Acesse sua conta
Ainda não é assinante?
Ao continuar, você concorda com a nossa Política de Privacidade
ou
Entre com o Google
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Recuperar senha
Preencha o campo abaixo com seu email.

Já tem uma conta? Entre
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Dados não encontrados!
Você ainda não é nosso assinante!
Mas é facil resolver isso, clique abaixo e veja como fazer parte da comunidade Correio *
ASSINE

Você fala "pretuguês", mas não sabia o nome disso

Palavras como "cê", "tá" e "Framengo" não são erros de gramática e sim herança viva de línguas africanas que influenciaram o jeito de o Brasil se comunicar

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 20 de junho de 2026 às 09:17

Lélia Gonzalez
Lélia Gonzalez Crédito: Divulgação

Você provavelmente fala pretuguês todos os dias, mesmo que não perceba. Quando diz "caçula", pede um “acarajé”, chama alguém de "moleque" ou reduz "você está" a um simples "cê tá", carrega na boca uma história que envolve séculos de escravidão, resistência e mistura cultural até chegar ao português falado no Brasil. Durante muito tempo, essa herança africana foi tratada como erro, ignorância ou desvio. Hoje, transformada em conceito político e cultural, ela está no centro de um debate que questiona não apenas como falamos, mas também quem tem o poder de decidir, afinal, o que significa “falar certo” o idioma brasileiro.

ORIGEM

A história dessa expressão começou de forma pejorativa nas antigas colônias portuguesas em solo africano, como Angola e Moçambique. O termo era utilizado pelos colonizadores para ridicularizar a fala das populações negras que misturavam o português com línguas locais. O primeiro registro literário da palavra aparece na obra João Vêncio, do angolano José Luandino Vieira, publicada em 1979, descrevendo esse linguajar híbrido como marca de uma identidade forjada entre dois mundos. O que nasceu como insulto para marcar uma suposta inferioridade intelectual acabou atravessando o Atlântico e ganhando um novo sentido.

LÉLIA GONZALEZ

Coube à antropóloga e ativista brasileira Lélia Gonzalez (1935–1994) a tarefa de ressignificar o termo a partir da década de 1970, transformando o estigma em conceito de análise e resistência. Em seus ensaios fundamentais - especialmente Racismo e sexismo na cultura brasileira (1980) e A categoria político-cultural de amefricanidade (1988) - Gonzalez defendeu que a cultura brasileira é profundamente marcada pela herança africana e que essa marca é visível na língua. "A cultura brasileira é uma cultura negra por excelência. Nosso português não é português, é pretuguês, com todo um acento de quimbundo, de ambundo, enfim das línguas africanas", disse Lélia em entrevista registrada no livro Por um feminismo afro-latino-americano.

Ela também apontava a ironia de que as elites brancas ridicularizavam quem dizia "Framengo" sem perceber que estavam, elas mesmas, usando formas linguísticas de origem africana. "É engraçado como eles gozam a gente quando a gente diz que é Framengo. Chamam a gente de ignorante, dizendo que a gente fala errado. E de repente ignoram que a presença desse R no lugar do L nada mais é que a marca linguística de um idioma africano, no qual o L inexiste", escreveu.

O conceito também foi desenvolvido por outras vozes. A linguista angolana Amélia Mingas chegou a formulações semelhantes a partir do contexto africano, o que indica que o reconhecimento dessa marca linguística não foi apenas um olhar brasileiro sobre si mesmo, mas uma percepção compartilhada dos dois lados do Atlântico.

BANTO

Para entender parte dessa influência, é preciso conhecer a existência das línguas bantas, família linguística que reúne mais de quinhentas variantes no continente africano. A etnolinguista baiana Yeda Pessoa de Castro - doutora em Línguas Africanas pela Universidade Nacional do Zaire, membro da Academia de Letras da Bahia e professora aposentada da UFBA - estima que, do século XVI ao XIX, o tráfico transatlântico trouxe para o Brasil entre 3 e 5 milhões de africanos escravizados, oriundos em grande parte de regiões de língua banta.

Em seu livro Camões com Dendê, Yeda analisa as matrizes linguísticas africanas e sua influência no português brasileiro, sobretudo na Bahia, que recebeu contingente expressivo de pessoas escravizadas e incorporou ao vocabulário palavras trazidas de diversas regiões do continente. "Se nos orgulhamos de falar 'cantano', devemos agradecer ao gosto das línguas banto pelas vogais", resume a pesquisadora.

A professora Norma Lúcia Fernandes de Almeida, titular plena de Linguística da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), traz exemplos da abrangência do pretuguês: "No Brasil, independentemente da classe social do falante, ele, muito provavelmente, usará a palavra ‘caçula’ para se referir ao filho mais novo. Essa é uma palavra que veio de uma das línguas africanas que era falada por escravizados trazidos de forma forçada para o Brasil. Outro exemplo que posso citar como de uso geral é a não pronúncia do R dos verbos no infinitivo, como ‘cantá’ ao invés de ‘cantar’", explica.

