Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Moyses Suzart
Publicado em 12 de julho de 2026 às 10:00
Aquela assoprada na fita para fazer com que ela funcionasse milagrosamente, o CD de um jogo que era possível trocar com o amigo quando enjoasse, comprar jogo usado, tudo isso vai ficar no passado. A Sony anunciou que vai deixar de fabricar mídia física. Em outras palavras, só será possível comprar jogos do Playstation de forma digital, como num streaming, dentro do próprio console ou em códigos vendidos no Mercado Livre ou Amazon, por exemplo. Tal medida está sacudindo o universo gamer, que já consegue enxergar uma mudança significativa no jeito de jogar. Até o console está com os dias contados, inclusive. >
Em tom mais brutal que um fatality do Mortal Kombat, a Sony, fabricante do Playstation, decretou: "A partir de janeiro de 2028, os novos jogos lançados para PlayStation estarão disponíveis para compra na PlayStation Store e em varejistas apenas em formato digital. Jogos lançados antes de janeiro de 2028 em disco poderão continuar sendo jogados neste console".>
Para os gamers, o assunto divide opiniões. Para os vendedores, um prejuízo incalculável. O assunto inclusive chegou ao Congresso Nacional. A deputada federal Erika Hilton acionou a Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor) para investigar a decisão da Sony de parar de produzir jogos físicos.>
“É grave também a questão da posse do jogo. Os jogos em mídia digital, na maioria esmagadora dos casos, não são "vendidos". Eles são "licenciados" para o consumidor mediante pagamento. E as empresas distribuidoras desses jogos se reservam ao direito de cancelar essa licença a qualquer momento. Assim, um jogo pode simplesmente sumir da biblioteca digital do consumidor que achou que comprou o jogo”, escreveu Erika Hilton, no seu perfil do X.>
Ela não está errada. Na versão digital, você cria uma biblioteca digital no seu perfil, onde ficam seus jogos comprados. Você pode instalar ou desinstalar a hora que quiser. Contudo, não significa que você tenha os games para sempre. Na atualização dos termos da PSP, plataforma do Playstation, um usuário que fique três anos com o perfil inativo perderá toda sua biblioteca. Pense numa situação hipotética: a situação aperta, você resolve vender seu console. Depois de três anos, a situação melhora e você compra outro PS5, mas sua biblioteca não tem mais seus jogos comprados. Fere diretamente o código de defesa do consumidor.>
Outro aspecto é o fim da possibilidade de revenda do que você adquiriu. “A venda exclusivamente digital de jogos também fortalece o monopólio das lojas de cada empresa de consoles. Os consumidores terão direito de revender ou emprestar seus jogos digitais? Suspeito que não”, indaga Erika.>
Vendedores baianos de games já sentem o prejuízo. Apesar de a medida começar a valer em 2028, o jogo mais esperado do ano, o GTA 6, já não terá versão física. “Todos nós que vendemos jogos e consoles estávamos na expectativa de venda do GTA 6, mas não teremos ele na versão física. Ou seja: o mercado vai ficar restrito a grandes lojas, como a Amazon, acabando com o comércio menor que vivia disso”, disse Reinaldo Bastos, dono da loja Rene Games, que está no ramo desde 2005, no Relógio de São Pedro.>
O santo graal dos games em Salvador
Para ele, o universo gamer está por um fio e perdendo sua essência. “Desde as fitas até os CDs, o jogador tinha a opção de trocar, revender, fazer essas trocas constantes que fazem parte desta cultura. Agora, estaremos presos na plataforma digital. Não vejo futuro nisso, tanto na visão do vendedor quanto do comprador, pois aqueles com baixa renda, que conseguem comprar com muito suor seu console, vêm até a loja comprar jogos usados, mais baratos. Não será mais possível”, argumenta Rene, como é conhecido.>
Rene diz que vai sentir o baque, mas ele tem uma carta na manga: sua especialidade é vender jogos e videogames antigos, do Atari, passando pelo Super Nintendo e chegando até os mais modernos, como o próprio Playstation 5. “O bom é que meu cliente é nostálgico, gosta de poder soprar a fita, de ter aquele console da infância. Mas, como vendo jogos modernos, sentirei um pouco, sim. O jeito é se adaptar”, completa.>
Há ainda uma preocupação com a preservação da história dos videogames. Museus, pesquisadores e instituições dedicadas ao estudo dos games alertam que a exclusividade digital pode dificultar o acesso a títulos antigos no futuro. Diferentemente de um cartucho ou disco preservado por décadas, um jogo digital depende da manutenção de servidores, licenças e compatibilidade tecnológica. No Canadá, há uma petição com o título “Não matem os discos" com mais de 200 mil assinaturas, a maioria de lojistas do país.>
O fim da mídia física também pode ser o começo do fim do próprio console que conhecemos. Fabricar um console moderno custa entre 450 e mil dólares, dependendo da complexidade das peças. O PlayStation 5, por exemplo, custa cerca de US$ 450 para ser feito. O Xbox, inclusive, já tem uma parceria com a Samsung, na qual as smart TVs possuem o console na forma virtual, como um aplicativo. Fazendo a assinatura, você tem acesso aos jogos, como na Netflix.>
Se esse caminho se consolidar, o videogame poderá seguir a mesma trajetória de outras tecnologias que pareciam insubstituíveis. O CD de música deu lugar ao Spotify, os filmes em DVD foram engolidos pelos serviços de streaming e até as locadoras, antes presentes em quase todos os bairros, desapareceram. Nos games, a transformação parece seguir o mesmo roteiro. Em breve, abrir a gaveta ou ter uma prateleira cheia de discos de PlayStation poderá parecer tão distante quanto rebobinar uma fita VHS.>
GTA 6