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Flavia Azevedo
Publicado em 8 de agosto de 2026 às 05:00
Ela fechou o restaurante. Foi a primeira decisão que tomou, antes de entender qualquer coisa sobre o que estava acontecendo com o filho. Marina (nome fictício, a pedido dela), que administra um pequeno negócio, viu o adolescente de 16 anos se transformar diante dela sem nenhuma explicação. "Ficou conversando demais, querendo abraçar demais. Ele nunca foi assim, era mais retraído, mais na dele", ela lembra. A euforia durou pouco. Vieram depois o silêncio, a recusa em comer, uma noite inteira sem dormir, o choro, o medo de coisas que ela não conseguia nomear: “eu fiz chá para ele tomar”. >
Não havia, naquele momento, nenhuma palavra à disposição da família para o que estava acontecendo. Marina cogitou que alguém pudesse ter colocado alguma coisa na bebida do filho. Foi a escola, dois dias depois, que sinalizou que aquilo não era uma fase e pediu que a família procurasse atendimento médico.>
Antes da mudança de comportamento, o filho de Marina era, segundo ela, um adolescente de rotina previsível. Ele cumprimentava os professores, tinha uma comunicação educada e distante com as pessoas ao redor, não era de se abrir muito. A transformação não teve um gatilho identificável nem um aviso. Foi, nas palavras dela, “uma questão de dois dias”. >
O que se seguiu foi uma peregrinação que qualquer família que já passou por uma crise psíquica conhece de cor. Primeiro, um pronto atendimento de 24 horas, onde um psiquiatra avaliou o adolescente e emitiu um relatório encaminhando o caso para um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) em Salvador. Lá, no entanto, a assistente social que os recebeu não conseguiu identificar o que estava acontecendo com ele: "ela disse que não estava entendendo o problema, falou que ia mandar para outro lugar", afirma a mãe. >
Dias depois, a família foi então encaminhada ao Ambulatório de Primeiro Episódio Psicótico em Usuários e Não-Usuários de Drogas (no Cetad), onde, segundo Marina, encontrou finalmente alguém que soube o que fazer. "Foi a melhor coisa que eu pude conhecer, muitas pessoas boas. Deixou meu filho muito acolhido. Foi o melhor acolhimento que ele teve". No primeiro atendimento, ele recebeu medicação para conseguir dormir — "a adrenalina dele estava alta", segundo ela repete a explicação que recebeu — e só quando chegou ao serviço especializado é que o quadro começou, de fato, a ser tratado.>
É nesse ambiente doméstico que a maior parte das crises psíquicas realmente acontece. Porém, a imagem que a sociedade mais associa a um "surto" é a da rua: alguém gritando numa calçada, cercado de gente gravando pra depois publicar. Essa cena existe, mas é uma fração pequena de uma experiência muito mais comum, que começa dentro de casa, na percepção de uma mãe, na sala de espera de um pronto-socorro, no silêncio de um adolescente que mudou completamente o comportamento. Ou seja, entrou em “surto”.>
O que é um surto?>
A palavra “surto” carrega, no uso cotidiano, um significado que a psicologia e a psiquiatria não legitimam. A psicóloga clínica Érica Calado, do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas (Cetad), prefere falar em crise psíquica: "uma experiência de intenso sofrimento", na qual a pessoa "perde temporariamente a capacidade de organizar sua relação com a realidade". >
Sob o rótulo popular de "surto" cabem fenômenos de origens muito diferentes: uma crise de pânico, uma reação aguda a um trauma, um quadro de abstinência ou intoxicação, um episódio de mania, e também — mas não só — o surto psicótico propriamente dito, associado a delírios, alucinações ou a uma desorganização mais profunda do pensamento, presente em quadros como esquizofrenia ou transtorno bipolar. >
Maria Augusta (nome fictício, a pedido dela) tem 49 anos e está, há mais de duas décadas, em tratamento para um transtorno de ansiedade generalizada associado a dependência química. Ela é uma das pessoas capazes de descrever, de dentro, o que esse estado é. "Parece que você está dentro de um filme. Você fica com um distanciamento do que é real", diz. O que vem em seguida é uma sensação de ameaça muito concreta. "A sensação que dá é que as pessoas que interferem estão querendo te privar de alguma coisa, mesmo não sendo nada concreto. Você fica desesperada porque acha que querem te tirar algo". A reação de defesa, segundo ela, contraria o próprio temperamento. "No meu caso, ser violenta não é da minha natureza. Mas é como se você fosse desaparecer".>
Esse relato ajuda a entender por que a reação mais comum de quem observa uma crise de fora — se afastar, filmar, rir — costuma piorar o quadro. Para Érica, o que a pessoa em crise precisa não é empatia no sentido raso do termo: “eu não digo empatia, porque a gente não tem essa capacidade que o senso comum gosta de dizer, de se colocar no lugar do outro, mas um senso de humanidade. Você não sabe o que o outro está passando para julgar".>
