Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Donaldson Gomes
Publicado em 15 de agosto de 2026 às 05:00
O ministro Alexandre de Morais, do Supremo Tribunal Federal (STF), tomou uma decisão na última terça-feira (dia 11) que coloca em xeque o entendimento a respeito do direito ao sigilo das fontes na produção jornalística no Brasil. Chamado popularmente de off, o sigilo é um direito da fonte, dos profissionais de imprensa, mas também da sociedade, assegurado no artigo 5º, XIV, da Constituição Federal. Moraes determinou uma operação de busca e apreensão contra Raimundo Cutrim, ex-secretário do Governo do Maranhão, apontado pela Polícia Federal como informante do blogueiro Luís Pablo, autor de textos contrários ao ministro Flávio Dino, também integrante do STF. >
Na mesma decisão, Alexandre de Moraes autorizou medidas contra Diogo Diniz Lima, advogado, ex-secretário de Urbanismo e Habitação na Prefeitura de São Luís, também apontado como informante e que, segundo despacho do ministro, teria feito pagamentos de R$ 100 mil ao blogueiro para a quitação de um imóvel. Todas as informações utilizadas como base para a decisão judicial foram tomadas a partir da quebra dos sigilos do jornalista, o que levou a críticas de entidades representativas do jornalismo. >
O STF, Edson Fachin, defendeu na quinta-feira (dia 13) a liberdade de imprensa, o direito constitucional ao sigilo da fonte e indicou que deve levar para análise pelo plenário da Corte a decisão de Alexandre de Moraes. Em nota, Fachin afirmou que o tribunal “reafirma seu compromisso irrenunciável com a Constituição e com o respeito às liberdades fundamentais, sobretudo com liberdade de imprensa e com o direito fundamental dos jornalistas ao sigilo de fonte”.>
“A apuração de eventuais ilícitos deve dirigir-se à conduta que constitua objeto da investigação, jamais à atividade jornalística legítima exercida no cumprimento de sua função constitucional”, destacou. >
Em nota, Luís Pablo afirmou manifestar “profunda preocupação com os rumos da investigação conduzida pela Polícia Federal e, especialmente, com a tentativa de criminalizar o exercício da minha atividade jornalística”. >
Entenda o caso>
Moraes foi designado relator do caso em 15 de julho por conduzir do inquérito das fake news e, segundo sua decisão, o inquérito policial investiga a prática de obtenção e divulgação de informações de Dino.>
No pedido ao STF, os investigadores pediram apreensão de celulares, computadores, mídias de armazenamento, documentos físicos e digitais, além de acesso aos dados encontrados nos dispositivos, incluindo bancários, fiscais, telefônicos e telemáticos. O ministro ainda autorizou buscas em quatro endereços, ligados aos dois alvos, de contratos, cartões, procurações, registros de terras, comprovantes de pagamentos, veículos e dinheiro.>
De acordo com a PF, a apuração começou em novembro do ano passado, depois da publicação de textos pelo blog de Luís Pablo. Ele fez diversas acusações em relação a um suposto uso de veículos oficiais, tanto do Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA), quanto do governo estadual, pelo ministro Flávio Dino. >
A investigação concluiu que Cutrim conseguiu as informações sobre o tema em sistemas de acesso restrito e as repassou para a produção dos textos.>
Em outro processo, Moraes afirmou haver “indícios relevantes” de que o blogueiro perseguiu Dino por meio de publicações e redes sociais, “atentando contra o ministro”. O relator acrescentou links e imagens de textos do blog, afirmando indicar vigilância.>
A PF utilizou diálogos entre o jornalista e Cutrim. O ex-secretário teria enviado imagens em fotografia e vídeo com dados do veículo e nome de empresas que prestam serviço de abastecimento do TJ-MA. >
Reação >
Em seu comunicado, Luís Pablo afirmou estar perplexo com a “identificação e violação do sigilo de uma fonte jornalística”. Para ele, “criminalizar um jornalista, violar sua fonte e devassar relações privadas em razão do exercício de sua profissão representa uma grave ameaça às garantias asseguradas à imprensa e à própria sociedade.>
A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), a Associação Nacional de Jornais (ANJ) e a Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) manifestaram “profunda preocupação” com a autorização da medida diante dos riscos à liberdade de imprensa. De acordo com as entidades, casos do tipo podem resultar em intimidação do trabalho da imprensa. >
Segundo Marcelo Rech, presidente da ANJ, “o ponto central é que a Constituição não deixa dúvidas quanto ao sigilo da fonte quando necessário ao exercício profissional”. >
A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) divulgou nota em que manifesta “alarme diante das medidas judiciais que permitiram identificar e perseguir uma fonte do jornalista”. Ela afirma que “a violação do sigilo profissional constitui uma grave ameaça ao exercício do jornalismo e estabelece um perigoso precedente para a liberdade de imprensa no Brasil”.>
Em relação ao caso do Maranhão, o presidente da instituição, Pierre Manigault, declarou considerar “especialmente grave que a investigação tenha permitido chegar até uma fonte jornalística por meio da análise dos dispositivos apreendidos de um jornalista”.>
A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) publicou nota em que “manifesta profunda preocupação e condena a quebra de sigilo de fonte de um jornalista no Maranhão”. >
“Estão tentando me destruir profissionalmente, porque diante da revelação da minha fonte a nível nacional, quem é a pessoa que daqui para a frente vai querer falar comigo ou me passar informação?”, questiona Luís Pablo em uma entrevista à Folha de S. Paulo, publicada na última quinta-feira (dia 13).>