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Flavia Azevedo
Publicado em 15 de agosto de 2026 às 05:00
Maria Esther Almeida tem 76 anos, e quando alguém pergunta como foi a entrada dela na menopausa, a resposta é muito simples: "o fluxo menstrual foi diminuindo, e o espaço de um para o outro aumentando". Ela conversou sobre isso com amigas, com o marido médico e com a ginecologista mas, como resume, "sempre encarei com naturalidade. Minha vida seguiu normal, não fiz reposição hormonal, não aconteceu nada relevante." >
“Não aconteceu nada relevante” é uma frase estranha de se ouvir sobre um evento que a cultura tem tratado como um momento de perdas, sintomas e correções. Maria Esther, fisioterapeuta, chegou à menopausa numa época em que não havia o vocabulário público que existe hoje — sem internet, sem grupo de apoio, sem prateleira de suplemento com nome em inglês — e traz um relato que muita gente hoje teria dificuldade de aceitar como possível: o de que, simplesmente, não aconteceu nada de mais.>
Cada uma de um jeito>
A experiência dela não é a regra, mas também não é um caso isolado. O Estudo da Saúde da Mulher em Todo o País (SWAN, na sigla em inglês), a mais longa pesquisa longitudinal sobre a transição menopausal, acompanha milhares de mulheres americanas desde 1994. O achado mais citado é que entre 60% e 80% das mulheres apresentam ondas de calor ou suores noturnos (os famosos “fogachos”) em algum momento da transição, o que costuma virar manchete como "a maioria das mulheres sofre com calorões". É verdade.Mas a mesma conta deixa de fora o dado de que entre um quinto e dois quintos das mulheres não relatam esse sintoma – que é um dos mais comuns e relatados como incômodos - em nenhum momento.>
O próprio SWAN também mostra diferenças substanciais por grupo étnico: mulheres negras relatam esses sintomas com mais frequência e por mais tempo; mulheres asiáticas relatam significativamente menos, mesmo quando se controlam fatores de saúde e estilo de vida. Em pesquisas com mulheres maias, no México, o sintoma foi relatado como praticamente inexistente, a ponto de as próprias entrevistadas não reconhecerem do que a pesquisadora estava falando quando descrevia calor súbito e sudorese.>
O que é menopausa, o que é climatério>
Antes de seguir, vale separar dois termos que o vocabulário popular trata como sinônimos. Menopausa é uma data: o dia, identificado só retrospectivamente, doze meses depois da última menstruação. Climatério é o período — de anos, às vezes mais — em que os ovários vão reduzindo a produção hormonal antes e depois dessa data. Segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), há cerca de 17 milhões de mulheres no climatério no Brasil, e cerca de 9,2 milhões já na menopausa. A confusão entre os dois termos não é apenas semântica: entender que climatério é processo e menopausa é marco ajuda a perceber por que a experiência varia tanto. Não se trata de um evento único, mas de uma transição que cada corpo atravessa em ritmo próprio.>
"A menopausa traz uma alteração hormonal que vem atingir de forma diferente cada mulher", explica a ginecologista e professora universitária Eliane Flores. Ela recorre a uma comparação simples: "quem é que não lembra da menarca (primeira menstruação), quando começou a adolescência, de sair batendo porta, responder, gritar, fazer coisas que você antes não fazia? A menopausa, apesar de não ser uma doença, traz alterações de ordem sistêmica, que vão do psicológico ao vascular.">
A frase "apesar de não ser uma doença" é o cerne da questão clínica. Eliane distingue duas coisas que atualmente andam misturadas: a menopausa em si — evento biológico normal do envelhecimento — e os sintomas que ela pode, ou não, provocar. "Algumas mulheres suportam muito bem essas alterações, e para outras elas se tornam insuportáveis no dia a dia: calores que acordam no meio da noite, insônia, labilidade emocional, choro fácil, depressão." Nesses casos, diz, o tratamento entra porque a qualidade de vida está sendo afetada, não porque a menopausa, por si, exija correção.>
Quando entra o tratamento, quem decide é a paciente. "A gente conversa enquanto médico, dizendo: é bom para isso, isso e isso, mas você pode ter isso, isso e isso. E a resposta final é sempre da paciente. Ela tem total governabilidade sobre os atos dela." A médica faz questão de marcar a diferença em relação a outras condições clínicas: "diferente de uma situação de diabetes, em que você diz 'a senhora não vai ficar bem se não tomar o remédio', aqui há opções".>