A jornalista e escritora Joana Rizério não trata a palavra "louco" como um insulto a ser evitado. Pelo contrário, reivindica o termo como vocabulário próprio, de um jeito que ela sabe que soa deslocado para quem segue as convenções mais recentes de linguagem sobre saúde mental. "Eu uso louco, assim como uso retardado, débil mental, porque acho que tenho lugar de fala." Para ela, a palavra nomeia um estado específico, não uma ofensa: "quando eu falo loucura, é você estar em psicose, divergindo da realidade. Acho que todo mundo entende, e eu me aproprio disso de forma tranquila hoje em dia". É uma escolha que contraria o cuidado terminológico que boa parte do debate público sobre saúde mental adotou nos últimos anos, mas que ela sustenta como parte do mesmo direito à voz própria que reivindica em relação ao próprio tratamento.>
Dor e conteúdo>
Foi olhando para essa distância, entre quem sofre e quem observa, que Joana, autora do livro “Na pior em Berlim, Londres e Salvador”, sobre suas passagens por clínicas psiquiátricas no Brasil e no exterior, escolheu a palavra que resume sua própria experiência: espetáculo. "Fui tratada como espetáculo, como piada e não só por estranhos. Pela minha própria família. O estigma da loucura é tão violento que desumaniza mais do que qualquer outra condição que a gente veja como desvalida na sociedade".>
Além do olhar “escandalizado” que, muitas vezes, vem de pessoas próximas, a espetacularização de crises psíquicas tem o alcance ampliado junto nas redes sociais. Vídeos com legendas do tipo “homem pula do teto do carro”, “mulher tira a roupa no meio da festa”, muito mais do que notícias, são conteúdos gravados por estranhos e compartilhados antes mesmo de a pessoa retomar o controle sobre si.>
Érica vê nisso uma forma de violência: “filmar, compartilhar ou expor uma pessoa em crise sem consentimento viola a dignidade dela. Em vez de oferecer ajuda, muitas pessoas registram imagens em busca de repercussão". O efeito, segundo ela, não termina quando o vídeo para de circular: “a pessoa fica envergonhada e o familiar tem que gerenciar mais um problema. É uma dor terrível porque, além de ver alguém que você ama sofrendo, você ainda vê o julgamento.">
Do ponto de vista legal, filmar e compartilhar a imagem de alguém em situação de vulnerabilidade extrema, já é uma conduta com respaldo jurídico para ser contestada. A Constituição de 1988 garante a inviolabilidade da imagem como direito fundamental, e o Código Civil permite que a pessoa retratada proíba a divulgação sempre que ela lhe causar dano moral, ainda que a cena tenha ocorrido em local público. >
Na prática, porém, ninguém em crise psíquica está em condições de acionar esse direito no momento em que ele é violado e, quando a crise passa, o vídeo já circulou o suficiente para que nenhuma ação judicial chegue a tempo de impedir o dano. >
O que fazer?>
Para emergências psiquiátricas, o Estado brasileiro oferece os CAPS. Esse é o serviço de saúde pública do Sistema Único de Saúde (SUS) voltado para o atendimento e acolhimento de pessoas com sofrimento psíquico, transtornos mentais graves e necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas. O Ministério da Saúde informou, em dezembro de 2024, ter habilitado 3.019 CAPS em todo o país. Parece suficiente, mas na prática a realidade é outra: ainda existem municípios sem nenhuma unidade e regiões de menor cobertura. Além disso, há o problema da capacitação de profissionais. Foi exatamente nesse tipo de vazio — um CAPS que não sabia o que fazer — que Marina esbarrou antes de encontrar um serviço capaz de acolher o filho.>
Internamento>
Cada vez menos comum na rede pública, depois da política antimanicomial, o internamento psiquiátrico gera opiniões divergentes. Joana já foi internada, segundo seu relato, sete vezes. Todas de forma involuntária. Ela reconhece que o recurso é necessário em algumas situações. "É um recurso extremo, necessário em algumas situações. Deve ser usado quando a pessoa está na iminência de cometer um ato contra si ou contra outra pessoa." O problema, para ela, não é a existência da internação, mas o uso banalizado dela e o papel que a família pode assumir nessa decisão. "As famílias muitas vezes atrapalham. São como as mães de uma criança pequena: o juiz, o carrasco, o advogado. Falam pelo louco. E existem abusos, existem mentiras.">
A comparação que ela faz entre uma internação em Londres e as internações no Brasil aponta para uma diferença específica: o direito à escuta. Capturada na rua, sem documentos, avaliada como em risco principalmente para si mesma, Joana foi internada no Reino Unido sem, segundo relata, sofrer violência. Além disso, teve acesso, todos os dias, a uma conversa de quinze minutos com um funcionário de sua escolha. Já no Brasil, ela diz que a experiência foi de isolamento total da família e dos amigos, "que pareciam que iam se contagiar com essa coisa da loucura".>
