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Onde o Subúrbio vira arte: conheça o Acervo da Laje, em Salvador

Espaço em São João do Cabrito reúne obras, memórias, música, oficinas e histórias da comunidade e completa 15 anos como um museu vivo

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 13 de setembro de 2026 às 05:00

Entre paredes sem reboco, obras de arte, plantas medicinais e memórias de Dona Antônia, o Acervo da Laje transforma o Subúrbio em patrimônio
O Acervo da Laje transforma o Subúrbio em patrimônio Crédito: Moysés Suzart

Tudo no Acervo da Laje vira memória, cultura e subúrbio. Lá, o pincel com que se costuma pintar o retrato da periferia apenas com tons de sangue e violência transforma sua pincelada em algo quase poético, onde pinturas de paisagem e mulheres sambando são fixadas na mesma parede sem reboco, com obras dos mais variados artistas que só o lugar pode proporcionar e que não devem nada ao Museu do Louvre, em Paris. É, de fato, um museu vivo, com obras locais que deveriam estar no roteiro turístico de qualquer lugar do mundo e de Salvador, o que dá no mesmo. Na verdade, o local se recusa a ser chamado apenas de museu. É, também, casa e escola, sempre de portas abertas para todos. “Quem chega aqui conhece o mundo, e o mundo conhece a gente”, resume um dos idealizadores, José Eduardo. Certeiro.

O Acervo da Laje, localizado em São João do Cabrito, ao lado do Porto das Sardinhas, tem duas entradas que são uma atração à parte. De um lado, a vista para a Baía de Todos os Santos. Nesta entrada, há um corredor verde de plantas medicinais em que a comunidade está livre para pegar mudas ou folhas para cuidar de uma cólica, insônia ou até mesmo uma ressaca. Ali já é parte de um museu vivo, em que tudo se toca e se transforma. Nada de cordão de isolamento das obras. Tudo é palpável, inclusive o verde natural, que corre como cachoeira na casa principal do museu.

Na frente, a cara da comunidade que transformou o lugar e fez história, desde os tempos dos Alagados. Entre eles, um rosto representa todos: o de Dona Antônia. Tudo começou com ela, mãe de Vilma Santos, também idealizadora do Acervo da Laje. Ela nos deixou em 2023, mas sua memória permanece viva. Uma foto sua, feita para a exposição “Cadê a Bonita: a beleza das mulheres de Novos Alagados”, ganhou diversas versões de artistas, que vão de tinta óleo até borra de café. Tudo para montar uma exposição em sua memória, pois ela foi a dona da casa que hoje abriga uma parte do acervo.

“Dona Antônia trabalhou na fábrica de charutos, foi marisqueira, mãe de leite, rezadeira… Lembro que ela não deixava ninguém tirar foto dela, porque ‘roubava a alma’. Imagine uma pessoa que, mesmo não sabendo ler e escrever, deixou muitos ensinamentos com as filhas e toda a comunidade do Alto do Cabrito e Alagados. Aqui é uma memória viva da nossa história”, explica Suely Soares, filha de Antônia e irmã de Vilma. Ela estava explicando a história do local para um grupo de norte-americanos que visitavam o lugar.

O primeiro prédio tem obras espalhadas por todo o imóvel, de três andares, construído de laje em laje e tão imponente como um castelo. Pinturas, esculturas, carrancas, arte sacra, exus, quadros, azulejos e todo tipo de expressão artística divide o espaço, que também abriga oficinas para alunos da comunidade, além de encontros culturais. O local respira cultura e, claro, não poderia faltar música. Recentemente, foi inaugurado o espaço Sala de Música Clementina de Jesus, com dezenas de LPs e CDs, de Beatles a samba raiz, para livre apreciação.

O Acervo da Laje transforma o Subúrbio em patrimônio por Moysés Suzart

O espaço também conta com um galpão próximo, com dois andares, recém adquirido. Ele também abriga obras, inclusive do próprio José Eduardo, ex-votos, mas também serve de oficina para diversas artes, como xilogravura, um ofício ensinado para toda a comunidade. E pensar que tudo isso nasceu de uma mente inquieta, mas sabiamente orientada pelo seu professor.

“Eu comecei minha trajetória estudando a violência entre adolescentes na periferia e, depois, fiz um doutorado em Saúde Pública estudando as repercussões dos homicídios entre jovens. Quando estava na banca, um professor me disse que eu não podia mais estudar violência, porque já tinha estudado demais, e que agora era para estudar a beleza e mostrar essa beleza do meu subúrbio. Ele me disse: ‘Ali é uma terra bonita, para gente bonita, uma terra cara, para gente cara. Você tem que estudar a beleza e mostrar isso para o povo’. Aquilo ficou na minha cabeça”, disse Zé.

A partir daquele ponto, Eduardo mudou a arte monocromática da violência pela aquarela do subúrbio. Bateu perna, procurou artistas, fotografou lugares, catou obras, reuniu até esculturas que estavam no lixo e repaginou o conceito artístico do lugar. Aí entrou o Acervo da Laje, não apenas para abrigar as obras, mas para abrir as portas da arte para todos.

