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Lembra dele? O fliperama dos anos 80 está de volta e quer reunir os jogadores na mesma tela

Máquinas que marcaram os anos 80 e 90 são adaptadas para casas, festas e bares, em um movimento que mistura nostalgia, games e diversão eletrônica offline

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 12 de setembro de 2026 às 13:00

Sucesso nos anos 80/90, o fliperama está de volta
Sucesso nos anos 80/90, o fliperama está de volta Crédito: Arquivo Correio

Na última semana, o brasileiro parece ter entrado no DeLorean e viajado no tempo, mais precisamente para os anos 80, com a trend da moda na época, com cabelos volumosos, calça apertada e roupa colorida. E nem estamos falando de sertanejo, viu. Contudo, o viral nas redes sociais é só uma ponta de um iceberg nostálgico de quem já está enjoado da era online: o analógico é tendência e os anos 80/90 estão de volta para o futuro. Se na música o vinil voltou com tudo e até nosso bom e velho jornal impresso se tornou leitura entre os jovens, os games também surfaram na onda e trouxeram de volta o fliperama, que marcou gerações, fez muita gente perder de ano e foi a primeira escola dos players. Sabe o que é melhor? Podemos ter um na nossa sala de casa.

Basta dar um Google. Dezenas de fabricantes estão vendendo máquinas de fliperama dos mais variados preços, com entrega para todo o Brasil. Os preços variam entre R$ 800 e R$ 16 mil, a depender da complexidade da máquina, do seu formato, da personalização ou da quantidade de jogos. Barnabé Games (@barnabegames) é um exemplo de que a tendência também chegou à Bahia. Dalmo Teixeira Barnabé é um gamer da época dos fliperamas. A paixão pela eletrônica começou justamente por conta daquelas máquinas quase do tamanho de uma geladeira, com botões e manivelas, além do jogo, claro.

“Minha paixão pelos fliperamas começou ainda na época da escola. Eu estudava na antiga Escola de Engenharia, em Nazaré, e, quando saía da aula, era de lei passar nos fliperamas que ficavam na Ladeira dos Ambulantes, ao lado do Shopping Lapa”, recorda Barnabé, que reforça a interação social que o fliperama trazia e parece estar retornando novamente. “Naquela época, a diversão e a interação social eram 100%. Jogar não era simplesmente passar o tempo. Era encontrar os amigos, conhecer gente nova, disputar partidas, torcer, provocar o adversário e, principalmente, fazer parte daquela atmosfera única que só os fliperamas conseguiam proporcionar”, lembra.

Sucesso nos anos 80/90, o fliperama está de volta por Arquivo Correio

Desde os anos 90, o fliperama já ultrapassa os limites da diversão. Dalmo, quase um MacGyver, chegou a comprar três fliperamas quebrados, ajeitou e colocou no estabelecimento de seus pais, em Mirantes de Periperi. “O lugar era pequeno e não tinha espaço para tanta gente. A movimentação era constante, praticamente o dia inteiro. Era gente chegando, esperando a vez, disputando partidas, fazendo amizades e se divertindo. Tínhamos dificuldade na hora de fechar, pois ninguém queria ir embora”, relata.

O tempo passou, a magia aparentemente morreu. Os fliperamas foram trocados pelos consoles domésticos e tudo virou online. Contudo, enquanto o PlayStation decidiu não mais vender mídia física, prendendo os gamers no mundo virtual, Barnabé viu sua antiga paixão renascer. Ele mesmo, em uma pequena fábrica em Valéria, começou a fabricar seus próprios fliperamas. Foi neste momento que ele viu que existia público, mas faltava oferta. Ele começou a alugar máquinas para eventos e a vender para os nostálgicos, além de bares que querem um fliper para entreter os clientes.

“Acredito que isso esteja muito ligado à nostalgia, mas meus clientes são bem variados. Acho que é uma mistura dos dois. Para quem viveu aquela época, existe uma nostalgia muito forte, mas também percebo bastante interesse dos mais jovens. Eles gostam da simplicidade, da diversão rápida e da experiência de jogar junto. O retrô acabou virando uma experiência que conecta gerações. Muita gente que viveu a época dos fliperamas sente vontade de ter novamente uma máquina em casa, no comércio, em bares ou até em espaços para festas e eventos”, conta.

O processo de fabricação é praticamente artesanal e feito por etapas. Primeiro, é feito o projeto e o corte da estrutura em MDF ou compensado, com preparação dos espaços para tela, controles e alto-falantes. Depois vêm a montagem, o lixamento e o acabamento, que podem incluir pintura, adesivos e instalação de acrílicos ou vidros. A parte eletrônica reúne componentes comprados prontos, como tela, placas para jogos retrô, fonte, joysticks, botões, alto-falantes, cabos e conectores, que são instalados, configurados e testados. Uma máquina simples leva, em média, 15 dias para ficar pronta, enquanto projetos mais elaborados e personalizados podem levar cerca de 25 dias.

