Acesse sua conta
Ainda não é assinante?
Ao continuar, você concorda com a nossa Política de Privacidade
ou
Entre com o Google
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Recuperar senha
Preencha o campo abaixo com seu email.

Já tem uma conta? Entre
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Dados não encontrados!
Você ainda não é nosso assinante!
Mas é facil resolver isso, clique abaixo e veja como fazer parte da comunidade Correio *
ASSINE

Muito além de desenvolver habilidades físicas, aprender a se comportar na academia é o mais novo desafio de quem treina

Com as salas cada vez mais cheias, hábitos como gravar vídeos e monopolizar aparelhos viraram o principal motivo de atrito entre alunos

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 27 de setembro de 2026 às 05:00

Aparelho não é lugar de rolar feed
Aparelho não é lugar pra rolar feed Crédito: Thainá Dayube

Quando a escritora e jornalista Mariana Paiva começou a treinar musculação, teve dois choques. O primeiro foi ver homens soltando o peso no chão depois de cada série. O segundo foi um barulho que ela não esperava. "Foi o gemidão da academia, que é mil vezes mais assustador do que o gemidão do zap", diz, lembrando de um meme antigo.

Paraleho não é lugar por Thainá Dayube

Ela reparou em outro detalhe. "As mulheres, mesmo pegando a mesma quantidade de peso ou pegando às vezes mais peso do que esses homens, elas não gemem", conta. Para Mariana, isso não é acaso: "Por que os homens estão legitimados a fazer esse tipo de barulho em público? Um barulho de gemido alto, mais estardalhaço do que tudo, no ambiente em que as pessoas estão concentradas em seus exercícios, um barulho que desconcentra, que incomoda, que não tem nada a ver com o ambiente, deseducado, inclusive."

Ela também observa questões psicológicas. "Eu olho também como aquele momento de uma autoestima baixa de alguém que precisa se afirmar em relação ao peso que está pegando", afirma. "É aquela coisa ridícula e constrangedora pra todo mundo que tá ali presente, e não é possível que a pessoa que tá ali protagonizando isso não perceba."

O gemidão é só um exemplo de um problema maior. A academia hoje é lugar de treino, estúdio de gravação e ponto de encontro ao mesmo tempo, e as regras dessa convivência não estão escritas em lugar nenhum. Uma pesquisa da rede britânica The Gym Group encontrou que um terço dos frequentadores sente algum grau de "gymtimidation" - o desconforto de treinar sob o olhar dos outros - e quase metade dos entrevistados disse temer ser observada, julgada ou criticada por outros alunos nesse ambiente. Mas quais são os maiores pontos de atrito?

Tripé, celular e gravação

A personal trainer Mayana Mendes descreve bem esse cenário: "Em terra onde até a garrafinha ganhou ímã para virar tripé, o celular virou quase uma persona non grata." Segundo ela, o aparelho em si não é o problema, já que ajuda a marcar treino, tocar música, seguir planilha. "O problema começa quando a pessoa senta no aparelho e entra nas redes sociais. Você chega para revezar e descobre que não está revezando com uma pessoa. Está revezando com o algoritmo."

Mayana também fala do incômodo de quem aparece sem querer em vídeos de terceiros. "A pessoa está ali cuidando da saúde, por exemplo, no horário de almoço, e, de repente, aparece no vídeo de outra pessoa sem ter escolhido aparecer, e ainda leva fama de que está dando um migué no trabalho", diz. "Uma coisa é querer registrar o próprio treino. Outra é transformar todo mundo ao redor em figurante da vida fitness que a rede social vende."

Ela cita ainda uma situação que pode gerar mal-entendido: alguém treinando atrás de quem está gravando pode acabar olhando na direção da câmera, e ser mal interpretado por isso. "Talvez esteja apenas tentando entender por que alguém está falando sozinho para uma garrafinha com tripé", explica. "E aí já pode ser vista como quem está ali te secando, sendo que o pobre coitado só estava tentando entender o que estava acontecendo."

