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Por que a escola não consegue ensinar a falar inglês?

O gargalo biológico que separa a lei da realidade de sala de aula, escreve Fabricio Zavarise

Publicado em 2 de agosto de 2026 às 11:39

Fabricio Zavarise
Fabricio Zavarise Crédito: Divulgação

O Brasil tem hoje mais de 1.200 escolas com alguma oferta bilíngue. O número cresceu com força na última década. No mesmo período, a proficiência em inglês do país não acompanhou. No índice EF EPI 2025, o Brasil ocupa a 75ª posição entre 123 países avaliados, com proficiência classificada como baixa, 16º lugar entre 20 países da América Latina.

Este índice da EF EPI tem um limite, uma vez que a amostra é voluntária, formada por quem procura o teste on-line, não por um recorte probabilístico da população brasileira. Assim, não é retrato definitivo do país. No entanto, a mesma direção aparece em dados de fontes diferentes, censos oficiais, não amostras espontâneas, e aí que as chances aumentam de que métrica esteja correta.

O mercado de escolas bilíngues nacionais e internacionais cresce, as soluções ajustadas de programas bilíngues na grade curricular também. Esperamos que o conhecimento de inglês dos brasileiros melhore juntamente. Já há estados e municípios que planejam implementar educação em português e inglês na rede pública.

O gargalo estrutural que tem origem numa decisão oficial

Em 1998, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) definiram que a escola deveria ensinar apenas a ler em língua estrangeira. O documento foi direto, uma vez que apenas uma pequena parcela da população teria oportunidade e necessidade de usar o inglês falado. Turmas lotadas, carga horária reduzida e professores pouco fluentes tornavam inviável ensinar a ler, entender, escrever e falar. Na prática, o Ministério da Educação abandonou o desenvolvimento da oralidade. Por quase 20 anos, o inglês da escola brasileira foi disciplina chata de leitura e gramática, nunca de conversação.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), homologada em 2017 e 2018, tentou reverter isso. Colocou a oralidade em primeiro lugar entre os eixos do currículo e adotou, pela primeira vez, o conceito de inglês como língua franca. Pelo menos no papel, foi uma enorme mudança de paradigma.

Na sala de aula, por sua vez, é outra história. Segundo o Censo Escolar do Inep de 2017, apenas 45% dos 62 mil professores de inglês da rede pública tinham formação superior na área de línguas estrangeiras. Um estudo do Instituto Plano CDE, encomendado pelo British Council em 2015, entrevistou 1.350 professores de inglês de todas as regiões do país e encontrou apenas 33% com certificação de proficiência na língua.

Em 2021, um grande jornal paulistano mostrou que mais de 70% dos alunos brasileiros tinham aulas de inglês com professores sem formação adequada. Ou seja, a BNCC pede oralidade e fluência a um corpo docente que, em boa parte, não domina a língua com fluência. É essa distância entre o documento e a sala de aula real que tem impedido o avanço de uma educação bilíngue bem feita no Brasil.

Existem escolas bilíngues com bons materiais. E os professores?

Todavia, vale lembrar que o mercado não é homogêneo. Há uma parcela menor, e mais antiga, de escolas nascidas bilíngues, com currículo pensado desde a base para lecionar 40% a 50% das disciplinas em inglês. A parcela maior, e a que mais cresce, é a de escolas tradicionais que adotam um programa bilíngue oferecido por fornecedores de sistemas de ensino, e encaixam-no no currículo já existente.

O conceito que embala todos esses programas nasceu na Europa, mais precisamente na Finlândia, nos anos 1990, e é chamado de ensino integrado de conteúdo e língua (CLIL). A abordagem pedagógica exige que disciplinas escolares sejam lecionadas numa língua estrangeira sem substituir a língua materna.

É justamente a segunda categoria, de CLIL e de ensino de inglês baseado em conteúdos escolares (CBLT ou CBT), a que cresce mais e demanda mais dos professores. E é nela que o gargalo da formação docente é mais grave. Comprar ou adotar um programa bilíngue não é a mesma coisa que formar bem um professor numa abordagem pedagógica totalmente nova e muito exigente. A escola tradicional que adota uma solução como das suas editoras parceiras herda também o mesmo déficit de qualificação docente que já tinha antes, só que agora com um material didático maravilhoso e de primeiro mundo.

Sairão na frente os fornecedores de programas e soluções bilíngues que também oferecerem o ensino da língua a todos os professores da escola, principalmente aos de inglês, que usarão o seu material adotado, acompanhadas de exames internacionais de proficiência, de um sólido programa de formação metodológica e até mesmo formação docente. É muita ingenuidade esperar que a maioria das licenciaturas em Letras do país façam isso pelo mercado.

As 1.200 escolas e programas bilíngues atendem uma fatia de famílias que pode pagar por eles, cerca de 3% das escolas privadas do país. As outras 97%, e a rede pública inteira, seguem sujeitas ao mesmo déficit de formação docente que levou o PCN de 1998 a desistir do ensino da fala.

O Brasil mudou a lei da educação básica pelo menos 4 vezes desde 1961. Retirou a obrigatoriedade das línguas estrangeiras modernas em 1961 e em 1971. Devolveu-a em 1996, sem garantir o ensino da oralidade e nem a qualificação docente. Em 2017 prometeu que ensinaria a todos os alunos a conversarem em inglês. Só não garantiu até agora que haveria professor para isso e, pelo jeito, não o fará tão cedo.

* Fabricio Zavarise Correia é educador, escritor, palestrante e consultor. Mestre em Educação Linguística pela Universidade de Chichester (Reino Unido), especialista em Educação Bilíngue e MBA em Gestão Estratégica & IA pela UFJF. Discorre sobre linguagem, educação, liderança, inovação e Inteligência Artificial. (Instagram: @fabricio.zavarise e https://fabriciozavarise.com.br)