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Alan Pinheiro
Publicado em 16 de julho de 2026 às 05:01
Quando Odisseu é convocado por Agamenon para se juntar ao cerco dos aqueus à cidade de Troia, uma jornada pessoal na vida do rei de Ítaca se inicia. Desde que partiu de sua ilha e deixou a mulher e o filho sozinhos, 20 anos se passam até que ele consiga voltar para casa. Essa narrativa, contada no livro A Odisseia, ganha nova vida nas telas dos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (16), com o diretor Christopher Nolan à frente de um filme que impressiona pela qualidade técnica, mas que falha em encontrar o coração da obra. >
O longa segue a mesma ordem de acontecimentos do material original, com um prólogo apresentando a solidão de Penélope (Anne Hathaway) e a missão de Telêmaco (Tom Holland), esposa e filho de Odisseu (Matt Damon). Depois, o foco do enredo é acompanhar a saga do guerreiro em seu longo e perigoso retorno ao lar após a Guerra de Troia. O relato narra os confrontos contra seres míticos, como o ciclope Polifemo (Bill Irwin), as sedutoras sereias e a ninfa Calipso (Charlize Theron), enquanto o protagonista luta contra o destino para reencontrar sua fiel esposa.>
Para o seu novo projeto, Nolan quis gravar inteiramente com câmeras IMAX, a fim de obter imagens com a maior resolução possível, mas havia um problema. O equipamento fazia muito barulho durante as filmagens, o que motivou a criação de versões mais silenciosas. Na hora de exibir, surgiu outro contratempo: o corte final não poderia passar de três horas, tempo máximo físico que o platter (prato giratório que armazena as cópias em película de 70 mm) consegue suportar.>
Entender essa revolução tecnológica e suas limitações é importante, tendo em vista que a versão que chega aos cinemas é uma obra cortada e que sofre diretamente com o tempo de duração. Mesmo com duas horas e 52 minutos, a narrativa da aventura soa incompleta, não por conta das adaptações do texto original ou da exclusão de conteúdo, mas pela falta de desenvolvimento dos personagens.>
Com exceção de Odisseu, não se conhece verdadeiramente ninguém. Com mais tempo, ou mais habilidade em lidar com o roteiro, o diretor poderia fazer com que os coadjuvantes se tornassem tão interessantes quanto o protagonista, sem precisar recorrer a diálogos expositivos. Matt Damon aproveita esse holofote para se destacar, mas o restante do elenco não possui o mesmo brilho.>
Sobre a grandeza da produção, não teria como ser diferente. Para quem gostou do universo de Interestelar (2014) ou da magnitude da bomba em Oppenheimer (2023), A Odisseia consolida-se como mais um filme de Nolan com imagens deslumbrantes. Elas, no entanto, têm pouco a dizer. Falta substância para escapar de uma exposição puramente convencional.>
Na prática, isso faz com que os momentos épicos falhem em se conectar aos sentimentos do espectador para gerar empolgação. Tudo, então, torna-se frio, assim como os já conhecidos filtros azuis do cineasta. Claro que, espalhados pela projeção, há instantes em que a direção se mostra inspirada, mas eles não são a regra. Ainda assim, deve-se elogiar alguns dos encontros fantásticos, como a viagem ao Hades e o encontro com o ciclope.>
Quanto aos elementos fantasiosos, segue-se uma intenção de aproximá-los da realidade ao máximo, principalmente em relação aos deuses. Esse tratamento realista já se tornou uma assinatura de Nolan, o que não é necessariamente um ponto negativo. Dentro do tipo de trama que o diretor quis contar, as decisões tomadas fazem sentido e até engrandecem a moral proposta.>
Em resumo, é inegável que A Odisseia é um trabalho de altíssima qualidade técnica. A ambientação acrescenta muito à experiência, tornando a sala de cinema o lugar perfeito para desfrutar do espetáculo. No entanto, a capacidade de usar o potencial máximo da tecnologia a serviço de uma história emocionante não fica evidente na maior parte do longa-metragem. O filme acaba sendo como o próprio Cavalo de Troia: belo por fora, mas com surpresas desagradáveis por dentro.>