A engenheira e psicoterapeuta Ana Cristina Azevêdo, que treina musculação, passou por algo parecido. Ela estava numa escada ergométrica ao lado de outra aluna. "Tem duas escadas na academia, eu estava em uma e a moça estava em outra. Eu entrei na escada, dei bom dia, mas ela não me escutou porque tava conectada no fone", conta. "E aí eu continuei fazendo minha atividade, meu exercício, e do absoluto nada ela começou a abrir uma live no celular dela - o que não me incomodou, porque ela tava falando com ela mesma. Só que aí ela deu um grito e fez assim: 'uhul galera, a gente tá aqui, olha eu e minha amiga!' E me filmou. E eu com a cara de medo, porque eu tomei um susto - essa pessoa não falava comigo, essa pessoa não me deu bom dia! E essa pessoa tava me colocando na rede social dela, como se eu fosse uma amiga treinando com ela. Eu fiquei assustada com aquela situação."

Revezar o aparelho, não testar a paciência

A dificuldade de dividir aparelho em horário cheio aparece em quase todos os relatos. Ana Cristina reclama do tempo de descanso que vira tempo de celular. "O tempo de descanso entre uma série e outra deveria ser em média 40 segundos a um minuto, mas muitas vezes o cidadão passa de três minutos perdido nas informações contidas no celular e redes sociais", diz.

Existe diferença entre descansar o tempo certo e monopolizar o aparelho. Treinos pesados, como agachamento e levantamento terra, pedem pausa maior para o corpo recuperar. O problema é quando essa pausa vira conversa no celular, ou quando alguém ocupa mais de um aparelho ao mesmo tempo. Mayana descreve assim: "Outro clássico é a ocupação simultânea de aparelhos. Garrafinha em um, toalha em outro, celular no terceiro, e a pessoa fazendo um circuito turístico pela academia. Meu amor, isso não é reserva de mesa."

A advogada Thiciane Rebouças, também praticante de musculação, aponta o mesmo problema como sua maior queixa. "O uso dos equipamentos por mais tempo que o necessário porque a pessoa está gravando vídeo ou vendo o celular. Geralmente isso acontece nos aparelhos mais disputados. Também me incomoda que as pessoas conversem muito alto", diz. Ela prefere não confrontar direto. "Geralmente não reclamo com o frequentador em questão. Se ficar muito frequente e muito incômodo, converso com o responsável pela academia."

O personal trainer Antony Maxwell orienta os próprios alunos a driblar a espera. "Eu oriento meus alunos a pular o exercício e ir para o próximo que está disponível, até o momento que ele identifique que aquele aparelho está disponível", conta. "E se o aparelho ainda estiver com grande demanda de pessoas, eu oriento ele a fazer a substituição por um exercício similar, ou até um exercício de peso livre ou com peso corporal."

Sobre higiene, Antony é direto ao listar o que vê no dia a dia: alunos que não higienizam o aparelho para quem vem depois, que não guardam os pesos no lugar certo, que jogam o pano de limpeza no chão ou deixam no aparelho - "e até colam chiclete nos aparelhos e jogam chiclete no mictório", diz. Thiciane resume o mesmo incômodo: "Não limpar o aparelho depois do uso também acho de péssimo tom."

Conselho e falta de espaço

Outro ponto de atrito é o conselho não pedido. O educador físico Lucas Sacramento, graduando em Nutrição Esportiva e em Bases Fisiológicas para a Prescrição de Treino Individualizado, prefere agir com calma quando precisa corrigir algum aluno. "Quando preciso orientar um aluno sobre alguma situação, procuro ser o menos invasivo possível e sempre cordial. Ninguém gosta de ser chamado a atenção, então a ideia é muito mais conscientizar e educar do que criar um conflito", diz. E veja que Lucas é um profissional. Também são recorrentes as queixas sobre absolutos leigos que decidem dar palpites do treino alheio.