Maria Augusta chega tem posição praticamente oposta. Ela já se internou uma vez por vontade própria, num momento em que não conseguia dormir e pensava em se matar. "Dá uma paz de saber que você está num lugar onde vai ser tratada e acolhida. Mas também dá um certo desespero, porque os casos ao redor são graves e assustam. Dá uma sensação de fim de linha: como é que eu vou sair daqui?", relembra. Ela defende que em determinados quadros a internação compulsória deveria seguir existindo como possibilidade: “tem momentos em que a pessoa realmente não sabe que está precisando".>
A experiência que sustenta essa posição é a de um tio, hoje falecido, que viveu justamente na transição em que a internação compulsória deixava de ser regra no Brasil. Sem condições de decidir por si mesmo, segundo ela, ele passou a viver na rua: “dentro da cabeça dele o negócio funcionava tão loucamente que ele preferia aquilo”. O tio morreu, segundo Maria Augusta, envenenado, provavelmente por uma comida estragada ou contaminada, consumida na rua.>
Joana vai além da crítica ao uso banalizado da internação e aponta para um ponto mais delicado: a possibilidade de a família, em vez de proteger, instrumentalizar o próprio sofrimento psíquico de quem deveria cuidar. Ela relata que uma de suas internações involuntárias ocorreu num momento em que se considerava "extremamente lúcida" e atribui a decisão a uma dinâmica familiar que, segundo ela, buscava evitar o trabalho de lidar com a situação de outra forma: “digamos que às vezes a família tá doente também, e ela meio que abusa do poder. Daí fez com que eu fosse internada porque eles não queriam ter trabalho”. >
A dor da família>
Érica situa a decisão sobre internar num ponto que raramente aparece no discurso público sobre saúde mental: o limite real de quem cuida. "A família, quando tem um caso de sofrimento psíquico, é atravessada por dores dela mesma. Não é fácil ter um familiar que você ama e ver que ele não está bem”, afirma. Medo, culpa, impotência, exaustão. Ela trata esses sentimentos como parte inevitável do processo e chega a um ponto prático: "às vezes o paciente quer ser cuidado em casa. Só que eu trabalho de manhã e de tarde, não tenho como estar com você o tempo todo, e você está com ideação suicida. Faço o quê?".>
É por isso, segundo ela, que a família não deveria ser tratada nem como causa do sofrimento nem como recurso inesgotável, mas como parte de uma rede que também precisa de suporte: “cuidar de um processo psiquiátrico não é linear, não é pragmático. É complexo, exige sensibilidade, exige um processo. Até a medicação precisa de tempo para fazer efeito. E quem acompanha também fica exausto”.>
No relato de Marina, esse cansaço tem nome e rotina. Passados os primeiros tempos mais agudos, o filho voltou à escola, mas o retorno não apagou o que aconteceu. Ele ainda tem dificuldade com o barulho excessivo da sala de aula, ainda pede, em alguns dias, para não ir às aulas — "por causa da zoada, da agonia" —, e Marina, que no início do processo temia principalmente não entender o que estava acontecendo com o filho, hoje já consegue fazer uma espécie de diagnóstico familiar. >
Ela também descreve outros pontos de sofrimento psíquico dentro da própria família. Há um tio do marido com histórico de internação, ligado ao uso de substâncias. Há também uma irmã de Marina, hoje com cerca de 40 anos, internada no momento da entrevista, que, por adoecimento psíquico, nunca conseguiu concluir os estudos.>
A volta à vida>
Passada a crise mais aguda, resta ainda um território a conquistar. O retorno à rotina, sobretudo ao trabalho, costuma ser desafiador. Maria Augusta descreve esse retorno como um segundo tratamento, paralelo ao primeiro: “uma vez que eu assumi o tratamento, minha tranquilidade é muito maior. Mas é um peso, uma conta alta que se paga porque a sociedade acaba colocando você num lugar de onde você não tem mais direito de sair: 'ó dodói, ó ela ali'.">
O mercado formal, segundo ela, reconhece outras condições: “existe lugar para quem perdeu uma perna, para quem é cego, para quem é surdo. Mas a questão psicológica ou psiquiátrica, ninguém aceita. Assim que é detectada, a pessoa vai dizer: essa não dá". Terapia, psiquiatra, atividade física, medicação tudo isso, ela nota, exige um tempo que a maioria dos empregos não reserva: “é difícil manter vínculos de trabalho saudáveis quando você precisa de uma rotina de cuidado que ninguém no emprego respeita". O resultado, na experiência dela, foi um deslocamento progressivo para formas de trabalho independentes fora da estrutura de uma empresa convencional. "Mesmo você melhorando, fica o estigma de que você vai 'dar defeito' ali ou acolá”, afirma.>
A alta de 68% nas licenças concedidas pelo INSS por transtornos mentais em 2024 — o maior número registrado em uma década — é um retrato do esgotamento contemporâneo. Ansiedade, depressão e transtorno bipolar foram as razões que tiraram quase 500 mil pessoas do trabalho, a maioria mulheres no auge da vida produtiva. Esses números desmontam a ilusão de que o sofrimento psíquico mora em um universo à parte ou é um problema do “outro”. A estatística apenas confirma que histórias como as de Marina, Joana e Maria Augusta são infinitamente mais comuns do que qualquer um de nós gostaria de imaginar.>
Por @flaviaazevedoalmeida>