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Por que Trump não gosta do Pix?

Meio de pagamento é uma das poucas unanimidades em um Brasil polarizado

  • Foto do(a) author(a) Donaldson Gomes
  • Donaldson Gomes

Publicado em 11 de julho de 2026 às 05:00

Pix tem participação na inclusão de grande parcela dos brasileiros no sistema bancário Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

Eu só conheço duas pessoas que não gostam do Pix, uma delas é o meu sogro e a outra é Donald Trump. Do velho Antonio Vieira já recebi as explicações para as reservas em relação ao meio de pagamento que caiu no gosto do brasileiro – o sogrão desconfia de tudo o que é oferecido pelos bancos brasileiros desde que o ex-presidente Fernando Collor de Melo confiscou as poupanças, na década de 90. Só faltava entender os motivos do presidente dos Estados Unidos.

Em julho, os Estados Unidos (EUA) avisaram que vão tarifar em 25% diversos produtos brasileiros a partir do próximo dia 15 e uma das justificativas é o Pix. O governo Trump acusa o Banco Central de favorecer o sistema em detrimento de empresas americanas — leia-se Visa, Mastercard e as big techs do setor financeiro. O Escritório de Comércio dos EUA (USTR) abriu uma investigação sobre o assunto em julho de 2025, a pedido do próprio Trump.

Ele acredita que o Pix, gratuito para pessoas físicas, virou uma ameaça às operadoras de cartão, mas essa tese resiste aos fatos?

Antes do Pix, cerca de 34 milhões de brasileiros adultos estavam fora do sistema bancário. Segundo o Instituto Locomotiva, movimentavam R$ 817 bilhões por ano em dinheiro. Hoje, mais de 96% já possuem conta bancária e 88% utilizam o sistema de pagamentos. Um estudo da FGV estima que o Pix respondeu por algo entre 20% e 30% desse avanço.

E por que estes números são importantes? Porque Donald Trump acredita que o meio de pagamentos brasileiro está tirando clientes das bandeiras de cartões dos EUA, porém a realidade mostra que o Pix foi um dos principais motores da inclusão financeira, junto com o auxílio emergencial, pago durante a pandemia, e a expansão das fintechs e bancos digitais.

Trump não faz a menor ideia de como é bom comprar um picolé ou um queijo coalho nas praias de Salvador e pagar com Pix. Ele também ignora o impacto disso para quem vive do comércio informal. Alguém precisa avisar que ele está mexendo com uma das raras unanimidades nacionais. Da extrema-esquerda à extrema-direita, o brasileiro ama o Pix. Até pouco tempo, a seleção brasileira de futebol também unia todo mundo, mas depois do último domingo (dia 5), acabou o amor.

Além da sua praticidade, outro motivo para o sucesso do meio de pagamento é que ele não tem “um pai”. Começou a ser desenhado em 2014, no governo de Dilma Rousseff. Em 2018, sob a gestão de Ilan Goldfajn no Banco Central, durante o governo Temer, foi lançado o comunicado oficial que estabelecia as diretrizes para o ecossistema de pagamentos instantâneos no Brasil. Roberto Campos Neto, presidente do BC no governo de Jair Bolsonaro, implementou e lançou o sistema em 2020.

É uma rara política de Estado que sobreviveu às mudanças de governo no Brasil. As alternativas ao Pix nunca foram as soluções oferecidas pelas big techs americanas. Eram o DOC e o TED: lentos, caros e burocráticos. O Pix não impede a atuação de empresas privadas nem proíbe outros meios de pagamento. É uma infraestrutura pública sobre a qual bancos e fintechs continuam competindo por clientes.

