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André Uzeda
Publicado em 27 de setembro de 2026 às 05:00
Um turista do Ceará viajava pelo Chile quando achou o guia turístico que acompanhava a excursão estranhamente familiar. O estalo da lembrança o fez sacar imediatamente o celular do bolso e gravar um vídeo, que teve mais de 100 mil reproduções nas redes sociais. >
Nas imagens, o guia aparece cantando à capela o ‘Melot do Dragon Ball’ – um hit que fez enorme sucesso em 2015, embalado pelo suingue do pagodão baiano e com uma letra repleta de referências ao anime japonês, sem deixar de abusar de um lascivo duplo sentido.>
“Porque eu não quero Babidí. Só quero Daburá. Eu quero é que você pegue no kamehamehá. Então vai, levante a mão. Esqueça Majin Buu. Porque a onda é é é…Que eu vou botar no seu Goku ku ku”, diz um trecho da canção.>
“Vai concentrando, vai. Vai concentrando. O quê? O quê? O quê? Meter meu Piccolo em você, vai. Meu Piccolo em você. E onde é? Eu vou botar no Kuririn, vou botar no Kuririn!”, completa em outra estrofe.>
Babidí, Daburá e Majin Buu são vilões que enfrentam o guerreiro extraterrestre Goku, da raça Saiyajin. Ele tem como amigos Piccolo, um guerreiro verde da raça Namekusei, além de Kuririn, um terráqueo careca. A saga Dragon Ball estreou no Brasil em 1996 e, até hoje, é exibido em canais fechados e plataformas de streamings, sendo um dos animes mais assistidos do mundo.>
O guia turístico e coautor da música é Tito Baiano, de 40 anos. Natural de Feira de Santana, ele relembra com carinho da gravação feita há mais de uma década, que ainda reverbera entre os fãs.>
“Originalmente, eu comecei no rock. Criei uma banda que tocava músicas em espanhol, a Louca América. Mas, depois, a vida foi me levando para outros caminhos. Fui morar no Chile e virei analista de comércio da companhia aérea LAM (hoje Latam). Naquele momento abandonei um pouco a música e passei a viver uma vida, digamos assim, mais normal”, relembra.>
Três anos depois, em 2014, experimentaria uma turbulência que o fez recalcular a rota e cumprir uma antiga promessa, alardeada inicialmente apenas como chacota. >
“Eu gostava da minha vida no Chile e do meu emprego na aviação. Dizia aos amigos que, se fosse demitido, meu destino seria voltar para a Bahia e virar cantor de pagode. Obviamente, era uma piada, já que eu sempre fui roqueiro. Um dia, a demissão veio. E, então, eu voltei para a Bahia para cumprir meu destino”, brinca.>
“Vai concentrando, vai”>
De volta à terra, Tito contou com um empurrãozinho do acaso para concretizar sua obra musical. Ele gravou o melot do Dragon Ball de brincadeira durante ensaios de sua banda e pediu aos amigos que não mostrassem a ninguém. >
“Uma amiga minha, Beca Nascimento, cantava essa música de onda e animava todo mundo quando assim o fazia. Aí resolvi gravar, mas era uma gravação secreta, que não podia ser mostrada para ninguém. Um dos amigos pegou o áudio e fez uma montagem em que a dançarina Camila Mello, da banda Axé Moi, de Porto Seguro, dançava esse hit. Na verdade, ela estava dançando outra música, mas ficou tão bem feito que a coisa funcionou e foi um sucesso”, relembra.>
Diante da ótima repercussão nas redes, a banda resolveu investir em um videoclipe verdadeiro. Contactou a própria dançarina Camila Mello, no sul do estado, e partiu para Porto Seguro a fim de produzir uma gravação oficial da música. >
Antes da viagem, Tito encomendou em Feira de Santana um kimono laranja e azul semelhante ao usado pelo personagem Goku, no desenho japonês. No clipe, o cantor aparece de cabelo bem comprido e envergando a vestimenta, contrastando abertamente com a dançarina loira, que aparece em micro trajes.>