A "janela de oportunidade">
É essa mesma lógica — decisão informada, não protocolo automático — que orienta as diretrizes médicas mais recentes sobre terapia hormonal. A posição de 2022 da Menopause Society (antiga North American Menopause Society), referência internacional no tema, afirma que a terapia hormonal continua sendo o tratamento mais eficaz para sintomas vasomotores e para a chamada síndrome geniturinária da menopausa, além de prevenir perda óssea. Mas a mesma diretriz enfatiza que o tratamento deve ser individualizado, considerando tipo, dose, via de administração, momento de início e histórico de cada mulher. Para quem tem menos de 60 anos ou está a até dez anos da menopausa e não tem contraindicações, a relação risco-benefício costuma ser favorável. Fora dessa janela, os riscos — trombose, AVC, em alguns casos câncer de mama — pesam mais na balança, e a decisão exige mais cautela.>
No Brasil, a Febrasgo segue a mesma linha em diretriz conjunta com a Sociedade Brasileira de Cardiologia: a reposição, se for a escolha, deve começar dentro dos primeiros dez anos após a menopausa ou antes dos 60 anos para que os benefícios superem os riscos. Essa é a chamada "janela de oportunidade". Nenhuma das duas diretrizes trata a terapia hormonal como padrão obrigatório, mas como ferramenta, indicada quando os sintomas incomodam o suficiente para justificar os riscos envolvidos, e sempre sob reavaliação periódica. Em outras palavras, a ciência que sustenta a reposição hormonal é a mesma que sustenta o direito de não fazê-la.>
Simone Serrano, por exemplo, teve sintomas incômodos. Aos 56 anos, o corpo alternava frio e calor à noite "como se revezassem turno". Foi à ginecologista talvez esperando alguma receita, mas recebeu uma ponderação. "Ela falou que eu ainda produzia muito hormônio e que para ela não precisava repor nada que meu corpo ainda produzia", conta Simone, administradora de empresas, hoje com 63 anos. Os exames vinham ótimos. A decisão de não fazer reposição hormonal, então, nasceu da conversa com essa médica que questionou, junto com ela, se seria mesmo necessário tratar. Pouco tempo depois, os sintomas passaram sem qualquer intervenção.>
A cena importa porque inverte um roteiro que a maior parte de nós aprendeu a considerar automático: mulher chega aos 50 e poucos anos, mulher sai da consulta com uma prescrição. Para milhões de mulheres, a prescrição é exatamente o que devolve qualidade de vida. Mas o roteiro automático tem a falha trágica de tratar a menopausa como evento que precisa, por definição, de uma resposta médica. Isso porque, fora dos consultórios, há mulheres para quem essa premissa simplesmente não se sustenta.>
Simone acredita que sua experiência tem explicação genética. "Minha mãe foi bem tranquila, não sentiu nada e também nunca tomou nada. Hoje ela tem 88 anos, saúde ótima. Minha irmã tem 58 anos e também não faz reposição. Estou falando isso porque acho que é hereditário." Não é uma afirmação científica e sim uma observação de família, do tipo que qualquer um faz ao juntar os pontos da própria história. Ainda que a hereditariedade dos sintomas dessa fase da vida siga sendo estudada, a percepção de Simone aponta para algo que a própria literatura já registra: podem existir padrões familiares.>
Ela sofreu, sim, mas foi com um mioma grande, que provocava hemorragias e levou à retirada do útero. Os ovários permaneceram. "Ainda produziam hormônios." Hoje, aos 63, corre provas de rua, faz musculação, caminha. "O que eu diria é que o mais importante da vida é sempre estar em movimento. O corpo não pode ficar parado.">
"Isso não é grande coisa">
Kátia Najara, cozinheira e dona da @zabesalvador, trata do assunto falando de remédios, e de por que evita usá-los. "Odeio remédios e tudo o que a indústria farmacêutica representa. Só tomo em último caso. Aqui em casa só tem folha, e no máximo um ibuprofeno." Ela nunca recorreu a informações sobre "tratamento de menopausa" porque, nos quase cinco anos desde que a fase começou, os incômodos que sente lhe parecem administráveis, "como os que eu administrava quando menstruava", e parte do processo natural de envelhecer.>
