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No Chile, turista reconhece guia baiano que há 11 anos levou a swingueira para o desenho Dragon Ball

Em 2015, Tito Baiano transformou anime japonês em inspiração para pagodão de duplo sentido

  • Foto do(a) author(a) André Uzeda
  • André Uzeda

Publicado em 27 de setembro de 2026 às 05:00

Gravação do Melot do Dragon Ball, em Porto Seguro, no ano de 2015
Gravação do Melot do Dragon Ball, em Porto Seguro, no ano de 2015 Crédito: Reprodução Redes Sociais

Um turista do Ceará viajava pelo Chile quando achou o guia turístico que acompanhava a excursão estranhamente familiar. O estalo da lembrança o fez sacar imediatamente o celular do bolso e gravar um vídeo, que teve mais de 100 mil reproduções nas redes sociais.

Nas imagens, o guia aparece cantando à capela o ‘Melot do Dragon Ball’ – um hit que fez enorme sucesso em 2015, embalado pelo suingue do pagodão baiano e com uma letra repleta de referências ao anime japonês, sem deixar de abusar de um lascivo duplo sentido.

“Porque eu não quero Babidí. Só quero Daburá. Eu quero é que você pegue no kamehamehá. Então vai, levante a mão. Esqueça Majin Buu. Porque a onda é é é…Que eu vou botar no seu Goku ku ku”, diz um trecho da canção.

“Vai concentrando, vai. Vai concentrando. O quê? O quê? O quê? Meter meu Piccolo em você, vai. Meu Piccolo em você. E onde é? Eu vou botar no Kuririn, vou botar no Kuririn!”, completa em outra estrofe.

Babidí, Daburá e Majin Buu são vilões que enfrentam o guerreiro extraterrestre Goku, da raça Saiyajin. Ele tem como amigos Piccolo, um guerreiro verde da raça Namekusei, além de Kuririn, um terráqueo careca. A saga Dragon Ball estreou no Brasil em 1996 e, até hoje, é exibido em canais fechados e plataformas de streamings, sendo um dos animes mais assistidos do mundo.

O guia turístico e coautor da música é Tito Baiano, de 40 anos. Natural de Feira de Santana, ele relembra com carinho da gravação feita há mais de uma década, que ainda reverbera entre os fãs.

“Originalmente, eu comecei no rock. Criei uma banda que tocava músicas em espanhol, a Louca América. Mas, depois, a vida foi me levando para outros caminhos. Fui morar no Chile e virei analista de comércio da companhia aérea LAM (hoje Latam). Naquele momento abandonei um pouco a música e passei a viver uma vida, digamos assim, mais normal”, relembra.

Três anos depois, em 2014, experimentaria uma turbulência que o fez recalcular a rota e cumprir uma antiga promessa, alardeada inicialmente apenas como chacota.

“Eu gostava da minha vida no Chile e do meu emprego na aviação. Dizia aos amigos que, se fosse demitido, meu destino seria voltar para a Bahia e virar cantor de pagode. Obviamente, era uma piada, já que eu sempre fui roqueiro. Um dia, a demissão veio. E, então, eu voltei para a Bahia para cumprir meu destino”, brinca.

Tito atuando como guia turístico no Chile, depois da gravação do seu maior sucesso
Tito atuando como guia turístico no Chile, depois da gravação do seu maior sucesso Crédito: Acervo Pessoal

“Vai concentrando, vai”

De volta à terra, Tito contou com um empurrãozinho do acaso para concretizar sua obra musical. Ele gravou o melot do Dragon Ball de brincadeira durante ensaios de sua banda e pediu aos amigos que não mostrassem a ninguém.

“Uma amiga minha, Beca Nascimento, cantava essa música de onda e animava todo mundo quando assim o fazia. Aí resolvi gravar, mas era uma gravação secreta, que não podia ser mostrada para ninguém. Um dos amigos pegou o áudio e fez uma montagem em que a dançarina Camila Mello, da banda Axé Moi, de Porto Seguro, dançava esse hit. Na verdade, ela estava dançando outra música, mas ficou tão bem feito que a coisa funcionou e foi um sucesso”, relembra.