O Pix foi lançado oficialmente pelo Banco Central do Brasil em novembro de 2020 por Ilustração, IA

Quando surgiu, em novembro de 2020, o Pix foi alvo de diversas teorias da conspiração. Houve quem o associasse ao número da besta das profecias bíblicas, quem acreditasse que seria uma ferramenta de vigilância do governo e até quem previsse que ele quebraria os bancos brasileiros — algo que Roberto Campos Neto precisou vir a público desmentir. O tempo, senhor da razão, a praticidade do Pix e todas as melhorias feitas nos últimos anos acabaram vencendo quase toda a resistência ao Pix — exceto a do meu sogro e a de Donald Trump.

E se os conflitos fossem resolvidos em campo?

Assistindo aos jogos desta Copa do Mundo, viajei nos pensamentos: e se os grandes conflitos mundiais pudessem ser decididos numa partida de futebol? E se, em vez de lançar bombas, os países resolvessem as diferenças dentro de campo? Os drones, cada vez mais letais, serviriam apenas para registrar cada lance das partidas. A inteligência artificial deixaria de ser usada para planejar ataques contra alvos militares e passaria a analisar dados de atacantes, meias e defensores, permitindo aos "professores" extrair o melhor de cada atleta dentro das quatro linhas. Seria uma forma muito mais rápida, eficiente e, sobretudo, menos dolorosa de resolver disputas. Faz tempo que os organismos multilaterais perderam a eficácia nessa missão. Por que não dar uma chance para a bola?

Impasse em Brasília

Governo e oposição chegaram à última semana útil de trabalho do Congresso Nacional antes das eleições de outubro sem um acordo sobre a renegociação das dívidas de produtores rurais afetados por eventos climáticos. O Palácio do Planalto rejeita o Projeto de Lei (PL) 5.122/2023, apresentado pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), por considerá-lo excessivamente custoso. Em seu lugar, propõe uma medida provisória e se dispõe a manter as negociações nos próximos dias. O problema é que Brasília já está com as atenções voltadas para as eleições. Na última quinta-feira, o presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre, cancelou a sessão destinada à análise de vetos presidenciais e sinalizou que votações relevantes deverão ficar para depois do resultado das urnas.

A ver navios

O artigo que escrevi sobre a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cerimônia de cravação da primeira estaca da plataforma provisória me rendeu bastante comentários. Muitos elogios e críticas. Trago aqui um dos mais relevantes. Fui procurado pelo representante de uma empresa contratada para prestar serviços ao consórcio responsável pela obra e o interlocutor confirmou o que todo mundo já sabia: "ainda não tem obra nenhuma". A empresa terceirizada, cuja remuneração depende da produção, mobilizou a equipe desde o mês passado para atuar nos canteiros na Ilha de Itaparica, mas até agora está a ver navios.

Alerta na Colômbia

O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, acusou o atual presidente, Gustavo Petro, de querer dar um "golpe de Estado" e convocou as Forças Armadas para protegerem a democracia e a desobedecerem a quaisquer ordens nesse sentido. Petro questionou repetidas vezes a legitimidade da eleição e convocou manifestações para 20 de julho, quando fará seu discurso de despedida do mandato. Após a repercussão negativa, Petro recuou e disse que realizará uma transição política completamente pacífica. A conferir.

Que deselegante

O presidente Luiz Lula da Silva mostrou o dedo do meio em uma cerimônia oficial. "Nós vamos acabar com essa história que eles pensam que o pobre não gosta de coisa boa. Aqui para eles", afirmou com o dedo em riste. “Nós gostamos de coisa boa. Nós queremos é tudo de primeira”, completou, dando a entender que é pobre. Será?

meme da semana

Enquanto a Ponte Salvador-Itaparica não chega, o jeito é rir Crédito: Reprodução @diegocastroba

Não é todo dia que um mesmo meme consegue reunir duas grandes decepções dos baianos. Além de relembrar os dias de glória do Brasil no futebol, cada vez mais longíquos para as novas gerações, conecta-se com a prometida Ponte Salvador-Itaparica. Só rindo.

(Viu algum meme interessante? Encaminha para donaldson.gomes@redebahia.com.br)