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Moyses Suzart
Publicado em 9 de agosto de 2026 às 05:00
Fala a verdade, qual a sua primeira ação quando desperta pela manhã? Garanto que, antes mesmo de dar bom dia ao universo, você pega seu celular para “se conectar” com este mundo barulhento, informatizado e sem contemplação. Ao mesmo tempo, começa o barulho. O vizinho liga o liquidificador, filho grita seu nome, cachorro latindo, chefe te aporrinhando, alguém passa com o som do carro no volume máximo, makita fazendo obra, vendedor gritando, buzinas, um caos. Agora a pergunta: você estaria disposto a largar isso tudo e ficar três dias sem dizer um piu, sem celular, só meditando? Pois é possível, só precisa querer. >
Pense na possibilidade de um final de semana inteiro longe da tela do celular, substituindo a interação social e os estímulos da tecnologia por práticas de silêncio e meditação conduzidas de acordo com a tradição zen-budista. Esta é a proposta do Retiro Curto (Zazenkai) de Meditação e Silêncio, que será realizado pela segunda vez em Salvador com a condução do reverendo Zengetsu Enjo Sensei, monge missionário oficial da escola budista Soto Zen. O retiro será no Convento Dom Amando, na Estrada Velha do Aeroporto, de 14 a 16 de agosto. Uma fuga que pode parecer quase impossível de conseguir, mas é necessário. >
A coisa é séria. O excesso de estímulos do cotidiano tem sido apontado como um dos principais fatores de desgaste da saúde mental. Um estudo recente da Universidade de Oulu, na Finlândia, identificou que a exposição prolongada ao barulho do trânsito está associada ao aumento do risco de ansiedade e depressão, especialmente quando os níveis de ruído ultrapassam 53 decibéis, limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O ruído constante mantém o organismo em estado de alerta, elevando a produção de hormônios ligados ao estresse e comprometendo a capacidade de relaxamento e recuperação do cérebro. >
Junte isso a outro problema: o excesso de tela. O uso excessivo do celular e das redes sociais expõe o cérebro a uma sequência contínua de notificações, informações e estímulos que dificultam a concentração e o descanso mental. O encontro budista com o silêncio até é uma boa fuga, mas o objetivo também é uma reaproximação com você mesmo. Com o seu interior, muitas vezes barulhento de ideias e aflições. >
“Na verdade, não é experiência de desconexão, é conexão consigo mesmo. As pessoas estão desconexas, elas se desconectaram de si, do que a verdadeira essência da vida. Então, a tecnologia do mundo moderno realmente não está trazendo felicidade real, nem está respondendo às nossas perguntas mais profundas”, conta o monge Zengetsu Enjo Sensei, que vai liderar o fim de semana silencioso. >
“A ansiedade, em grande medida, deriva de uma desconexão com o presente. Frequentemente, nossa mente habita outros tempos e espaços, ocupada com preocupações sobre um futuro que ainda não se concretizou, o que nos distancia da realidade imediata e das pessoas que nos cercam. Nesse contexto, torna-se pertinente a máxima de que a internet aproxima quem está distante, mas afasta quem está próximo”, completa Enjo, sobre a experiência de três dias sem celular. >
Iniciativa da Comunidade Taikanji Salvador, o retiro - que está com inscrições abertas - é voltado tanto para praticantes experientes como para aqueles que estão apenas iniciando na prática da meditação. Com uma programação baseada nas rotinas dos mosteiros japoneses da tradição Soto, o retiro terá sessões de zazen - a meditação sentada praticada desde os tempos de Budha e aprimorada ao longo de 26 séculos na Índia, China e Japão -, além de cerimônias e trabalho comunitário (samu), tudo permeado pelo espírito da atenção plena e pelo silêncio.>
O monge Enjo, que hoje atua entre Pedra Bela e Bragança Paulista, em São Paulo, à frente da Comunidade Taikanji - explica que “é somente no silêncio externo e interno que podemos ouvir a voz interior”. Nesse contexto, segundo ele, o foco central do retiro será “o zazen como caminho para a paz interior”. Para quem nunca meditou antes, o orientador não recomenda qualquer tipo de preparação prévia: apenas “levar roupas folgadas como moletom e uma mente de principiante”. >
“Sempre há desafios, como dor nas pernas e costas ou mente inquieta, mas as dificuldades são na verdade oportunidades de aprendizado: quando existe uma vontade genuína de aprender, haverá sempre um caminho”, ressalta Enjo, que começou seu treinamento monástico sob a orientação da notória Monja Coen, de quem foi o primeiro aluno, tornando-se, além disso, o primeiro monge ordenado pela célebre líder brasileira, no templo Bushinji, em São Paulo, em 1995. Três anos depois, foi o primeiro estrangeiro admitido para o treinamento monástico formal no rigoroso mosteiro de Sojiji, no Japão.>
O silêncio costuma ser tratado como ausência de alguma coisa. No retiro, ele é justamente o contrário: é a oportunidade de se desligar do caos e se reconectar com o “eu interior”, que também pode estar um caos, mas que precisa ser visitado. Para participar, há uma taxa de inscrição e está incluso a dormida e alimentação. Os interessados em participar do evento devem acessar o site da comunidade Taikanji pelo endereço eletrônico www.taikanji.com.br, ou entrar em contato via WhatsApp (71) 99636-9494 (Kogetsu) ou através do e-mail taikanjissa@gmail.com>