Dalmo assegura que o mercado cresce todos os dias, mas ainda há mais espaço para se tornar um negócio bastante lucrativo. “Creio que Salvador ainda tem espaço para esse mercado crescer. Eventos de games e espaços de entretenimento continuam mostrando que existe interesse pelo universo retrô e pelos arcades. O desafio é transformar essa procura em um mercado realmente forte e constante”, assegura.

Nas festas em que Barnabé aluga suas máquinas, o fliper vira atração principal. “Quando colocamos um fliperama em uma festa, ele acaba virando uma das atrações principais, porque desperta curiosidade e muita nostalgia. Acho que o fliperama voltou a ser uma atração porque proporciona uma experiência mais social: as pessoas jogam, competem, torcem e interagem umas com as outras. É uma diversão simples, mas que reúne gerações”, conta.

Sucesso nos anos 80/90, o fliperama está de volta
Sucesso nos anos 80/90, o fliperama está de volta Crédito: Arquivo Correio

Um exemplo curioso dessa adaptação é o de Leonardo Barbosa. Fã de fliperamas desde a infância, ele voltou a montar uma máquina durante a pandemia, só por diversão, mas viu que a brincadeira não era só para ele. A partir dos testes, acabou fazendo um modelo mais compacto, que reúne os controles e pode ser levado para outros lugares com facilidade, diferente do fliperama tradicional. Ele conseguiu até tirar o delay natural do fliperama antigo. Ao fazê-lo, começou a chamar amigos para jogar com ele. Os parceiros gostaram tanto da ideia que o projeto acabou crescendo naturalmente. Era colega pedindo um exemplar para colocar em casa, outro para jogar com os filhos... Foi aí que ele percebeu o quanto o fliperama fazia falta no mundo game.

“Eu sempre acreditei que esses jogos daquela época eram feitos para a gente se divertir. Os jogos de hoje em dia você joga, mas depois que zera você esquece, se perde. Já os jogos retrô, jogos antigos, tinham aquele desafio, aquela emoção de você jogar um The King of Fighters com seu amigo, desafiar ele, ou um Cadillac and Dinosaurs. Era um jogo que emocionava a gente porque era muito difícil e você estava ali ao lado do oponente. No jogo online, sou eu em minha casa e o outro na sua. No fliper, não. É um encontro social”, conta Leonardo, que tem uma página no Instagram que mostra seu fliper adaptado.

“Não precisa ter uma máquina grande dentro de casa. Antigamente havia o problema do custo e do espaço. Hoje os apartamentos são tão pequenos que não tem como você ter um modelo maior. Se eu quiser ir para a casa do meu amigo, não vou levar uma máquina do tamanho de uma geladeira. Levo meu equipamento pequeno para qualquer lugar”, explica.

Leonardo Barbosa aprendeu a fazer seu próprio fliperama
Leonardo Barbosa aprendeu a fazer seu próprio fliperama Crédito: Sora Maia

História

A história dos fliperamas começou antes mesmo da febre dos videogames domésticos. As primeiras máquinas de arcade surgiram entre as décadas de 1930 e 1970, muitas ainda com mecanismos eletromecânicos, até que jogos eletrônicos como Pong, lançado pela Atari em 1972, ajudaram a inaugurar uma nova era. Na década seguinte, títulos como Pac-Man, Donkey Kong, Street Fighter II e tantos outros transformaram os salões de jogos em pontos de encontro, especialmente entre crianças e adolescentes.

No Brasil, a febre ganhou força principalmente nos anos 1980 e 1990, quando os fliperamas se espalharam por bares, lojas, shoppings, locadoras e estabelecimentos de bairro. Era como o número de Drogasil nas ruas de hoje. Todo canto tinha um estabelecimento com fliperama. Antes da popularização dos consoles, era ali que muita gente tinha contato com os grandes sucessos dos videogames.

O avanço dos aparelhos domésticos e, posteriormente, da internet levou os arcades a perderem espaço, mas não apagou a memória de uma geração. Agora, décadas depois, eles reaparecem não necessariamente como eram, mas adaptados à vida atual,resgatando a essência dos jogos antigos de entreter e desafiar sem necessidade de compra skins e armas lendárias. No máximo, conseguir alguns trocados para obter as fichas necessárias para jogar.

Talvez seja justamente aí que esteja o segredo desse retorno do game antigo. O fliperama não voltou para disputar espaço com o Playstation ou com o jogo online, mas para oferecer uma experiência que eles nem sempre conseguem entregar: sentar ao lado de alguém, escolher um personagem, meter um Hadouken moralizador sem a necessidade de um tutorial de 40 minutos e descobrir, em segundos, quem é o melhor na pancadaria. No mundo em que quase tudo cabe na tela do celular, talvez a graça do fliper esteja justamente em voltar a dividir a mesma tela.

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Games Fliperama