelo Samba e performances inspiradas no folclore feirense>
Ingressos: R$ 20 para pessoas a partir de 13 anos, disponíveis no site Ingresso Simples>
Bicho do Tomba>
A principal lenda urbana da cidade. Surgiu na década de 1940, quando o bairro do Tomba ainda era cercado por mata e pouca iluminação. A criatura nunca recebeu uma explicação definitiva, o que ajudou a mantê-la viva no imaginário popular.>
Xuxa Preta>
Jovem em situação de vulnerabilidade que circulava pela região da rodoviária nos anos 1990. Boatos a transformaram em uma criminosa temida, embora, na realidade, fosse uma mulher franzina que acabou incorporada ao folclore local.>
Cuca da Lagoa Grande>
Inspirada nas histórias de um jacaré que aparecia após períodos de chuva, a personagem resgata a memória da antiga Lagoa Grande, quando boa parte da região ainda era ocupada por água, vegetação e taboas.>
Lucas da Feira>
Personagem histórico que viveu no século XIX e se tornou um dos nomes mais conhecidos da história baiana. Ao longo do tempo, sua trajetória ganhou elementos lendários, fazendo dele uma figura entre a realidade e o mito.>
Os valentões da feira>
Homens como Sílvio Gilmacário ganharam fama por exercer poder e espalhar medo pelas ruas da cidade. Em torno deles surgiram histórias exageradas que ajudaram a consolidar seu lugar no imaginário popular.>
Tuta da Rua Grande>
Outra figura marcante da memória oral feirense, lembrada principalmente pelas histórias transmitidas entre moradores e incorporada ao conjunto de personagens que ajudam a formar o folclore urbano da cidade.>