“Eu tenho consciência que boa parte do sucesso do clipe é por causa de Camila. Todo o suingue dela garante a atenção das pessoas e o brilho das imagens, até porque naquele dia o tempo estava bem fechado”, recorda, aos risos.>
Tito conta que o videoclipe foi gravado em meio a uma semana bem chuvosa, no fim do inverno de 2015. A equipe chegou em Porto Seguro numa quarta-feira, mas não parava de chover. Os dias foram passando e nada do céu abrir. No sábado, já com as finanças combalidas com os custos de alimentação e hospedagem, resolveram arriscar a gravação na praia. Foram na cara e na coragem.>
“Se você reparar bem, vai ver que o céu está cheio de nuvem e a imagem está meio cinza. Ainda tentamos dar um ganho na edição, mas dá para perceber mesmo assim. Quando terminamos de gravar, eu voltei para Feira e, depois que o material ficou pronto, comecei um trabalho árduo de distribuição do vídeo".>
O esforço concentrado incluía varar a madrugada em grupos no Facebook postando o clipe do Melot do Dragon Ball. As páginas escolhidas para disseminar o material davam o tom da complexidade da produção. Iam desde fóruns sobre pagodão baiano até espaços de discussão sobre desenho japonês, ocupado por entusiasmados otakus – termo que, no Brasil, é usado para designar os fãs da cultura de mangás e animes.>
Sucesso sem dinheiro>
Dois dias depois de espalhar a palavra intensamente, Tito Baiano viu a recompensa chegar – ao menos, em partes. Seu videoclipe começou a fazer sucesso em todo o Brasil, com recordes de visualizações no YouTube. >
O barulhento frisson, no entanto, não se converteu no tilintar das moedas. Poucos foram os convites para shows, excursões ou gravações de disco. Ainda houve a tentativa de outras paródias, como a música Pikachu, que apostava no duplo sentido com o mascote do desenho Pokemón, mas sem repetir a mesma repercussão. Tito atribui o fracasso na área financeira a um certo medo que seu empresário teve em arriscar.>
“Quando a fama chega, ela sai arrastando tudo de uma forma muito rápida. Você precisa ter coragem de se jogar nessa oportunidade e deixar ver onde ela vai te levar. O nosso empresário foi quem apostou no clipe, botou dinheiro para gravar em Porto Seguro, mas quando as visualizações começaram a aparecer, ele ficou com receio de abandonar outros negócios que tinha e apostar na banda. Aí, a coisa esfriou e fomos perdendo força”, lamenta Tito, que prefere não revelar o nome do empresário em respeito ao antigo companheiro.>
Sem emplacar na música, o baiano se casou com uma peruana e teve um filho no país andino, hoje com oito anos. Paralelo a isso, passou a trabalhar como guia turístico no Chile – profissão que hoje exerce apenas durante o inverno, levando legiões de brasileiros para pontos como Valle Nevado, Colorado e Farellones, todos na Cordilheira dos Andes. No Peru, também atuou como guia. Levando turistas para conhecer a Civilização de Caral, pré-Inca, e a segunda mais antiga que se tem registro no mundo, atrás apenas dos mesopotâmios.>
Recém-separado, voltou a fixar residência em Feira de Santana e agora aposta em projetos na área de tecnologia. Perguntado se ainda acredita em trilhar um caminho na música, Tito é taxativo. “Só se viesse uma proposta muito boa. Mas acho difícil que venha algo nesse sentido. A hora de fazer sucesso era aquela lá. Volta e meia aparecem pessoas que admiram o Melot do Dragon Ball, mas não me vejo mais nessa área. Fica a boa recordação e as boas histórias daquele tempo”, finaliza.>
Em outras palavras, Tito não quer mais Babidí. Só quer Daburá. >
Essa coluna é dedicada a Juliana Vital, amiga jornalista, e feirense com muito orgulho.>