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“Meu mundo é maior do que o seu”, disse Tamara Klink, sem precisar falar uma palavra

O tribunal da internet tentou transformar uma reflexão em crime, mas dessa vez não colou na personagem principal

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 15 de agosto de 2026 às 13:00

Tamara Klink em seu barco Sardinha
Tamara Klink em seu barco Sardinha Crédito: Reprodução

Tamara Klink tem 29 anos, foi a brasileira mais jovem a cruzar sozinha o Atlântico, virou a mulher mais jovem do mundo a completar a Passagem Noroeste em solitário e passou oito meses presa num veleiro no gelo da Groenlândia. Porque quis. Tudo isso está aí, registrado e disponível para quem quiser admirar aventuras e paisagens. Mas o que me interessa aqui é o jeito que ela fala sobre solidão, frustrações e a obsessão tão contemporânea de ser validado pelo olhar do outro, especialmente de estranhos nas nas redes sociais.

Se você não acompanhou o caso, veja que o enredo tem comicidade. Com Bom Dia, Inverno há meses na lista dos livros mais vendidos do país, Tamara gravou um vídeo sugerindo que as pessoas não comprassem exemplares novos da sua obra. Falou em emprestar, doar, ir à biblioteca. A ideia era apenas essa: o livro DELA já estava circulando, a experiência podia ser compartilhada. A internet, desonesta e literal como quase sempre, ouviu um apelo ao boicote da literatura mundial. Em poucas horas, ergueu-se o tradicional tribunal de linchamento virtual para acusá-la de irresponsabilidade com a cadeia editorial.

Tamara Klink é navegadora e escritora por Reprodução

A reação trouxe o problema habitual entre a nuance e a busca por engajamento. Quem vive de vender livros tem, sim, motivos legítimos para se preocupar com a saúde do mercado. Só que Tamara não atacou o mercado, falou apenas do próprio livro. Por outro lado, o tribunal das redes não estava preocupado com pequenas livrarias ou autores independentes; estava apenas - como sempre - faminto por algo que pudesse ser lido como deslize, ou seja, uma oportunidade para “lacrar”. O problema é que tentaram aplicar a lógica do cancelamento a alguém que passa meses em silêncio absoluto no mar congelado. A provocação bateu na lataria e voltou. “Meu mundo é maior do que o seu”, disse Tamara Klink, sem precisar falar uma palavra.

No mundo de Tamara, dizer "não preciso disso" no meio do barulho coletivo é condição de sobrevivência. Enquanto muita gente precisa de validação constante para aturar a própria rotina, ela aprendeu o conceito de “mínimo necessário” na prática, calculando ração, água, energia, riscos reais e distâncias no Ártico. Ao ver o planeta de um ângulo que a maioria de nós jamais verá, entendeu bem cedo a diferença entre desejo e necessidade. Além disso, confirmou o óbvio de que a maior parte das nossas crises - individuais e coletivas - vem justamente do consumo desenfreado. Inclusive a pobreza de grande parte da população que sequer pode escolher o que consumir, porque vive obrigatoriamente, quando muito, apenas com o básico.

Quando Tamara disse "não comprem o meu livro", ela estava apenas aplicando à própria obra a régua com que mede a vida: a da consciência e do essencial. É claro que ela é uma pessoa socialmente privilegiada. Mais claro ainda é que isso foi usado como "xingamento". Como sabemos, Tamara é filha de Amyr Klink, esse famoso navegador, escritor e palestrante brasileiro o que, minimamente, já garante visibilidade. Tamara usa seu privilégio (e não conheço quem, tendo, não vá usar) mas também faz dele instrumento para propor alguma reflexão sobre... sustentabilidade. Mas não é justemente esse tipo de postura que tanta gente cobra das "celebridades"? Pois ela fez e foi linchada. Tamara é o tipo de pessoa que o ecossistema digital não consegue processar.

No Roda Viva, ainda aos 27 anos, Tamara descreveu o "desaprendizado" que começou no gelo. Ela fala do momento em que a aprovação alheia perde o peso e as convenções que seguimos sem examinar deixam de fazer sentido. Tamara diz que foi para o Ártico também para descobrir quem era sem ninguém por perto para confirmar, vigiar ou legitimar sua existência. Ela fala da tal “musculatura da frustração” - construída a cada pedra em que o barco batia sem afundar - que virou um método para encarar contrariedades da vida sem presepada. Tamara, além de viver o extraordinário, sabe elaborar. O que, como você sabe, anda cada vez mais raro.

A postura dela no episódio do livro só confirmou tudo que fala. Quando a polêmica estourou, Tamara poderia ter entrado naquele jogo de gravar vídeo de tréplica, escalar o bate-boca ou vestir o figurino de vítima. Em vez disso, agiu como quem não tem saco pra pequenas vaidades. Apesar de, evidentemente, não ter atacado o mercado editorial, ela publicou uma nota pedindo desculpas e seguiu em frente. Sem escândalo, sem circo. Depois disso, voltou pro mar em uma viagem que está linda de acompanhar.

A caricatura da futilidade só cola em Tamara se você olhar de longe. Basta chegar perto do trabalho dela para ver uma maturidade impressionante numa época em que tanta gente passa a vida exigindo que o mundo se dobre aos seus caprichos. A paisagem interna que ela traz é ainda mais interessante do que as imagens e narrações das viagens exuberantes.

As vendas do livro de Tamara escalaram, claro. Mas sugiro que você pegue emprestado. De todo modo, leia o que ela escreve e escute o que ela diz. Também siga o @tamaraklink e conclua que, em um ambiente viciado em ruído e moralismo, a liberdade dessa mulher é um verdadeiro espetáculo. Aí, você pode aplaudir uma pessoa realmente interessante, enquanto namora com a realidade de que – diferentemente do Ártico – essa liberdade dentro da cabeça qualquer um de nós pode, de fato, conquistar.

Por @flaviaazevedoalmeida