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Flavia Azevedo
Publicado em 23 de maio de 2026 às 13:00
Prepare o fone de ouvido e cancele os compromissos. Acabei de atravessar a madrugada escutando, de uma só vez, a nova obra-prima de Chico Felitti e recomendo fortemente! Muito mais do que uma investigação jornalística, o podcast “A Síndica” é um mergulho profundo nas entranhas do que acontece com o comportamento humano quando ressentimento, solidão e poder se encontram no mesmo indivíduo com grande intensidade. Você já conhece Felitti. Ele - que já nos presenteou com “A Mulher da Casa Abandonada”, “O Ateliê”, “A Coach” e o precursor “O Síndico” - talvez seja hoje o maior cronista das excentricidades e perversões brasileiras. >
Agora, o jornalista reconstrói a trajetória de Maria Lima das Graças, a “Doutora Graça”, mulher que governou o icônico Edifício JK, em Belo Horizonte, por inacreditáveis 42 anos e com "leis" estranhíssimas. Imagine viver sob um regime em que animais de estimação não podem tocar o chão das áreas comuns e o condomínio precisa ser pago obrigatoriamente em dinheiro vivo. Para sustentar a própria autoridade, Graça mantinha uma rede informal de vigilância dentro dos prédios e exigia um depósito de quatro milhões de reais para qualquer morador que ousasse disputar eleição contra ela. Parece ficção, mas é a vida em condomínio conduzida por um delírio autoritário que só acabou no fim do ano passado. >
O caso do JK talvez seja um dos retratos mais perfeitos da chamada “Síndrome do Pequeno Poder”, que é aquele fenômeno em que alguém recebe uma parcela mínima de autoridade e passa a exercê-la como se tivesse herdado o trono da Arábia Saudita. O podcast mostra moradores vivendo sob medo constante, encontros clandestinos acontecendo de madrugada e vizinhos usando capuzes para esconder a própria identidade dentro do condomínio. “A Síndica” é uma história real sobre o prazer perverso que certas pessoas sentem ao controlar a vida alheia.>
Chico Felitti tem uma capacidade interessante de escuta e muita competência para mostrar como absurdos vão se naturalizando aos poucos. Em “A Síndica”, por exemplo, a gestão usa o departamento jurídico do próprio condomínio para intimidar opositores e obriga moradores a explicar relações pessoais à administração. O que começa sob o pretexto de “segurança” e “organização” termina como vigilância moral permanente. Ao escutar o podcast, você pode perceber que frequentemente convivemos com pequenos autoritarismos tratados como “jeito firme”. É aí que o perigo costuma morar.>
Além de diversão em altíssimo nível, “A Síndica” também funciona como um alerta. Caso ainda não tenha percebido, vai ficar claro pra você que a relação entre moradores e síndicos não é uma dinâmica afetiva ou familiar, mas uma prestação de serviço cercada por regras, responsabilidades e limites legais. De ambos os lados. O problema é que boa parte das pessoas só descobre isso quando a convivência já virou uma guerra fria que invade elevadores e grupos de WhatsApp. A omissão coletiva – aquela preguiiiiiçaaaa que dá de ir às reuniões - quase sempre é o terreno ideal para o nascimento de pequenas “monarquias prediais” que depois ficam difíceis de desmontar.>
Um dos méritos do podcast é ajudar a entender o que acontece quando condomínios acabam reféns de administrações personalistas. Se o cargo deixa de ser técnico e vira extensão do ego de alguém, o prédio inteiro passa a funcionar na lógica da lealdade, do medo e das panelinhas. Talvez por isso a figura do síndico profissional tenha crescido tanto nos últimos anos. Diferente do vizinho que mistura ressentimentos e interesses pessoais com decisões administrativas, o profissional terceirizado tende a enxergar o condomínio como aquilo que ele efetivamente é: uma estrutura complexa que exige preparo técnico, transparência e distância emocional.>
Além disso, a profissionalização dificulta práticas frequentes em administrações eternizadas pelo comodismo dos moradores. Superfaturamento de obras, favorecimento de fornecedores, contratos obscuros e conselhos fiscais decorativos costumam prosperar justamente onde ninguém quer olhar planilhas, fazer perguntas incômodas ou criar desgaste com vizinhos. “A Síndica” mostra como ambientes sem transparência acabam produzindo relações quase feudais dentro de espaços que deveriam servir à coletividade. O JK, assim como tantos outros condomínios, parece menos uma comunidade e mais um experimento social sobre vaidade e silêncio.>
“A Síndica” também nos lembra que síndicos têm poder executivo, mas não autoridade ilimitada. O Código Civil prevê destituição em casos de irregularidade administrativa ou má gestão. O problema é que muita gente ainda trata abusos cotidianos como algo inevitável, quase folclórico. “Falar mal” do síndico é praticamente um esporte ncional. O podcast mostra que administrações opressoras sobrevivem não pela força de quem manda, mas principalmente pelo descaso de quem prefere não enfrentar o conflito. Ou seja, a culpa é de todo mundo. O JK é um marco arquitetônico histórico projetado por Oscar Niemeyer, com características muito peculiares. Porém, as histórias narradas ali podem acontecer em qualquer prédio de três andares.>
Depois de escutar o podcast, a sensação que fica é de que muitos condomínios talvez sejam apenas versões reduzidas do Brasil: gente cansada, disputas por poder, regras interpretadas conforme a conveniência e uma obsessão permanente por controlar a vida alheia. Mas “A Síndica” também ensina que, no fim das contas, até administrações que parecem eternas podem cair quando pessoas entendem os próprios direitos, se informam e resolvem se organizar. Finalmente, depois do podcast, fica difícil olhar para aquele aviso passivo-agressivo colado perto da portaria sem imaginar que toda distopia começa com pequenos sinais. Então, pelo sim pelo não, é sempre bom exercer o direito de vigiar.>
* “A Síndica” está disponível no Spotify e na Orelo.>