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Flavia Azevedo
Publicado em 6 de setembro de 2026 às 05:00
Pela primeira vez na série histórica do Mapa da Inadimplência da Serasa, as mulheres passaram a ser a maioria absoluta entre os brasileiros com o nome negativado. São 40,4 milhões de brasileiras com restrições de crédito, contra 27,7 milhões há dez anos, um salto de 46% em uma década. Na Bahia, o cenário é ainda mais acentuado: o estado tem 5,2 milhões de pessoas negativadas, e as mulheres representam 53% desse total. >
Esse recorde não tem uma causa única, mas os dados disponíveis descrevem o cenário. As mulheres chefiam hoje 51,7% dos lares brasileiros - 41,3 milhões de famílias - e, nesses casos, concentram sozinhas a responsabilidade financeira da casa. Ao mesmo tempo, têm uma taxa de participação no mercado de trabalho 22,6 pontos percentuais menor que a dos homens na mesma posição, e a informalidade atinge 40,3% desse grupo. >
Mesmo com mais anos de estudo, em média, ganham cerca de 24% menos. Dedicam 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e cuidados - quase o dobro das 11,7 horas dos homens - e 85% já relataram ter crédito negado pelo sistema bancário tradicional, que costuma exigir comprovações difíceis de cumprir para quem trabalha por conta própria. >
Coagulatio
Há também uma camada que os números não captam: o peso emocional e físico de lidar com dinheiro. Levantamentos sobre saúde financeira mostram que esse peso não é exclusividade feminina, mas para quem além do orçamento também carrega o cuidado da casa e da família e, tradicionalmente, não recebe educação financeira, a coisa se complica um pouco mais. É nesse ponto de encontro entre estrutura e experiência pessoal que atua o projeto Coagulatio, criado pela economista e planejadora financeira Natália Maria e pela psicóloga Samira Simon.>
"Hoje eu perco muito menos comida do que antes", conta a ginecologista e professora Ana Gabriela, participante do projeto, trazendo um exemplo simples. "Eu comprava verdura sem pensar quantos dias ia me alimentar em casa, e ela estragava. Hoje eu só compro se realmente for fazer aquela refeição. Já corto, já cozinho se for perder, distribuo os legumes de uma maneira mais racional". A mudança, segundo ela, não veio de uma cartilha de economia doméstica, mas de uma percepção que foi se formando aos poucos. "Não foi que me deram essa regra", explica. "Fui vendo onde aplicava no meu cotidiano aqueles aprendizados".>
Ana Gabriela associa essa mudança a algo mais amplo do que hábitos de compra. "Eu percebia que existia alguma relação emocional com as escolhas financeiras, mas não na profundidade que comecei a entender depois da roda", diz. "E também a relacionar com meus antepassados mais distantes, não só com meu núcleo familiar direto".>
O nome do projeto que ela frequenta vem do latim e designa, na alquimia e na psicologia analítica, o processo de transformar o líquido em sólido - o abstrato em concreto. É a operação que Natália e Samira dizem perseguir com o dinheiro: dar forma a algo que costuma aparecer só como sensação, medo ou silêncio.>
Do consultório à roda>
O projeto nasceu do encontro entre dois consultórios. "Eu levei isso pra terapia, e comentei sobre como as mulheres tinham dificuldade na lida com o dinheiro, a partir da minha experiência em atendimentos", conta Natália. Do outro lado, Samira reconhecia um padrão parecido em suas pacientes: mulheres bem-sucedidas, paralisadas diante das próprias finanças. "Por que a gente não faz alguma coisa para tentar melhorar essa relação?", lembra Natália de ter se perguntado.>
Da soma dessas experiências nasceu uma definição que as próprias criadoras resumem assim: o Coagulatio é uma roda de fomento à autonomia feminina. Não uma palestra, nem uma consultoria financeira, e também não uma resposta única para um problema que, como mostram os dados, é multifatorial. "Eu queria sair da formatação de sala de aula, uma coisa mais quadrada, que é o que o mundo da economia costuma trazer", diz Natália. O formato de roda, vivencial, é herança da prática de Samira, que há 25 anos facilita encontros de mulheres.>