LÓGICA PRÓPRIA

Ainda que parte dos pesquisadores atribua alguns fenômenos linguísticos do português brasileiro exclusivamente à presença africana, a sociolinguística contemporânea é cautelosa quanto a explicações monocausais. Então, é importante ressaltar que algumas “mutações” do idioma são documentadas em diversas variedades do português, incluindo variedades rurais europeias, e sua origem é debatida.

A redução de “você” para “cê” e de “está” para “tá”, por exemplo, é relacionada também a processos de enfraquecimento silábico presentes em múltiplas línguas, não apenas de origem africana. Já o chamado rotacismo - a troca do L pelo R em palavras como “Framengo” em vez de “Flamengo” -, descrito pelo linguista Marcos Bagno em Preconceito linguístico: o que é, como se faz (1999), é apontado por pesquisadores como Yeda Pessoa de Castro como marca exclusiva do contato com línguas bantas, nas quais o fonema L é ausente ou raro.

O plural marcado apenas no início do sintagma nominal - como em "os menino" e "as criança" - é estudado pela linguista Margarida Petter, da USP, entre outros, como possível traço de contato com línguas africanas, embora o debate sobre sua origem específica permaneça aberto na literatura acadêmica. A conclusão é de que o que une essas formas pode não ter uma causa única, mas certamente nasce de uma história compartilhada. "Falar sobre o pretuguês não é defender que as pessoas se expressem de forma diferente da norma padrão", explica o escritor e comunicador baiano Lucas de Matos. "É colocar uma luz sobre esses aspectos inegáveis da cultura africana que se entrelaçaram na língua portuguesa de tal maneira que vários estudiosos já se debruçam sobre isso."

Lucas de Matos
Lucas de Matos Crédito: Divulgação

LEI E SILÊNCIO

Historicamente, falar o português padrão foi associado ao prestígio das elites brancas e ao acesso ao poder. Durante o período colonial, dominar a língua do colonizador era requisito para alcançar reconhecimento social. Essa hierarquia foi tanto cultural quanto jurídica. Em 1757, o Marquês de Pombal instituiu o Diretório dos Índios, um conjunto de normas que proibia o uso das línguas indígenas nos aldeamentos coloniais, impondo o português como língua obrigatória. Embora o documento mirasse prioritariamente as línguas indígenas, pesquisadores do período colonial apontam que o projeto criou um ambiente hostil a todas as formas de fala não europeia, incluindo as línguas africanas usadas pelos escravizados.

O resultado foi uma perda linguística de dimensões difíceis de mensurar. O linguista Marcos Bagno, da Universidade de Brasília, foi um dos primeiros a sistematizar essa crítica no Brasil contemporâneo, argumentando que o chamado preconceito linguístico é uma das formas mais sutis de exclusão social. Em entrevista à revista Quatro Cinco Um, Bagno afirma: "Não existe preconceito linguístico, é preconceito social. E com o tempo, percebi que é racismo linguístico. O racismo é a espinha dorsal da sociedade brasileira."

RACISMO LINGUÍSTICO

O linguista Gabriel Nascimento, professor da Universidade Federal do Sul da Bahia e doutor em Letras pela USP, sistematizou essa análise de forma abrangente. Em Racismo linguístico: os subterrâneos da linguagem e do racismo (2019), Nascimento argumenta que a estigmatização das variantes linguísticas associadas a falantes negros é um mecanismo de dominação racial estrutural. Em artigo publicado na revista Língua Nostra, o pesquisador conecta o conceito político de Lélia Gonzalez à análise linguística contemporânea, escrevendo que "o pretuguês vem dessa resistência" e identificando uma contradição: a língua associada ao falante negro é consumida como estética - na música, na publicidade, na cultura pop - e simultaneamente rejeitada como marca de identidade em espaços de poder.

NORMA E DIREITO

Compreender o pretuguês não significa ignorar a norma culta, mas compreender cada lugar. "A dita norma culta é a norma derivada do português usado pelas classes dominantes mais escolarizadas", explica Norma Lúcia. "Se pensarmos historicamente, é a norma que tem como antecedente histórico o português europeu, com influências mais recentes do português popular, que, por sua vez, foi formado a partir de intensos contatos linguísticos entre o português, línguas indígenas, línguas africanas e outras línguas de imigrantes europeus”, explica.

O português padrão funciona, portanto, como código institucional para a comunicação em esferas de poder como tribunais, contratos, meios de comunicação. O próprio Marcos Bagno nunca descartou seu ensino nas escolas, ainda que conteste a ideia de que a norma representa a língua "certa" e que tudo o mais é "errado". Os Parâmetros Curriculares Nacionais do MEC, inclusive, já reconhecem, desde 1997, que o estudante deve ter consciência de que seu modo de falar em casa é legítimo, mas que a escrita formal exige registro diferente.