Isso não significa recusa categórica: "Não quer dizer que eu não vá recorrer a uma reposição, se achar necessário em algum momento para regular hormônios que venham a comprometer a minha saúde, o que ainda não é o caso." Queda de energia ela resolve indo à academia; ressecamento vaginal, com óleos naturais; insônia pontual, com chás de tília e valeriana.>
Sobre as mulheres que vieram antes dela, tem uma teoria própria: "acho que as minhas mais velhas nem sabiam o que era TPM e menopausa, e administravam esses incômodos como incômodos próprios do corpo da mulher. Para elas — que estão vivas e saudáveis —, não houve alarde.">
A antropóloga médica canadense Margaret Lock passou anos comparando mulheres japonesas e norte-americanas na meia-idade, num trabalho hoje clássico da antropologia médica. Sua descoberta foi de que a menopausa não é universal. Na pesquisa, japonesas relatavam consistentemente menos sintomas físicos e, mais que isso, nem sempre organizavam a experiência em torno de uma categoria equivalente à "menopausa" ocidental. Quando reclamavam de algo naquela fase da vida, reclamavam menos de calor súbito e mais de “ombros duros”.>
Lock cunhou depois a expressão "biologias locais" para descrever que corpo e cultura não são camadas separadas — uma biológica, outra social —, mas processos que se moldam mutuamente ao longo do tempo. Isso pode ser um lembrete de que dieta, genética, contexto cultural e a própria forma como uma sociedade nomeia uma experiência entram na composição do sintoma. O corpo não é indiferente à história que se conta sobre ele, o que ajuda a explicar por que Simone, Kátia e Maria Esther, com vidas tão diferentes, chegaram a versões tão parecidas de "isso não é grande coisa".>
Liberdade, sexo, desejo>
A psicóloga clínica Anna Marchesini, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, é taxativa quanto a transformar a menopausa numa experiência emocional automaticamente negativa. "A gente não pode generalizar como algo que é ruim para todas as mulheres. A forma como cada mulher vivencia esse momento depende de sua história, dos seus valores, das suas escolhas, das relações que ela vive, inclusive a própria relação com a maternidade, com o corpo, com o processo de envelhecimento”, afirma.>
Do ponto de vista clínico, ela recusa a ideia de resposta certa. “A gente não pode dizer que é correto sofrer ou não sofrer com a chegada da menopausa. Há mulheres que vivenciam um processo de luto, outras que sentem alívio, outras que simplesmente percebem essa mudança como mais uma transição na fase de vida delas." O critério que ela usa na prática não é "como essa mulher se sente", mas outro: "o que essa mudança representa para essa mulher? Qual o significado da menopausa na vida dela? É exatamente aí que a gente evita a ideia de que toda mulher necessariamente sofrerá com o fim da fertilidade".>
Sobre sexo e libido, a tentação é sempre contar uma história única, mas os dados resistem com uma teimosia interessante. Uma revisão sistemática de estudos qualitativos sobre a sexualidade na menopausa, publicada no European Journal of Midwifery a partir da síntese de entrevistas com centenas de mulheres em contextos culturais muito diferentes, encontrou de tudo: piora por dor ou ressecamento; nenhuma mudança perceptível e melhora, sobretudo pela ausência do medo de engravidar. >
Pesquisas do Instituto Kinsey, nos Estados Unidos, investigando saúde sexual e envelhecimento, trazem um padrão maior e pouco divulgado: entre as entrevistadas, quem estava em perimenopausa ou pós-menopausa relatou com frequência a manutenção ou melhora na qualidade dos orgasmos e na satisfação íntima. Nenhum desses achados anula o outro; apenas descrevem mulheres diferentes vivendo a mesma transição biológica de formas irreconciliavelmente distintas. >
Apenas uma fase da vida>
Talvez, a única generalização segura sobre a vivência da menopausa seja a de que não dá pra generalizar. Existem mulheres para quem ela é um grande problema. A ciência tem dedicado décadas a entendê-las e tratá-las melhor. Para outras, a menopausa simplesmente acontece, como um fato do corpo, não uma crise de identidade ou um combo de sintomas insuportáveis. No fim das contas, é bom saber que nenhuma mulher é obrigada a se medicar nem a suportar mais do que gostaria. E que, por mais assustadora que hoje pareça, a menopausa é como resume Maria Esther: "apenas uma fase da vida e nada mais”.>
Por @flaviaazevedoalmeida>