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Flavia Azevedo
Publicado em 12 de setembro de 2026 às 13:00
Há umas semanas, fui ao cardiologista para uma consulta de rotina. O médico - experiente, bem-humorado e magro - não precisou de exame nenhum para o diagnóstico. Ele apenas me olhou e cravou: sobrepeso. Rimos, e as medições vieram confirmar o que ele disse. Circunferência abdominal, pescoço, a balança batendo um recorde que eu só tinha visto no fim da gravidez do meu filho. Aos 52 anos, 1,70 m, 78 quilos. A menopausa tem sua cota de culpa nisso, mas seria desonesto não admitir que me exercito bem menos e como muito mais do que antes. >
Ozempic e Mounjaro
Depois da má notícia, o médico sacou o milagre da vez e me explicou, com toda a paciência, por que eu sozinha dificilmente resolveria aquilo. A proposta dele era que a tirzepatida (substância do Mounjaro) fizesse o que minha força de vontade não está conseguindo fazer. Acho que ele esperava que eu me sentisse aliviada, animada, feliz ou algo assim. Não aconteceu.>
Saí do consultório dividida entre a tentação de aderir à nova paixão nacional (a aceitar a cara "chupada" que vem de brinde) e uma pergunta que não me largava: esse senhor acabou de dizer, com toda a educação do mundo, que eu não sou capaz de decidir sobre a minha própria comida? Parece que sim. Sei que tem gente que sai do consultório radiante com a receita da caneta. Entendo. Mas eu saí com a sensação de ter recebido um diagnóstico constrangedor: “incompetência para gerir o básico da minha vida”.>
Pronta para provar que o doutor está errado, até desisti do hambúrguer que tinha prometido comer junto com meu filho naquele dia. E tomei outras atitudes. Não vou detalhar aqui o método, porque não sou nutricionista, mas o fato é que, com ajustes simples no dia a dia, sem academia (vou voltar, sei que preciso), sem me colocar em risco e sem pressa, já se foram quatro quilos.>
O rosto menos redondo já me causa alegria, mas o que mais me deixa feliz é sentir que sou eu – e não uma canetinha – que estou no controle disso. O que, em minha opinião, é o mínimo que se pode esperar de uma pessoa adulta de 52 anos. Há umas semanas, bebo mais água e menos cerveja, escolho melhor o que como, não sigo a onda de ninguém e não tenho pressa de emagrecer para impressionar estranhos.>
Aqui cabe dizer que eu nunca fui obesa. Com 78 quilos, meu IMC rondava os 27 o que significa sobrepeso. Obesidade é outra coisa, uma condição crônica em que o remédio (assim como outros tratamentos) cumpre papel terapêutico de verdade, e não é disso que estou falando. O que acho estranha é a pressa em tratar qualquer gordurinha como emergência e qualquer quilo “a mais” como doença a ser tratada com injeção. Tô achando que é um surto e tenho tentado manter a saúde mental. Nessa e em outras situações. >
Tem uma cerveja no fim da tarde que eu adoro e que, ultimamente, evito na maioria dos dias. Não chega a ser sacrifício. É uma escolha que faço de novo, quase toda vez. Se eu estivesse na caneta, essa escolha simplesmente deixaria de existir, ou seja, o desejo sumiria antes de virar decisão. E qual seria a vantagem nisso? Sem desejo, não há negociação. E negociação interna é treino para uma capacidade que serve pra muito mais coisa na vida do que escolher se vai comer brigadeiro ou pão. Se não existe uma doença que justifique anular o desejo, por que não lidar com ele, então? >
Quatro quilos depois, ainda não sei se resolvi alguma coisa ou se só adiei um encontro inevitável com a caneta. Veremos. Tenho mais alguns quilos pela frente até me sentir bem de novo. Por ora, descobrir até onde vai minha própria capacidade de lidar com o banal - beber água, me mexer, comer direito - me parece um exercício precioso. Principalmente no fim das tardes mais quentes preciso decidir entre cerveja ou não. Também tem a rabada de quarta, o acarajé de Eliana e outras delícias com as quais fui fazendo minha “pochetinha” que o cardiologista reclassificou como risco vascular. Minhas respostas nem sempre são as “corretas” mas, por ora, quero continuar lidando com as que posso dar. >
@flaviaazevedoalmeida é articulista do Correio, editora e mãe de Leo>