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Moyses Suzart
Publicado em 18 de julho de 2026 às 10:19
Parecia um dia calmo na Basílica do Senhor do Bonfim. No alto da colina, Padre Edson Menezes cuidava da rotina pastoral, quando alguém avisou que tinha um rapaz com um boi na frente da igreja. “Ele havia feito uma promessa de oferecer um boi ao Senhor do Bonfim. A graça foi atendida e ele foi com o animal. Eu pensei: ‘Onde vou colocar esse boi?’. Ele bateu firme que deixaria o bicho vivo na igreja”, conta Edson. O animal, neste caso, não era apenas um boi no sentido literal, mas um ex-voto, o instrumento cabal e físico que representa um milagre ou graça alcançada pelas mãos do Bonfim. Quase todo santo dia a igreja recebe, mas nem sempre é um boi, para alívio do padre. Pode ser uma perna de gesso, vestido de noiva, um colar de ouro, fotos e até uma bala antiaérea da Segunda Guerra. >
“A prática de pagar promessas está relacionada a um procedimento do fiel que nós chamamos de religiosidade popular ou piedade popular. Ela nasce das expressões espontâneas de fé das pessoas, e pagar promessas é um desses gestos. Como sinal concreto daquela graça ou daquele milagre alcançado, as pessoas trazem um ex-voto. E esses ex-votos devem ser preservados. Alguns são perecíveis, outros não”, explica padre Edson. >
O ex-voto é o último nível da tríade do que Edson chamou de religiosidade popular. Tudo começa com o termo devoto: aquele que acredita, crê no Senhor Bonfim ou em algum santo católico. Quando nada mais dá jeito e o fiel apela para a força divina, vem o voto, a promessa feita caso a graça seja atendida. Quando é alcançado, é hora de ir até a igreja depositar o símbolo daquele milagre atendido. No caso da Igreja do Bonfim, esta prática existe há 272 anos, desde a fundação da igreja. Agora imagine a quantidade de peças que passam e já passaram ali. >
O oferecimento acontece no lado esquerdo do altar, onde é possível ver diversos ex-votos na sala pequena para tantas manifestações de fé, mas aconchegante e divina. Mesmo assim, padre Edson revela que foi adquirido uma casa no perímetro da basílica, onde será feito um museu maior, que comportaria até um boi. Não que o animal pudesse ficar lá, pois nem todo ex-voto é passivo de conservação. Pessoas que fizeram cirurgias chegam a levar pedaços da pele ou do tumor que foi retirado, coisas perecíveis, que vêm conservadas dentro de um vasilhame com álcool. >
“E a gente tem o maior cuidado. O nosso lema é nunca rejeitar. Nós sempre recolhemos e damos um destino respeitoso. Alguns objetos que se deterioram nós enterramos, e outros passam por um processo de descarte cuidadoso, do tamanho daquela fé. As fitinhas do Bonfim, por exemplo, eu tenho o maior cuidado para não jogar no lixo comum. Durante o ano, nós fazemos duas ou três vezes o processo de incineração (cremação) delas”, conta Edson. E o boi? >
“Tentei convencê-lo. Eu disse: ‘Por que o senhor não vende esse boi e traz o valor como oferta? Ou o senhor poderia abater o animal e distribuir a carne para as pessoas. Seria uma atitude solidária e carinhosa’, disse. Mas ele insistia: ‘Não, eu quero deixar o boi’”, conta Edson. No fim das contas, o homem não se convenceu, foi embora, mas também não voltou para dizer o que fez.>
Apesar do casarão já pertencer à basílica para a criação do museu, ainda não há previsão de quando será inaugurado. Contudo, a pretensão é manter a sala menor, pois é uma atração e um dos maiores exemplos de fé proporcionada pela Colina Sagrada. Sem contar sua energia única. >
“É uma tradição da igreja preservar e manter um espaço de registro físico e histórico da fé. Nós vamos manter o da sacristia, que carrega a história do local, por sua importância, tradição e costume. Mas já temos uma quantidade de ex-votos guardados, só esperando a ampliação desse espaço”, explica Edson, que criou tradições justamente para transformar os ex-votos ainda mais sagrados. Além dos objetos, há fiéis que depositam também fitinhas do Bonfim na sala, em uma cruz no centro. Elas, assim como das grades, são retiradas e passam por um processo litúrgico de cremação, como já foi dito. >
Sala dos ex-votos, na Colina Sagrada
A sala>
Não é preciso ser católico para sentir a energia da sala dedicada aos ex-votos. Na entrada, para quem vem do corredor onde abriga o confessionário em que Santa Dulce se confessava, os dizeres em latim: “Vinde e vede as obras do Senhor, os prodígios que Ele realizou sobre a terra". Um salmo numa placa de madeira. Dentro, turistas ficam horas lendo cada depoimento, fotografia, parece que todos os ex-votos ganham a atenção dos curiosos. Em um dos quadros, duas fotos de um carro destruído e um avião destroçado. Era o agradecimento de um homem que sobreviveu ao acidente, em 1958. Próteses, pedaços de cabelo, roupas de crianças, tudo ganha conotação divina no lugar. >
“De fato, é um ambiente com uma energia singular. Quem entra aqui sente-se profundamente tocado. Ao observar as peças de cera, as fotografias e os relatos de graças e milagres, vivenciamos uma experiência edificante. A fé torna-se tangível em objetos: uma peça de roupa, um sapato ou uma foto. É um registro histórico do milagre popular, aquele que acontece no cotidiano”, conta Bárbara Cristina, de 59 anos e há sete cuidando do lugar. Ela está diariamente lá e se impressiona a cada dia com as expressões de fé. >