Para Lucas, a maior parte dos atritos na academia não é exclusiva da academia. "Eu acredito que o maior problema de convivência dentro da sala de musculação é, na verdade, um reflexo de um problema da sociedade em geral: a dificuldade de conviver com o outro e de respeitar o espaço coletivo", afirma. Ele cita o exemplo mais comum: alguém termina de usar um aparelho e não guarda os pesos. "Isso pode acontecer tanto por falta de educação e conscientização de que estamos em um ambiente coletivo quanto por distração, principalmente quando a pessoa está muito focada no celular." E completa: "O direito que você tem de utilizar um aparelho é exatamente o mesmo que a outra pessoa tem."

Thiciane tem uma queixa parecida, mas num contexto diferente: alunos tirando dúvida com o personal durante o horário dela. "Acho de extremo mau gosto a pessoa tirar dúvida, conversar ou pedir auxílio com aparelhos com o personal enquanto ele está no meu horário contratado", diz. "O personal cobra por hora e encerra o treino no horário marcado, independente de o programa daquele dia ter terminado. Então, ele perder tempo com outra pessoa atrapalha meu horário."

Ana Cristina liga esses comportamentos ao isolamento dentro de um espaço que antes era social. "A academia era também um local de socialização, fazíamos bons amigos; hoje ninguém fala com ninguém", diz. "Se você chega e dá um bom dia, as pessoas não respondem. Elas estão com seus fones de ouvido, desatentas e sem presença. Se acontece alguma coisa, se a pessoa quer avisar de um perigo, elas não vão escutar. É um hábito que chega a ser preocupante, além de antissocial. Parecem robotizados."

Mayana finaliza a conversa dizendo: "quanto mais gente na academia, mais importante fica a etiqueta: guardar o peso que usou, respeitar o espaço do outro, não monopolizar aparelho, usar fone, cuidar da higiene e, principalmente, pensar antes de transformar o colega em personagem involuntário do seu conteúdo. Ou seja, entre uma série e outra, talvez esteja na hora de treinar também um músculo que não aparece no espelho: o bom senso”.

AS DEZ PIORES PERSONAGENS DA ACADEMIA


  1. O Fantasma do Leg Press - larga a máquina carregada de anilhas para o próximo aluno desmontar
  2. O Gymfluencer Inconveniente – monta tripé no meio do caminho e se irrita com quem passa pela área comum
  3. O Rastreador de Suor - deixa poça de suor no banco ou na esteira e vai embora sem higienizar
  4. O Zumbi do Celular - ocupa a gaiola de agachamento por 20 minutos fazendo duas séries e passa o resto do tempo no feed
  5. O Instrutor Sem Diploma - interrompe o treino alheio para corrigir a postura sem que ninguém tenha pedido
  6. O Gritador Dramático - geme e ruge a cada repetição em carga leve só para chamar atenção
  7. O Arremessador de Halteres - solta peso pesado com estrondo no chão de academia sem piso preparado para isso
  8. O Negociador do Fone - anda pela academia falando alto no telefone sobre trabalho ou vida pessoal
  9. O Acumulador de Pesos - pega quatro pares de halteres de uma vez, num horário em que a academia está lotada
  10. O Secador Inconveniente - encara fixamente outras pessoas enquanto treinam

A ELEGÂNCIA QUE APARECE MAIS DO QUE QUALQUER SHAPE


  1. Limpar o aparelho com álcool e papel toalha antes e depois de usar
  2. Descarregar as anilhas pensando em quem vai usar depois
  3. Aceitar revezar com um sorriso quando alguém pede
  4. Gravar o próprio treino sem pegar quem não quer aparecer
  5. Tirar o fone por um segundo para responder a um bom dia
  6. Esperar o fim da série de alguém antes de passar na frente do espelho que essa pessoa está usando
  7. Manter a voz baixa e deixar chamada longa fora da sala de musculação
  8. Usar perfume discreto em vez de saturar um ambiente fechado
  9. Deixar o pump check sem camisa para o espelho do vestiário
  10. Não tirar dúvida com o personal de outra pessoa durante o horário contratado

Por @flaviaazevedoalmeida