“O Acervo trouxe para o território uma visibilidade positiva, mas, além disso, uma visibilidade estética. Não é só para mostrar. É para você se sentir dentro, para dizer que sua vó tem importância, que a história do seu avô tem importância. Todos eles são artistas de nossas vidas”, conta Eduardo, emocionado. “Foram essas pessoas, Dona Antônia, Seu João, meu pai, Seu Cabeça, Dona Bíblia, Dona Tibúrcio, que ensinaram a gente a pescar, a mariscar, a pegar as folhas para fazer chá. Essas pessoas cuidaram desse lugar para a gente chegar hoje aqui”, completa. O local comemora este ano 15 anos de existência.

É um patrimônio que é do subúrbio, para o subúrbio e para o mundo. E, por isso, precisa estar no roteiro turístico e cultural da capital. Antonio Pita, fundador da diáspora.black, agência especializada em afroturismo, não abre mão desta visita. Ele levou o grupo de norte-americanos até o acervo. Todos ficaram impressionados.

“Tem sido uma demanda crescente dos grupos de turistas. Eles querem se conectar com histórias reais do presente, das pessoas que ainda criam movimentos, obras e ideias originais, que mantêm viva a criatividade inspirada na vida real da cidade, em sua cultura vivida no dia a dia. O Acervo representa um contraponto de beleza e força da cultura baiana autêntica, que vem do povo, das periferias, e que resiste à gourmetização estéril e caricata da Rua Chile”, conta Pita, que sempre se surpreende com o feedback dos visitantes.

“É uma visita que deixa os turistas encantados, sensibilizados pelas memórias representadas nas obras e na história do território, e pela riqueza que emerge da comunidade apesar das desigualdades e vulnerabilidades”, acrescenta.

Entre paredes sem reboco, obras de arte, plantas medicinais e memórias de Dona Antônia, o Acervo da Laje transforma o Subúrbio em patrimônio
O Acervo da Laje transforma o Subúrbio em patrimônio Crédito: Moysés Suzart

O Acervo e seus guardiões acabam sendo uma espécie de guardiões da arte e da cultura do lugar. E o local se torna uma casa aberta para todos. Caminhando pelas ruas da comunidade, Vilma não conseguia andar 50 metros antes de ser parada por alguém. “Dona Vilma, precisamos de um espaço para organizar um mutirão de saúde”, disse um morador, pedido prontamente atendido. Para os jovens, o Acervo da Laje se tornou um ponto de encontro obrigatório.

“Toda periferia tem que ter casa aberta, uma casa cultural aberta, porque é ali que o sonho se realiza. Se um menino de 11, 12 anos se encanta por uma coisa bonita da vida, acabou. Não vai ter mal que atravesse a vida dele. Não tem desvio. Se a gente oferece a possibilidade do sonho, da experiência artística e estética nas oficinas, na arte-educação, a gente está formando gerações. Quando chegar na idade crítica, da transição, esses jovens vão ter futuro”, assegura Eduardo.

A arte acaba se tornando coisa séria na comunidade. Durante a pandemia, uma imagem gigantesca de Iemanjá foi encontrada no lixão local, abandonada. Logo ocorreu uma força-tarefa para recuperá-la. Foi colocada justamente no Acervo, onde hoje ela fica no topo da laje e se tornou um símbolo sagrado. “Ela fica visível para os pescadores, que levam presentes para a imagem no dia 2 de fevereiro. Algo que estava no lixo voltou a ser arte e tem uma representatividade religiosa também”, resume Vilma.

O local vive apenas de doações, sem nenhum apoio governamental. Tudo é orgânico, da captação da arte ao pagamento das despesas. Graças ao Instituto Sociocultural Flávia Abubakir, eles conseguiram o galpão para ampliar as oficinas. “Cresce em sua importância, mas cresce em despesa também, né? Recebemos inclusive doações de artistas para que possamos vender suas obras, mas a gente acaba ficando com as obras [risos]”, conta Vilma.

Enquanto o grupo de norte-americanos visitava o lugar, Vilma e Suely cruzavam os olhares, até que a fala ficou difícil até para falar do lugar. “Você viu? É a cara de nossa mãe. Meu Deus, todo dia me surpreendo com este lugar, parece que nossa mãe estava aqui”, disse Vilma para a irmã. De fato, uma senhora norte-americana, de bengala, se assemelhava muito a Dona Antônia. Ela fez questão de conhecer tudo, encantada. Se foi uma revisita da matriarca, ninguém vai saber. O certo é que aquele lugar tem o cheiro dos mistérios, encantos e da verdadeira autenticidade baiana.

Como ajudar?

O Acervo da Laje é mantido de forma independente e conta com o apoio de quem acredita na preservação da memória, da arte e da cultura do Subúrbio. É possível contribuir com doações, apoiar as atividades e oficinas ou visitar o espaço e ajudar a movimentar a iniciativa.

Instagram: @acervodalaje

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Acervo da Laje Suburbiu