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André Uzeda
Publicado em 2 de agosto de 2026 às 11:53
Rogério nunca esqueceu dos gritos do seu treinador por, ao desproteger a dama em um lance bobo, ter perdido uma partida praticamente ganha. >
“Você não é filho do grande Pinto Paiva. Você é um impostor”, gritou Zé Carlos, enraivado com a displicência do jovem. Rogério tinha apenas 14 anos e representava a Bahia nos Jogos Escolares Brasileiros (JEB), cuja disputa, naquele ano de 1985, acontecia em Vitória, no Espírito Santo.>
“Eu, claramente, não tinha o mesmo talento do meu pai. Um dia, já no fim de vida, ele chegou a me confessar: ‘eu sabia que você não iria muito longe no xadrez. A gente conhece o jogador no arriar das malas. Eu nunca disse nada para não te desanimar’. Foi curioso ouvir isso dele”, relembra Rogério Paiva, que rumou seu cavalo para outra vereda igualmente fatigante: o jornalismo.>
O sobrenome Pinto Paiva, evocado pelo técnico no momento de fúria, é uma referência ao maior jogador de xadrez que a Bahia já teve. >
José Pinto Paiva foi dezesseis vezes campeão estadual, duas vezes campeão brasileiro (1966 a 1971) e também por duas oportunidades integrou a Seleção Brasileira de enxadristas, representando o país nas Olimpíadas de Lugano (na Suíça, em 1968) e Siegen (na Alemanha, em 1970).>
Foi também um dos diretores responsáveis por organizar campeonatos na Bahia e fortalecer a Federação Bahiana de Xadrez, a FBX, mantendo uma coluna sobre o esporte em jornais locais, estruturando desafios, convidando grandes lendas internacionais (como Anatoly Karpov e Pal Benko), além de estabelecer um calendário regular de competições no estado. Viraria até o nome de um destes torneios, organizado pela própria FBX.>
A grande abertura>
A paixão de Pinto Paiva pelo tabuleiro preto e branco de 64 quadradinhos começou tardiamente e por uma via genérica. Diferentemente de outros gênios que se destacam precocemente no esporte, ele foi inicialmente apresentado ao jogo de damas, quando tinha 12 anos.>
Pela enorme aptidão apresentada em encontrar soluções rápidas, passou a ser convocado pelos amigos para tentar alguns trocados no cais do porto, onde enfrentaria marujos e estivadores ociosos, em momentos de descanso do árduo trabalho.>
Nos tantos embates em troca de alguns punhados de moedas, acabou sendo apresentado a um tipo de desafio muito mais elaborado: o xadrez. A paixão por aquele mundo de fantasia (com Rei, Dama, Torres, Bispos, Cavalos e Peões), cuja movimentação carecia de uma estratégia bem arquitetada para derrubar oponentes, foi imediata.>
“Ele sempre contava que aprendeu rápido e se desenvolveu mais rápido ainda no jogo. Ele era um tipo de força selvagem, instintiva. Sua especialidade era o xadrez rápido (partidas em que cada jogador tem entre 10 e 60 minutos para dar o xeque-mate)”, conta Rogério.>
Filho de pai médico e mãe dona de casa, José Pinto Paiva nasceu em 1938, em Salvador. Cresceu no bairro do Santo Antônio e cursou direito. Já adulto, se tornou Procurador do Município da capital baiana, cargo em que permaneceu até a aposentadoria. Depois dela, começou a advogar como profissional libeal, se especializando em direito do trabalho.>
Apesar de todas estas titulações sociais e profissionais, a verdadeira projeção do seu nome sempre esteve intimamente ligada ao tabuleiro.>
“Os amigos de vida dele sempre foram do xadrez. Tenho firme lembrança de, lá em casa, ele sempre ensinar os filhos e amigos dos filhos a jogar. Fazia partidas simultâneas contra todos. Ou, então, me enfrentava tirando as duas torres e a dama. Ainda assim, ganhava sempre”, relembra Rogério, o primogênito.>
O grande duelo>
Quando Pinto Paiva começou a se destacar nacionalmente no circuito de xadrez, aos 28 anos, foi justamente quando apareceu a maior lenda desse esporte no país.>
Henrique Costa Mecking, mais conhecido pelo apelido Mequinho, tinha apenas 13 anos quando venceu o campeonato brasileiro pela primeira vez, em 1965. O torneio foi disputado no Rio de Janeiro, no ano em que se comemorava o quarto centenário da fundação da cidade.>
Na recém-lançada biografia ‘Entre Bispos e Reis’, que narra a história de Mequinho, o jornalista Uirá Machado conta que Pinto Paiva chegou a liderar aquele torneio, mas acabou sendo superado pelo garoto-prodígio.>
“Meu pai tinha uma grande admiração por ele. Dizia sempre que Mequinho nasceu com uma habilidade extrema e, fatalmente, se tornaria campeão do mundo. Ele nunca teve remorso ou raiva por ser derrotado pelo garoto. As diferenças entre eles eram outras”, rememora Rogério.>
Em 1972, aos 19 anos, Mequinho se tornou o primeiro brasileiro a conquistar o título de Grande Mestre (GM) internacional, ao somar os pontos suficientes no torneio de Hastings, na Inglaterra.>
O Brasil, governado pela mão sangrenta da ditadura militar, transformou o jovem em um herói nacional, com direito a desfile em carro aberto e até pontapé inicial em uma partida entre Flamengo x Vasco, no Maracanã. O presidente-ditador Emílio Garrastazu Médici também deu um emprego público ao jovem, como forma de mantê-lo dedicado apenas ao esporte.>
Quando jovem, Pinto Paiva havia sido um simpatizante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), embora nunca tenha oficialmente se filiado à agremiação.>
“Meu pai tinha um vínculo ideológico e uma admiração por Luís Carlos Prestes (secretário-geral do PCB de 1943 a 1980). Ele tinha essa decepção por Mequinho ter se deixado usar pela ditadura. Meu pai contava que chegou a alertar Mequinho sobre o risco de ser um garoto-propaganda do regime, mas ele não lhe deu ouvidos”, diz Rogério. >
Em 1966, Pinto Paiva venceu o título brasileiro pela primeira vez – em um torneio que Mequinho não disputou. Em 1967, o jovem gênio recuperou a coroa, deixando o baiano como vice-campeão. >
A coluna tentou contato com o Grande Mestre Internacional Mequinho, mas ele não respondeu às mensagens solicitando um pedido de entrevista.>
Final do jogo>
Em dezembro de 2024, Pinto Paiva morreu em Salvador, aos 86 anos. Há muito tempo já havia se distanciado do xadrez profissional e recorria aos tabuleiros apenas ocasionalmente, como simples hobby.>
No próximo dia 13 de agosto, na Livraria LDM, do Shopping Bela Vista, vai ser lançada em Salvador a biografia ‘Entre Bispos e Reis’, sobre a história de Mequinho. Além do escritor Uirá Machado, participam da mesa a biógrafa Gina Leite, que pesquisa a vida da enxadrista baiana Ruth Volkl Cardoso, e também Rogério Paiva, que falará dos embates do seu pai (Pinto Paiva) com Mequinho, entre tantos outros assuntos.>
Esta coluna é dedicada ao meu primo Rodrigo Uzêda, meu eterno freguês no xadrez não-profissional.>