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O que os dados sobre "masculinicídio" revelam sobre o Brasil

Um mergulho nos registros policiais de Salvador e do interior para entender o comportamento diante do crime

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 29 de agosto de 2026 às 13:00

O crime chamado “masculinicídio” não existe
Não importa de que “lado” você esteja, seu cérebro sabe a verdade. Crédito: Pexels

Iano Silva Santos tinha 25 anos, trabalhava em uma empresa de transporte e tentava reconstruir a vida depois do fim de um relacionamento de dez anos. A ex-mulher não aceitou o término. Em fevereiro deste ano, ele foi agredido com socos e chutes por ela e a agressora chegou a ser presa, mas acabou solta dias depois. Mesmo com a decisão judicial e a medida protetiva concedida, ele continuou sob ameaças. Na manhã de 21 de maio deste ano, ela invadiu a residência dele no bairro de Coutos, em Salvador, e o esfaqueou até a morte.

Em Feira de Santana, Tatiano Alves, de 40 anos, chegou a obter uma medida protetiva contra a ex-esposa após episódios de violência. Na manhã de 1º de setembro do ano passado, a ex-companheira o interceptou em uma estrada no distrito de Tiquaruçu, em Feira de Santana, atacando-o com pauladas e diversos golpes de faca. Tatiano não resistiu às lesões no pescoço e no tórax e morreu no local.

Em dezembro do ano passado, em Plataforma, subúrbio de Salvador, Vanderson e sua companheira foram assassinados a tiros pela ex-parceira de Vanderson, que não aceitava o fim da relação. Em janeiro deste ano, o Ministério Público denunciou a autora por duplo homicídio.

Em julho do ano passado, em Capim Grosso, Bruno sofreu uma tentativa de homicídio praticada pela ex-esposa, com quem fora casado por 21 anos. Durante o processo de separação, a mulher tentou sufocá-lo utilizando um pano com ácido. O filho do casal, de 14 anos, precisou quebrar a janela com um martelo para intervir e salvar o pai das agressões.

Meses depois, na cidade de Vitória da Conquista, Yosmar, de 21 anos, foi encontrado morto a tiros em uma área de matagal. As investigações policiais apontaram que o crime foi motivado pela recusa da ex-companheira em aceitar o fim do relacionamento.

Em Feira de Santana, Fábio foi surpreendido e agredido gravemente por sua ex-companheira em via pública. Vizinhos ouviram os pedidos de socorro e acionaram a Polícia Militar, que presenciou a agressora portando a arma e efetuou a prisão em flagrante.

Esses são apenas seis exemplos. Em números oficiais, 1.571 homens foram assassinados, por suas companheiras ou ex-companheiras, no ano passado. Foi o quarto recorde consecutivo do indicador: quatro mortes por dia, uma a cada seis horas, pelo simples fato de serem homens. Chama-se “masculinicídio”. Na última década, mais de 13.700 brasileiros tiveram esse mesmo fim e o primeiro semestre deste ano já soma 741 novos casos. Eu sei que, neste momento, das duas uma: você entendeu minha estratégia ou sua cabeça deu um nó.

Caso não tenha entendido, este é o momento em que vai sentir “normalidade”. O crime chamado “masculinicídio” não existe, e nos casos acima nenhum homem morreu. Iano na verdade se chamava Iana. Tatiano era Tatiane. Vanderson era Vanessa. Bruno era Bruna. Yosmar era Yasmin. Fábio, por fim, era Fátima. Todos os seis episódios são reais, os dados estatísticos são oficiais e pertencem ao mapeamento do feminicídio no Brasil. A única intervenção feita nos casos e dados foi trocar o nome e o gênero de cada pessoa envolvida e a palavra “feminicídio” por “masculinicídio”

Vera Lúcia foi achada desacordada; suspeito seria ex por Reprodução

Se essa simples descrição de uma sequência de casos lhe prendeu até aqui, provavelmente foi pelo inusitado. A história de um homem esfaqueado pela ex-mulher porque ela não aceitava o término é algo completamente fora do “normal”. Homens não são mortos por mulheres pelo simples fato de serem homens, não acumulam medidas protetivas contra ex-companheiras e não são assassinados em série quando tentam terminar casamentos.

Os homens são a esmagadora maioria das vítimas de homicídio no Brasil - entre 90% e 92% do total, segundo Datasus e Ministério da Justiça -, mas essas mortes decorrem majoritariamente de violência urbana e conflitos entre homens. Já entre as mulheres, apesar de serem minoria nos homicídios totais (cerca de 8%), 8 em cada 10 vítimas foram mortas por companheiro ou ex-companheiro em 2024, e 97% dos responsáveis por assassinatos de mulheres são homens, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025.

Além dos números, a estranheza que você sentiu ao ler esses casos com nomes masculinos é outra prova de que, por oposição, homens assassinando mulheres, apenas por serem mulheres, é um dado da vida real. Nessa semana, vi um “influenciador” gritar várias vezes que “feminicídio não existe”. Hoje, só estou aqui pra provar que, não importa de que “lado” você esteja, seu cérebro sabe a verdade.

(Os casos citados neste texto foram amplamente noticiados pela imprensa brasileira e estão disponíveis em veículos de grande circulação. Os nomes das vítimas foram mantidos porque já são de conhecimento público.)

@flaviaazevedoalmeida é articulista do Correio, editora e mãe de Leo