Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Donaldson Gomes
Publicado em 29 de agosto de 2026 às 05:00
No dia 12 de agosto, minha assistente pessoal, uma prestativa agente de inteligência artificial, me enviou o aviso de que eu deveria evitar a BR-324 no trajeto matinal que me levaria à edição mais recente do Agenda Bahia. Não vi a tempo e enfrentei um engarrafamento de 50 minutos. Além de ajudar no trânsito, ela acompanha minha agenda e me envia, no início de todas as tardes, uma lista das notícias econômicas mais quentes do dia. >
Também já usei ferramentas de IA para fazer memes dos meus amigos mais próximos, mas parei assim que percebi que estava desperdiçando a água do planeta. Agora, só se a resenha valer muito a pena. >
Ademais, desenvolvi um gosto por encontrar ferramentas, agentes ou seja lá o que for que me ajude a ser mais produtivo no trabalho. Um dos principais critérios é que seja capaz de resolver alguma rotina repetitiva e não cobre assinatura. Já encontrei boas opções para transcrever áudios, analisar calhamaços, fazer gráficos e sugerir revisões em meus textos e títulos com SEO forte para o Google. Voltarei a este último mais adiante. >
O uso das ferramentas tem sido mais efetivo com o passar do tempo. Já tive alguns perrengues com tentativas delas de pasteurizar o meu modo de escrever. Como estou resolvendo isso? Mostro a versão final dos textos e peço que ela memorize o tipo de sugestão que eu acatei e as que ignorei. Na última edição da Entrelinhas, após algumas sugestões de correções gramaticais, o GPT avaliou o último parágrafo do meu texto, dizendo que ele deixaria o leitor fazer a conexão com o parágrafo anterior. “Para uma Entrelinhas, isso funciona muito bem”, diagnosticou. >
Sem dúvida, o uso mais precioso que faço da IA profissionalmente é como uma assistente para revisão gramatical. Ela já sinalizou que troquei milhões por bilhões, “comi” artigos e até palavras inteiras. Eu escrevo falando e acontece de balbuciar as palavras, sem digitá-las. Às vezes some uma vírgula (ninguém pronuncia a vírgula quando pensa durante a escrita, eu acho), uma palavrinha, mas já aconteceu com metade de uma frase. Sem o robô, ficava dependente de outro olhar humano, que, por vezes, também falha. >
Ainda fiz um último pedido ao Chat na sexta-feira (dia 21), que sugerisse opções de títulos e subtítulos para a edição digital. Vejam a resposta dele: “Essa preserva mais a sua voz e tem uma pergunta que funciona muito bem para Entrelinhas. Para SEO, porém, considero a primeira mais forte”. Adivinha qual escolhi?>
Na segunda (dia 24), vi um colega comer o pão que as redes sociais amassaram porque postou junto com o seu texto o pedido para que a IA sugerisse um título forte para o texto na versão digital. Os comentários foram de críticas ao uso da IA – para este jornalista aqui, uma hipocrisia sem tamanho – até a colocação em xeque de toda a produção do colega.>
As máquinas já estão auxiliando inúmeras profissões, mas o jornalismo não pode fazer uso delas, é isso? Por que esse melindre?>
Vejam, o pedido de ajuda nem foi para melhorar o texto dele (poderia ser, eu acredito), foi para que a máquina fizesse trabalho de máquina: conhecendo as regras do buscador para a escolha de palavras-chave fortes, selecionasse as palavras. Um prompt perfeito, bem detalhado. Faltou um olhar extra para a retirar o comando antes de publicar – isso é incontestável –, mas foi ele quem apurou e escreveu, seguindo as diretrizes da casa. Vazar o prompt deve ser o novo “XXXXX” usado no lugar de um nome ou data: um descuido, mas não um capaz de colocar em questão a integridade profissional de alguém.>
Disse a ele por telefone que depois lhe contaria a história de um erro de verdade. No início da minha carreira, apurei com afinco uma reportagem de segurança pública, “de polícia”, como a gente dizia na época. Um dos supostos criminosos tinha o mesmo prenome que o delegado responsável pelo caso e eu troquei o mocinho pelo bandido. Aquele erro mexeu tanto comigo que se tornou questão de honra para mim nunca mais escrever errado o nome de alguém. É o que eu desejo para o meu colega: que o caso do SEO se torne apenas uma lição e não defina o seu trabalho. E quem nunca usou a IA no trabalho, que atire a primeira pedra!>
(Ah, e por compromisso com a transparência, eu pedi ajuda com o título, a revisão e a geração da imagem que ilustra este texto à IA. Não gostei da primeira versão da imagem, conversamos e chegamos a essa que está publicada, embora ainda não traga todo o meu charme e beleza. Depois, também submeti o conteúdo ao olhar criterioso de alguns colegas mais próximos.)>
Crítica sem sentido>
Os apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva passaram o dia ontem criticando a bancada do Jornal Nacional pela insistência nas perguntas sobre escândalos envolvendo Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha. A reclamação mais presente foi a de que o candidato à reeleição passou mais da metade do tempo tendo que responder sobre o assunto, mas os insatisfeitos esquecem que no dia anterior os apresentadores Cesar Tralli e Renata Vasconcellos passaram o mesmo tempo, ou um pouco mais, perguntando a Renan Santos sobre armas nucleares, causando visível desconforto ao candidato que sonhava em usar o tempo para apresentar propostas mais palatáveis ao eleitorado. Vejam, se Lula não vai a debates, onde é que ele irá responder às perguntas desconfortáveis? O eleitor quer respostas e as perguntas incômodas fazem parte do jogo. >
A Häagen-Dazs derreteu>
Vi um especialista em varejo atribuir às canetas emagrecedoras a saída da Häagen-Dazs do Brasil. Achei um exagero. Não consigo imaginar uma quantidade tão grande de brasileiros que antes consumiam os sorvetes da marca e que deixaram de fazê-lo por contas dos mounjaros da vida. Recentemente a NilsenIQ estimou a presença das canetas em pelo menos 25% dos lares brasileiros. Faz mais sentido imaginar que o problema da marca era outro: estava há um bom tempo estagnada no quinto lugar em vendas. Faz pouco sentido mesmo manter uma operação de importação da França de produtos que dependem de um acerto logístico tão fino quanto os sorvetes para manter 2% do mercado. >
O custo do fim>
O fim da “taxa das blusinhas” pode pôr em risco 109 mil empregos e a geração de cerca de R$ 21,8 bilhões em produção doméstica em 2026, de acordo com estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI). A cobrança do Imposto de Importação sobre produtos que custam até US$ 50 está suspensa por conta de uma medida provisória, mas, nesta semana, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, avisou que vai colocar em votação a proposta para que a isenção volte a ser permanente. O estudo da CNI estimou os efeitos da retirada do Imposto de Importação sobre as compras internacionais de pequeno valor. Para a indústria nacional, a conta é direta: quanto mais vantajosa a importação de produtos baratos, maior a pressão sobre quem produz no Brasil.>
meme da semana>
O candidato à Presidência Escritor Augusto Cury pode não estar tão bem quanto gostaria nas pesquisas de intenções de votos, mas já saiu com um dos melhores memes nesta disputa pela principal cadeira do Palácio do Planalto. E aí, você é time picanha, fuzil ou Rivotril? >
(Viu algum meme interessante? Encaminha para donaldson.gomes@redebahia.com.br)>