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Por qual racista você vai torcer neste domingo?

Não é preciso muito esforço pra entender que o mundo é um pouquinho mais complexo do que a gente gostaria

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 18 de julho de 2026 às 13:00

Argentina e Espanha jogam neste domingo
Argentina e Espanha jogam neste domingo Crédito: Imagem gerada com IA

Eu tinha outro texto pronto, mas precisei correr pra escrever este, então já vá me desculpando o apressado nas linhas. Foi porque o tribunal das redes sociais já deu o veredito: neste domingo (19), quem torcer para a Argentina assinou um pacto com o racismo. Nem de futebol eu gosto, então imagino que, pra esse assunto chegar até mim, é porque o debate está fervendo.

Fui pesquisar, evidentemente, e tentar entender por que o povo tá com tanta certeza de que o país vizinho é "lado mau" no duelo. Aí, descobri os cantos racistas de Enzo Fernández e já sabia da postura ridícula da torcida argentina, agredindo pessoas negras durante todo o torneio. Também já ouvi comentários sobre o silêncio de Messi em relação ao tema. Mas veja, amizade. Não é preciso muito esforço pra entender que o mundo é um pouquinho mais complexo do que a gente gostaria.

Sim, a Argentina tem um problema sério com o espelho. O mito da "Argentina branca", aquela que jura ter descendido apenas dos navios europeus, é uma construção meticulosa de apagamento histórico que jogou negros e indígenas para debaixo do tapete da historiografia oficial. De María Remedios del Valle, a "mãe da pátria" esquecida, ao torcedor flagrado imitando macaco para corintianos ou palmeirenses na Libertadores, o racismo argentino se manifesta de muitas maneiras e todas elas são terríveis.

Uniforme da Argentina para Copa do Mundo 2026 por Divulgação

Só que o povo é doido por futebol, não fica sem, e, pra fugir dos "hermanos", abraça até o capeta. Porque você pode até me dizer que tá morrendo de medo de a Argentina ser tetra e ficar na cola do Brasil, que não suporta ver aquele time em campo, mas se for pelo racismo… basta dar um Google pra descobrir que o racismo espanhol é um fenômeno estrutural, alimentado por um legado colonial que ainda está super presente. Se a Argentina apaga, a Espanha segrega e vigia, em uma prática que também está no futebol e, do mesmo modo, vai muito além das quatro linhas.

O que Vini Júnior enfrenta nos estádios espanhóis, o pessoal tá esquecido? Quem não nasceu ontem e acompanha o esporte também deve se lembrar de Samuel Eto'o querendo abandonar o campo em 2006 sob gritos simiescos, ou do goleiro Willy sendo mandado "ir colher algodão" em 1992. Essa é a Espanha, a "antirracista" do domingo. A mesma onde bonecos de jogadores negros são pendurados em pontes e onde a justiça só muito recentemente começou a punir quem transforma o esporte em arena de violência racial.

Fora dos campos, o cenário é o mesmo. Enquanto a Argentina extingue o INADI, seu instituto contra a discriminação, a Espanha mantém uma rotina de identificações policiais por perfil racial que é descrita como "endêmica" por organismos internacionais. É o racismo de quem para uma pessoa no metrô apenas pela "carinha" de indígena, negra ou árabe, tratando traços físicos como indícios de periculosidade. Também conhecido é o racismo burocrático que dificulta o aluguel de moradias e o acesso a serviços básicos para quem não se encaixa na "branquitude mediterrânea".

Camisa da Espanha para Copa do Mundo 2026 por Divulgação

Quase ia me esquecendo do tratamento dispensado à comunidade cigana. Em pleno 2026, quatro em cada dez espanhóis ainda admitem que se sentiriam "incomodados" em ter um vizinho cigano. É um preconceito tão enraizado que o termo "gitano" é usado como ofensa, inclusive contra treinadores de futebol. Ou seja, na casa do "antirracista" do domingo, a rejeição ao "outro" é parte corriqueira da vida.

Que tempos, hein, caro leitor? Logo eu, que só assisto futebol de quatro em quatro anos — enquanto o Brasil tá na Copa e eu, muito mais interessada nas farras do que nos jogos —, ter que vir aqui explicar o que é futebol. Uma criatura que até hoje não sabe o que é o tal do impedimento tem a necessidade de informar que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Fato é que quem precisar de coerência entre questões sociais e torcida, não vai ter como se divertir. Inclusive, se analisar direitinho, periga não poder nem comemorar gols do Brasil. Que, no fim das contas, taí, né: com brigas ridículas entre torcidas, machismo, racismo, misoginia e outras tantas porcarias tão nossas. Fora o comportamento dos jogadores fora de campo. Cada "maravilha", que só Deus.

A Argentina não inventou o racismo e a Espanha está longe de acabar com ele. Então, se o critério para a sua torcida, neste domingo, for a ausência de violência racial, em vez do jogo, sugiro Netflix. Ou um passeio no parque. Ou sexo, ou qualquer outra delícia. Assistindo ao jogo, se botar emoção nisso, você estará torcendo por um país... racista.

Agora, se a gente for falar de futebol, realmente. Mesmo na minha ignorância esportiva, já entendi que, com o hexa cada vez mais distante, os hermanos são uma ameaça real e concreta a um dos maiores orgulhos que ainda temos. Nesse caso, claro: sai fora, Argentina! Bora escrever o nome de Messi num papel e botar no congelador? Mainha que ensinou essa simpatia.

Por @flaviaazevedoalmeida