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Flavia Azevedo
Publicado em 5 de setembro de 2026 às 13:00
Não estou aqui dizendo que acho lindo expor crianças publicamente, coisa que pais e mães vivem fazendo na internet, inclusive as ridicularizando por puro divertimento. Porém, preciso confessar que uma parte de mim bate palmas quando Luana Piovani faz coisas como nesta semana, em que denunciou piolho na filha e picadas de inseto mal cuidadas nos filhos gêmeos que estavam sob os cuidados do pai. Nas caixas de comentários, aquele argumento que se usa quando qualquer uma de nós reclama do ex: "ela não superou". E a gente bem sabe quantas vezes fica calada, justamente pra não ser acusada de ainda desejar ardentemente o alecrim. >
O medo desse ridículo talvez seja mais difícil de superar do que qualquer relação que acaba, qualquer homem, qualquer história, por mais linda que tenha sido. Pois Luana, lá de Portugal, ao apertar o "fodace", dá um curso inteiro pra gente. Ela apenas deixa que digam, que pensem, que falem, e com isso prova que superou não só o tal Scooby, mas também qualquer julgamento medíocre e também a sua opinião.>
Quando ela abre a boca sobre esse tema, é quase uma vingança coletiva, por fatos comprovados tantas conversas com amigas, que acabam confessando o que todas nós sabemos, mas fica restrito à frequência de comunicação feminina. Não vou contar os meus casos, que meu filho vai se retar comigo. Porém, não faltam relatos de amigas, de parentes e observações todos os dias. Uma me disse ontem que o filho voltava com febre na maior parte das vezes em que ia à praia com o pai tão alegre e festivo. A outra relatou várias infestações de piolhos na menina de cinco anos.>
Publicações de Luana Piovani
Uma terceira, cujo filho tem asma, já comentou dezenas de internações do garoto porque o pai não consegue manter os cuidados básicos que evitam crises. E tem o caso do menininho que chegou em casa vomitando porque o papis resolveu "dar uma lição", obrigando-o a comer, chorando, mais lasanha do que caberia no estômago. Fora aqueles casos em que a criança volta doente, ou suja, ou machucada, sempre, sem falta, depois de uns dias com o pai. >
Fico aqui imaginando o quanto essas mães ainda devem ser "apaixonadas" por esses homens disfuncionais que, não raro, são capazes de cometer negligência, tratamento cruel e maus-tratos contra as pessoas que elas mais amam no mundo. Alguma chance? Nenhuma. Mas, se comentarem publicamente, sempre tem alguém pra dizer que elas "não superaram o fim da relação".>
Você acha que tô exagerando nas tipificações? Então, vejamos: eu não sou advogada, mas a pesquisa é livre. Até onde entendi, negligência não é simplesmente esquecer uma toalha, deixar a criança brincar descalça ou fazer uma escolha diferente da que a mãe faria. O Ministério da Saúde considera negligência a omissão de cuidados e inclui aí desde o descaso com a higiene até a falta de acompanhamento e tratamento de problemas de saúde.>
Luana Piovani
Já os maus-tratos, segundo o Código Penal, acontecem quando alguém responsável pela criança a expõe a perigo, inclusive privando-a de cuidados indispensáveis ou abusando de meios de correção e disciplina. O Brasil, recentemente, decidiu que isso é coisa séria: em 2025, a pena deixou de ser detenção de dois meses a um ano (ou simples multa) e passou a ser reclusão de dois a cinco anos. Ou seja, se a criança volta repetidamente doente, suja ou machucada porque quem deveria cuidar dela não cuida, se uma doença crônica é negligenciada a ponto de colocar sua saúde em risco, ou se "dar uma lição" significa obrigar uma criança a comer até vomitar, há ilícito e não é pequeno.>
Acontece que conhecemos as varas de família no Brasil. Se no senso comum das redes sociais riem das queixas das mães e afirmam "ela não superou", é porque esse pensamento estrutura o olhar sobre nós. Então, evidentemente, o ambiente judiciário é contaminado por isso. Claro que já há um movimento de observar as ações sob perspectiva de gênero e um grande esforço para cancelar a Lei da Alienação Parental, que é a munição mais pesada de pais abusivos e/ou disfuncionais contra denúncias. Porém, nessa peleja, ainda é comum gastarmos anos de vida tentando convencer magistrados de que o pai todo fofo que senta à mesa de audiência coloca a integridade do filho em risco repetidamente.>
Então, há quem escolha constranger publicamente, pra ver se resolve. Na maioria das vezes sou incapaz de mensurar se seria mais prejudicial à criança a exposição pública ou o segredo em torno da negligência paterna. No caso dos filhos de Luana, foi o piolho que viralizou, esse que pode até ser enquadrado na vara de pequeníssimas causas porque sabemos que qualquer criança pode pegar na escola. Mas tem que tratar. Só que as picadas de inseto e os machucados no menino, também denunciados por ela, não são bobagens. >
O pai, claro, rebateu: disse que o piolho veio de Portugal, que a menina já tinha chegado assim, que o menino só é uma criança ativa que se embrenhou no mato. Pode até ser verdade, mas repare no que isso prova: mesmo com foto na mão, criança na tela, prova visual do piolho e dos machucados, o primeiro movimento coletivo ainda é validar a defesa dele e ridicularizar a mãe. É exatamente sobre a repetição disso o nosso papo. Inclusive porque, vai uma mãe deixar filho piolhento ou cheio de pereba pra ver no que é que dá.>
Também tenho alergia a picadas desde criança. Nenhuma jamais chegou perto daquilo. Nem sequer tenho marcas. Mas isso é porque fui muito bem cuidada. Por mãe e pai. Repelente sempre e, caso haja picada, passa uma pomadinha com corticoide de baixa potência. Resolve, em geral. Fica a dica pros pais "bonzinhos, do bem, tão galera", mas que a gente é que sabe. Abraça aqui, Luana. Conheço bem o que você passa.>
Por @flaviaazevedoalmeida articulista do Correio, editora e mãe de Leo>