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Moyses Suzart
Publicado em 24 de maio de 2026 às 05:00
Olhando uma rara foto antiga do interior do lugar, talvez a única existente e quase sem resolução, é possível imaginar Mia Wallace e Vincent Vega no meio do salão, fazendo a clássica dancinha de Pulp Fiction, filme de Tarantino. Luzes no chão, nem claro nem escuro, com um glamour sem igual. O globo espelhado, os neons e a luz estroboscópica ajudavam a deixar o ambiente mais frenético para os anos 70, década de ouro das boates. Afinal, que inferninho é esse?. Este lugar existiu em Feira de Santana, mas infelizmente hoje só pode ser conhecido por fora: a boate Jerimum, em formato de abóbora. Ela acaba de ser restaurada, vai virar um centro cultural multiuso, mas o maior mistério continua sendo imaginar os segredos guardados ali, no inconsciente de uma época cercada de drogas, sexo e muita brilhantina. >
Durante anos, a abóbora se tornou apenas uma referência entre os feirenses e, quem passava pela Avenida Presidente Dutra avistava uma fruta (sim, abóbora não é legume), podre, sem vida, mas carregada de história. “Lá fiz minhas maiores barbaridades, cheirei pó pela primeira vez, uma novidade na época. Namorei muito ali no escuro, dancei, bebi, fiz de tudo lá. Fui feliz, mas o que fiz ali é até hoje proibido em mais de 50 países, deixa quieto”, resume um feirense que era jovem adulto naquele período e pediu para não ser identificado. “Tenho filhos e um netinho, não será um bom exemplo. Aquilo era um inferninho. Que saudade eu tenho daquela abóbora, dava meia-noite, mas a Cinderela continuava acesa com sua carruagem”, lembra, com os olhos marejados de nostalgia.>
Tanta doideira não era motivo de cancelamento naquele tempo. Quando a boate Jerimum estava em pleno vapor, o mundo vivia um período de descobertas. Havia uma ruptura dos bons costumes e os jovens, mesmo em plena ditadura, mergulhavam na febre das discotecas, da liberdade sexual e do beijo na boca.>
Nas discotecas dos anos 1970, exagero era praticamente regra. Roupas brilhantes, lurex, maquiagem marcante, plataformas altíssimas e visual inspirado em referências da cultura pop dominavam as pistas. Enquanto muitas garotas buscavam inspiração na novela Dancing Days, os homens reproduziam o estilo febril de Saturday Night Fever, transformando as boates em verdadeiros espetáculos visuais.>
Virou abóbora: a história da lendária boate Jerimum que marcou as noites de Feira de Santana
A pista de dança era o centro de tudo e não podia parar. Foi nesse cenário que a figura do DJ ganhou protagonismo, comandando o som e interagindo diretamente com o público. O crescimento das discotecas também profissionalizou o setor e transformou as boates em grandes negócios, consolidando empresários conhecidos como “reis da noite” e casas icônicas da cultura noturna brasileira. Feira fazia parte desse circuito graças ao projeto do arquiteto Amélio Amorim, nome crucial na Princesinha do Sertão. Ele idealizou no local um conglomerado com restaurante, hotel, boate e outros empreendimentos ousados. Uma Las Vegas do Sertão. O Complexo Carro de Boi, porém, não chegou a ser concluído. Amorim deixou prontos o restaurante e a abóbora, mas morreu após um acidente de carro, em 1982, interrompendo a obra.>
Apesar da importância histórica em Feira, Amélio Amorim quase se tornou um nome esquecido na cidade, não fossem pessoas como a jornalista Ísis Moraes, especialista em jornalismo cultural. Ela tenta manter vivo esse legado, abandonado por décadas.>
“Amélio Amorim teve um papel singular no remodelamento da paisagem arquitetônica da cidade. Introduziu técnicas inovadoras e deu vida a projetos arrojados, sem perder de vista a identidade cultural feirense e sertaneja. Isso aparece claramente no Complexo Carro de Boi, talvez seu projeto mais grandioso, onde pôde criar de maneira mais livre, incorporando elementos naturais característicos do semiárido baiano”, conta Ísis, revelando ainda outro fato curioso para os mais leigos.>
Ao contrário do que muita gente imagina, a boate em forma de abóbora nada tem a ver com o conto de fadas da Disney da Cinderela, tampouco com a ideia de que depois da meia-noite todo mundo vira abóbora. Nada disso (mas nem que poderia ser…).>
“A união desses elementos sertanejos com técnicas modernas e desenhos futuristas deu origem ao Restaurante Carro de Boi e à famosa Boate Jerimum, em formato de uma abóbora típica, muito consumida na região. Quem viveu os tempos áureos da discoteca não esquece a beleza do interior, especialmente a pista de vidro colorido. Amélio usou bucha natural como isolante acústico e piaçava para forrar o teto. A boate recebia turistas de todo o país e até do exterior”, relata Ísis, que relembra nomes já vistos na Abóbora, como Vinicius de Moraes, Jorge Amado, Zélia Gattai, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir.>