Para as duas, a decisão financeira raramente é só racional. "A razão chega depois, muitas vezes para justificar uma escolha que já foi tomada a partir de um medo, um desejo ou algo que aprendemos na nossa história", explica Natália. Ela dá três exemplos de como isso pode se manifestar: não conseguir olhar o extrato bancário pode ser medo de se sentir incapaz de entender o que está ali; comprar roupas sem necessidade pode ser compensação de uma falta; guardar dinheiro obsessivamente na poupança pode ser lealdade a um ensinamento herdado dos pais.>
Entre as crenças que, segundo as criadoras, mais aparecem nas rodas, uma se repete com força: "mulher não pode ganhar mais que o marido". Ao lado dela, outras como "não sou boa com dinheiro" ou "se eu cobrar caro, não vão gostar de mim". Esses pensamentos raramente chegam como ideias claras, mas aparecem como comportamentos do tipo dificuldade de cobrar pelo próprio trabalho, medo de checar o saldo e necessidade de agradar.>
O corpo entra primeiro>
Antes da palavra, vem o corpo ou, pelo menos, é essa a leitura que orienta o trabalho de Samira. "Podemos encontrar manifestações como aperto no peito, tensão muscular, alteração na respiração ou vontade de fugir do assunto", diz a psicóloga. "Não buscamos interpretar automaticamente essa reação, mas convidamos a mulher a fazer uma pausa e perceber: o que está acontecendo comigo agora?". Para a psicóloga, o corpo funciona como uma porta de entrada para algo que a consciência ainda não organizou em palavras.>
O formato coletivo, segundo ela, cumpre uma função que o atendimento individual não alcança sozinho. "Quando uma participante compartilha uma dificuldade e outra reconhece algo de si naquela fala, pode acontecer uma coletivização da culpa e da vergonha: aquilo que parecia ser um defeito exclusivamente seu passa a ser compreendido também como uma experiência humana e social", explica.>
Foi o que aconteceu com a psicóloga Sabrina Costa Figueira, participante do projeto. "O trabalho me impactou demais. Levei para minha terapia e trabalhei por várias sessões as minhas descobertas", conta. "Me dei conta de que posso construir um caminho meu na lida com meu dinheiro, diferente das mulheres da minha família, que precisaram lidar de outra forma".>
Para a administradora Cecília Vaz de Souza, o encontro abriu espaço para temas que antes geravam ansiedade, como aposentadoria e planejamento de futuro. "Consegui enxergar os padrões da minha família e, a partir disso, fiz minha escolha de como quero lidar com o meu dinheiro", diz.>
Mais que dinheiro>
Para Natália, discutir dinheiro é discutir liberdade, mas ela mesma reconhece que essa liberdade também depende de condições que a roda, sozinha, não cria. "A autonomia financeira não significa apenas ter dinheiro, mas ter segurança suficiente para escolher trabalhar em um ambiente saudável, permanecer ou sair de um relacionamento, viver onde deseja, investir em si mesma", diz a economista. É esse campo de escolhas ampliado, segundo ela, que permite ao autodesenvolvimento florescer.>
"A gente entra numa roda viva: trabalhar incansavelmente para pagar os boletos, sem se dar conta de que o dinheiro muitas vezes funciona como recompensa do cansaço", resume Ana Gabriela, sobre a própria experiência. Para ela, o aprendizado não se esgota. "É sempre aprendizado. Não se esgota. É uma coisa contínua".>
SERVIÇO>
É possível ter acesso ao projeto Coagulatio acionando as idealizadoras Natália Maria e Samira Simon pelos perfis @to_no_azul e @deusascirandadas, ou acompanhando a programação no espaço RoZê. A roda de conversa "Primaveras de si – Dinheiro também floresce", conduzida pela dupla, com a mediação da também psicóloga Márcia Lisboa, acontece no próximo dia 12 (sábado), às 15h, no Museu de Arte da Bahia. A entrada é gratuita.>
Por @flaviaazevedoalmeida>