Norma Lúcia aponta a tensão que esse objetivo carrega na prática: "A escola tem como um dos objetivos tornar o estudante um falante que possa usar diferentes variedades de sua língua materna, inclusive a chamada variedade culta, sem deixar de usar o seu vernáculo. Esse trabalho não é fácil, porque corremos o risco de sermos hipócritas nesse processo, já que, na verdade, há hierarquias entre essas variedades, não hierarquias linguísticas, mas sociais."

Norma Lúcia
Norma Lúcia Crédito: Divulgação

BAIANÊS

“Baianês” e pretuguês são coisas diferentes, embora ambos se misturem no cotidiano. Enquanto o pretuguês se refere ao conjunto de marcas linguísticas associadas à presença africana no português brasileiro - fenômeno documentado em diferentes regiões do país -, o baianês é um conjunto de traços dialetais regionais que nasce do encontro entre essa herança, a história local e a criatividade particular do povo baiano. O “baianês” é composto também por expressões, gírias e formas de entonação que variam conforme a cidade, o bairro e o grupo social.

No “baianês”, não muda apenas a pronúncia, mas também a cadência, o ritmo da frase, a forma de construir humor e afeto na linguagem. O escritor e comunicador Lucas de Matos faz dessa distinção matéria-prima literária. O título do seu primeiro livro sintetiza o argumento: "É 'Preto Ozado', não com o U de ousadia, mas com o O aberto, grafado da maneira como a gente fala na Bahia. Quis trazer isso logo no título para enfatizar a importância dessa fala que é do povo, que é cotidiana, e que não é uma fala equivocada. Ela se faz compreensível, ela traz o conceito, ela traz uma ideia”, afirma o autor.

O SAGRADO

Na Bahia, a língua litúrgica utilizada nos terreiros de candomblé preservou elementos do iorubá e de línguas bantas em contexto ritual, funcionando como um dos poucos espaços de transmissão formal dessas línguas no Brasil. Termos como “axé”, “orixá” e “ebó” - de origem iorubá - foram integrados ao falar cotidiano das ruas, criando uma circulação entre o sagrado e o ordinário. A culinária baiana preserva esse mesmo vocabulário: “acarajé”, “vatapá”, “dendê” e “abará”, entre outros, são termos de origem iorubá e banta que resistiram à pressão do apagamento cultural.

FUTURO PLURAL

O reconhecimento do pretuguês como conceito legítimo de análise cultural avança, mas não sem alguma tensão. Pesquisadores denunciam que o prestígio acadêmico conferido à escrita em detrimento da oralidade gerou silenciamentos históricos. O debate sobre onde termina a influência africana e começa a variação interna do português - ou a influência indígena, ou a do imigrante europeu - também permanece aberto e produtivo. A professora Norma Lúcia resume bem o que está em jogo: "É importante que a discussão sobre língua e poder possa ser feita nas salas de aula e nas mídias, contribuindo para o enriquecimento linguístico, a autonomia dos estudantes e a mudança na visão que a sociedade tem sobre as variedades populares da língua, evidenciando que o diferente nos torna mais ricos linguisticamente, e não pobres, como dizem os que advogam a favor de uma língua pura", conclui.

Lucas de Matos aponta uma contradição contemporânea que completa esse argumento: "Se a gente se orgulha tanto de falar os estrangeirismos norte-americanos ou europeus, é muito bom que a gente se aproprie também dessa porção africana no nosso falar."

GLOSSÁRIO

Axé - De origem iorubá. Energia vital no candomblé, saudação e expressão de desejo de realização.

Bunda - De origem banta. Designa o quadril ou as nádegas. Uma das palavras mais citadas por pesquisadores como exemplo da africanização invisível do português.

Caçula - Do quimbundo (língua banta de Angola). Designa o filho mais novo. Substituiu amplamente o termo "benjamim", de origem europeia, no uso popular brasileiro.

Dengo - Do quicongo (língua banta falada no norte de Angola e no baixo Congo). Designa mimo, carinho, apelo ao aconchego.

Framengo - Forma popular de "Flamengo". Exemplifica o rotacismo - troca de L por R - fenômeno presente em línguas bantas nas quais o fonema L é ausente ou raro.

Moleque - Do quimbundo mu'leke (criança, menino). Usado hoje com afeto ou ironia, dependendo do contexto.

Os menino - Construção em que o plural é marcado apenas no artigo inicial do sintagma. Estudada como possível traço de contato com línguas africanas.

Oxente - Provável corruptela de "ó gente". Exclamação de surpresa ou indignação, característica do falar nordestino e baiano. Origem interna ao português, com entonação e uso regionalizados.

Quitanda - Do quimbundo. Pequeno comércio de alimentos, especialmente frutas e legumes. Termo consolidado no vocabulário popular brasileiro.

Tá e Cê - Reduções fonéticas de “está” e “você”. Fenômenos de enfraquecimento silábico documentados na sociolinguística brasileira, associados por alguns pesquisadores à influência africana no ritmo do português, embora presentes também em outras variedades da língua.

Por @flaviaazevedoalmeida