Engenheiro responsável pela restauração da boate e do entorno, incluindo o restaurante, Carlos Parca sabe que o trabalho realizado foi mais do que estrutural: representou um resgate da história de Feira de Santana.>
“É uma obra muito diferenciada. Como eu sou daqui de Feira, nasci aqui, quando a CSO, empresa responsável pela restauração, me convidou para participar do projeto, senti mais do que uma obrigação. Era quase um compromisso afetivo fazer com que esse espaço voltasse a ser o que era antes, devolvendo isso à comunidade, tanto para quem viveu essa época quanto para quem nunca conheceu entender o que existia aqui antigamente”, afirmou Parca.>
Carlos lembra que a abóbora, mesmo degradada e sem uso, continuou sendo referência, principalmente durante a tradicional Micareta de Feira, funcionando como ponto de encontro. Contudo, apenas um grupo mais seleto sabia exatamente o que havia sido a boate Jerimum. Ou melhor, o que tinha lá dentro. >
“Muita gente tem histórias daqui. Meus tios, parentes da minha esposa, frequentavam a boate e sempre falam das boas lembranças. Feira não tinha muitos espaços assim, então praticamente esse era o principal local da juventude da época”, recorda o engenheiro, que descobriu várias curiosidades durante a pesquisa necessária para recuperar o espaço sem perder sua identidade original.>
Veja como estava a Abóbora de Feira, antiga Boate Jerimum, antes da demolição; ela será reconstruída
“A boate tinha uma tecnologia muito avançada para a época. A parte luminotécnica foi feita por um engenheiro eletricista daqui de Feira que trabalhou até na NASA. Não existia nada parecido nem em Salvador. Aquele piso colorido tinha placas de vidro com jogos de luz funcionando embaixo. Era algo muito tecnológico, bem no espírito das discotecas dos anos 70. Eu não tive o prazer de frequentar, apenas ouvi as histórias, mas reconstruir isso hoje dá orgulho”, completa.>
Natural de Feira, José Alves lembra que seu principal lugar de diversão nos anos 70 e parte dos 80 era justamente a abóbora. Lá, segundo ele, muita abóbora virava Cinderela. “Anos 70, 80… Frequentei bastante a boate Abóbora, do mega restaurante Carro de Boi. Eu era adolescente na época. No dancing, o piso era de vidro com facetas coloridas… Eita, que anos de ouro”, relembra.>
Já Samir Salloum recorda até o nome da turma que frequentava o local ao lado dele e de outras figuras conhecidas da Princesinha do Sertão, incluindo o próprio arquiteto idealizador do espaço. “Eu tinha uma foto com Amélio Amorim na boate. Também estavam Oydema Ferreira, Emília Borba, Paulo Norberto, Antônio Machado, Tonhão, José Makhoul, Macarrão, Raimundo Makhoul, Chimbinha, Jorge Doido e outros. Tempos bons.” Imagine Macarrão, Tonhão e Jorge Doido nessa boate…>
Infelizmente, não poderemos sentir esse gostinho, mas isso não diminui a importância da restauração. A boate, agora pronta, será transformada em um espaço cultural multiuso. O local também ganhou uma fonte luminosa e o antigo restaurante Carro de Boi voltará a funcionar, preservando características originais, como o piso de tocos de árvores, as colunas de pedra e as rodas de madeira no teto. A nova boate também ficou bastante semelhante à antiga. O espaço integra o Centro de Cultura Amélio Amorim e será aberto ao público, embora ainda não exista data oficial de inauguração.>
“A gente teve atenção aos mínimos detalhes, desde a estrutura da abóbora até os elementos do restaurante, como as rodas dos carros de boi, os muros de taipa e toda a regionalidade que Amélio quis trazer para o projeto. Foi um trabalho de mais de um ano, quase artesanal. Quando entramos aqui, muita coisa já não tinha mais condição de restauração porque a originalidade havia se perdido ao longo do tempo. Então começamos uma verdadeira pesquisa de memória, buscando arquivos históricos, fotografias e relatos de pessoas que viveram nesse espaço”, explica Mariana Ferraz, representante da CSO Engenharia.>
Restaurar esse ponto importante da história de Feira também significa resgatar a obra de Amélio Amorim. Com as novas edificações, muitos trabalhos do arquiteto vêm desaparecendo da cidade.>
“O mínimo que podemos fazer é não esquecer o legado dele. É permitir que a atual e as novas gerações entendam que sua importância vai muito além do nome de um espaço cultural onde repousavam as ruínas de um passado distante e apagado. Daí a importância da recuperação e revitalização. Certamente serão espaços relevantes para a cidade. Claro, isso depende também de o Estado dar a destinação correta ao equipamento, promovendo eventos e atividades artísticas e culturais frequentes, porque não adianta apenas recuperar um prédio histórico, é preciso transformá-lo em atrativo e mantê-lo vivo”, conclui Ísis Moraes.>
Sim, a revitalização e o uso cultural do espaço são fundamentais. Mas, cá entre nós, quem não gostaria de reviver um pouquinho daquele inferninho dos anos 70? Devia ser uma loucura ser mais uma sementinha dentro daquela abóbora, nessa mistura de conto da Disney com Pulp Fiction. Lá, a Cinderela não perdia apenas os sapatinhos. >