“Eu estava organizando o painel quando ela entrou, em silêncio. Dirigiu-se à imagem do Senhor do Bonfim, orou intensamente e, ao finalizar, deixou as muletas que a levaram ali e saiu andando. Ela contou que passou seis meses acamada e, durante a fisioterapia, o médico a incentivou a rezar, pois seu caso era complexo. Ela recorreu ao Senhor do Bonfim e à Nossa Senhora, e, após um ano e meio, recuperou os movimentos”, relata Bárbara. >
A sala dos Ex-votos também possui uma outra função. Imagens sacras quebradas ou que sejam doadas por diversos motivos também são depositadas num baú lá mesmo. Os que ainda possuem condições de uso, são restaurados e a maioria é disponibilizado para doação. Alguns são raríssimos e acabam ficando na igreja mesmo. Os que estão muito quebrados, são triturados e enterrados, sempre de forma respeitosa. Aliás, respeito é o que não falta. >
“Não podemos negligenciar a fé alheia. Respeitamos qualquer crença — seja católica, espírita, de matriz africana ou evangélica. É notável observar, por exemplo, como muitos evangélicos nos trazem imagens de santos herdadas de seus antepassados para que sejam depositadas aqui. Eles não as descartam no lixo, o que demonstra um respeito profundo pela nossa igreja. Recebemos peças raras, como presépios centenários de madeira. É um trabalho constante de preservação da memória e da devoção”, completa Bárbara. >
Museu>
Apesar de toda energia e fé depositada no andar de baixo, é no museu do primeiro andar da basílica que transcende a fé e cada peça se torna a própria história da igreja. Atualmente, o acervo perdeu parte do espaço para o Columbário Santuário do Senhor do Bonfim, onde abriga urnas com cinzas de pessoas cremadas, mas não se tornou menos raro. Lá, nem todos os ex-votos acompanham relatos, como de uma bala antiaérea que foi deixada na igreja na época da Segunda Guerra Mundial. Tão pesado que mal dá para uma pessoa carregar. >
Lá possuem peças de ouro, prata, mas as histórias têm mais valores que o próprio objeto. Em uma cápsula de vidro, uma simples moeda amassada passaria despercebido, se não fosse a carta com o motivo dela estar ali. “Atacado por cinco ladrões armados, no aeroporto 2 de julho, Donato Cecílio Mota escapou de ser morto graças ao Senhor do Bonfim. A bala resvalou nesta moeda que ele trazia no bolso, 23 de maio de 1979”.>
Toda história contada também demonstra o processo de oferecimento dos ex-votos. Se atualmente tal manifestação é representada por fotografias e objetos mais modernos, no andar de cima é como voltar no tempo e viajar nas histórias mais antigas de fé, como no caso do tenente José de Bittencourt Berenguer. Ele levou um tiro no dia 12 de agosto de 1855, em Feira de Santana. >
Como sobreviveu, atribuiu o milagre ao Senhor do Bonfim e mandou pintar um autoretrato, com o buraco do tiro entre o braço e as costas, como ex-voto. Aliás, era uma prática comum da época mandar pintar um quadro com o milagre atendido. É o caso de outra obra de arte, datado de 1898, quando um menino de 3 anos, chamado Januário, da cidade de Belmonte, teve um frasco de iodo derramado no seu corpo e nada aconteceu. “É muito interessante, pois une o cultural e o religioso. A cultura e a religião caminham abraçadas aqui, e o ex-voto é a comunhão disso”, conta padre Edson, enquanto nos apresentava a sala de cima. >
Enquanto a história permanece preservada no museu, na sala de baixo, cada ex-voto se confunde com a velocidade da sociedade atual. Ficar meia-hora sentado na sala é uma terapia, mas também uma contemplação da fé individual de cada um. E um vacilo pode perder as melhores e mais emocionantes histórias. Enquanto um grupo de turistas lotava o local e escutava o guia turístico, a paulista Ivani Simplice entrava sem ser notada na sala. Ela amarrou a fitinha em silêncio e saiu, em direção ao altar. >
“Eu vim por um motivo pessoal, mas, da última vez que estive aqui, não tive acesso a esta parte da igreja (do ex-votos). Como estou passando por um tratamento de saúde, foi muito emocionante estar neste local. Parece que fui guiada até aqui. A cruz, especialmente, soou como um chamado para que eu me aproximasse e deixasse minha fita. Fui empurrada para aquele lugar”, disse. >
Com um pano branco cobrindo a cabeça, fortemente emocionada, ela acrescentou: “Houve uma conexão profunda. Existe uma energia muito intensa naquele lugar, algo que transcende qualquer explicação. Eu sou católica, mas, neste momento, busco no Espiritismo um pouco de tranquilidade. Contudo, acredito que, para nós, assim como para os católicos e evangélicos, Deus é como um sol que ilumina a todos. O Espiritismo não exclui o Catolicismo, e vice-versa; são caminhos que podem coexistir”, completa. Neste momento, chorava ela, o repórter e a fotógrafa, todos sentados em frente ao altar do Bonfim. >
Seja um boi ou uma simples fitinha amarrada em silêncio por uma mulher em tratamento contra o câncer, o Bonfim segue acumulando histórias que dificilmente caberiam em um museu. Na sala dos ex-votos, nenhuma peça vale pelo material de que é feita. Ouro, prata, cera, madeira ou papel têm o mesmo peso diante da fé. O verdadeiro valor está na história que cada objeto carrega, muitas vezes conhecida apenas por quem o deixou ali e por Deus. Talvez seja por isso que aquele pequeno cômodo da Colina Sagrada continue sendo um dos lugares mais silenciosos e, ao mesmo tempo, mais eloquentes da Bahia.>