Diante da ótima repercussão nas redes, a banda resolveu investir em um videoclipe verdadeiro. Contactou a própria dançarina Camila Mello, no sul do estado, e partiu para Porto Seguro a fim de produzir uma gravação oficial da música.

Antes da viagem, Tito encomendou em Feira de Santana um kimono laranja e azul semelhante ao usado pelo personagem Goku, no desenho japonês. No clipe, o cantor aparece de cabelo bem comprido e envergando a vestimenta, contrastando abertamente com a dançarina loira, que aparece em micro trajes.

“Eu tenho consciência que boa parte do sucesso do clipe é por causa de Camila. Todo o suingue dela garante a atenção das pessoas e o brilho das imagens, até porque naquele dia o tempo estava bem fechado”, recorda, aos risos.

Tito conta que o videoclipe foi gravado em meio a uma semana bem chuvosa, no fim do inverno de 2015. A equipe chegou em Porto Seguro numa quarta-feira, mas não parava de chover. Os dias foram passando e nada do céu abrir. No sábado, já com as finanças combalidas com os custos de alimentação e hospedagem, resolveram arriscar a gravação na praia. Foram na cara e na coragem.

“Se você reparar bem, vai ver que o céu está cheio de nuvem e a imagem está meio cinza. Ainda tentamos dar um ganho na edição, mas dá para perceber mesmo assim. Quando terminamos de gravar, eu voltei para Feira e, depois que o material ficou pronto, comecei um trabalho árduo de distribuição do vídeo".

O esforço concentrado incluía varar a madrugada em grupos no Facebook postando o clipe do Melot do Dragon Ball. As páginas escolhidas para disseminar o material davam o tom da complexidade da produção. Iam desde fóruns sobre pagodão baiano até espaços de discussão sobre desenho japonês, ocupado por entusiasmados otakus – termo que, no Brasil, é usado para designar os fãs da cultura de mangás e animes.

Sucesso sem dinheiro

Dois dias depois de espalhar a palavra intensamente, Tito Baiano viu a recompensa chegar – ao menos, em partes. Seu videoclipe começou a fazer sucesso em todo o Brasil, com recordes de visualizações no YouTube.

O barulhento frisson, no entanto, não se converteu no tilintar das moedas. Poucos foram os convites para shows, excursões ou gravações de disco. Ainda houve a tentativa de outras paródias, como a música Pikachu, que apostava no duplo sentido com o mascote do desenho Pokemón, mas sem repetir a mesma repercussão. Tito atribui o fracasso na área financeira a um certo medo que seu empresário teve em arriscar.

“Quando a fama chega, ela sai arrastando tudo de uma forma muito rápida. Você precisa ter coragem de se jogar nessa oportunidade e deixar ver onde ela vai te levar. O nosso empresário foi quem apostou no clipe, botou dinheiro para gravar em Porto Seguro, mas quando as visualizações começaram a aparecer, ele ficou com receio de abandonar outros negócios que tinha e apostar na banda. Aí, a coisa esfriou e fomos perdendo força”, lamenta Tito, que prefere não revelar o nome do empresário em respeito ao antigo companheiro.

Sem emplacar na música, o baiano se casou com uma peruana e teve um filho no país andino, hoje com oito anos. Paralelo a isso, passou a trabalhar como guia turístico no Chile – profissão que hoje exerce apenas durante o inverno, levando legiões de brasileiros para pontos como Valle Nevado, Colorado e Farellones, todos na Cordilheira dos Andes. No Peru, também atuou como guia. Levando turistas para conhecer a Civilização de Caral, pré-Inca, e a segunda mais antiga que se tem registro no mundo, atrás apenas dos mesopotâmios.

Recém-separado, voltou a fixar residência em Feira de Santana e agora aposta em projetos na área de tecnologia. Perguntado se ainda acredita em trilhar um caminho na música, Tito é taxativo. “Só se viesse uma proposta muito boa. Mas acho difícil que venha algo nesse sentido. A hora de fazer sucesso era aquela lá. Volta e meia aparecem pessoas que admiram o Melot do Dragon Ball, mas não me vejo mais nessa área. Fica a boa recordação e as boas histórias daquele tempo”, finaliza.

Em outras palavras, Tito não quer mais Babidí. Só quer Daburá.

Essa coluna é dedicada a Juliana Vital, amiga jornalista, e feirense com muito orgulho.