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Aumenta número de baianos que desautorizam transplantes

Pesquisa mostra que houve um crescimento de 8% na recusa à doação no estado em 2026

  • Foto do(a) author(a) Lucas Pereira
  • Lucas Pereira

Publicado em 11 de setembro de 2026 às 06:00

Falta de consenso entre familiares e audência de declaração do doador estão entre os fatores para a negativa
Falta de consenso entre familiares e audência de declaração do doador estão entre os fatores para a negativa Crédito: Shutterstock

O cenário da doação de órgãos na Bahia vive um momento complicado, em 2026, devido ao aumento nos casos de recusa familiar, conforme dados da Secretaria Estadual de Saúde (Sesab). Em comparação com os primeiros sete meses de 2025, houve um crescimento de 8% na recusa. Foram datados 59% de casos contra 67% registrados atualmente, com pico de 72% de negativas em abril (39 recusas em 54 entrevistas).

Entre as principais causas para duas em cada três famílias decidirem não doar órgãos e tecidos estão a falta de consenso entre os parentes do doador e a falta de manifestação prévia do doador em vida. O levantamento foi divulgado na edição preliminar do Registro Baiano de Transplantes 2026, publicado pela Central Estadual de Transplantes (CET-Ba).

Para a médica Juliana Caldas, coordenadora da Equipe Hospitalar de Doação para Transplantes (e-DOT) do Hospital São Rafael, a principal questão é o desconhecimento sobre o tema. “Nunca vou acreditar que o povo baiano ficou mais duro. Acho que é falta de informação, de entender o processo, como que ele funciona. Acho até mesmo que seja da desconfiança”, aponta.

Segundo a profissional, além da doação de órgãos ter perdido espaço no debate público, o tabu ligado à morte é outro elemento fundamental para a dificuldade em se conseguir adesão às doações. “Boa parte das famílias que a gente fala é pega de surpresa. Parece que falar da morte atrai a morte. Então, a gente não fala sobre a morte, mesmo ela sendo uma certeza”, pondera a médica.

Vidas que salvam vidas

Os dados mais recentes do Ministério da Saúde apontam que mais de 37 mil pessoas no Brasil inteiro aguardam por um transplante de córnea, Na Bahia, são quase 2 mil pessoas na fila. Já o número de baianos esperando por outros órgãos é de 2.790, o que coloca o estado em terceiro lugar no ranking nacional da fila de espera, atrás de São Paulo (23,6 mil pessoas) e Minas Gerais (4,4 mil).

Dos quase 50 mil brasileiros que aguardam uma doação de órgãos (que não córnea), quase 46 mil precisam de rim, outros 2,4 mil de fígado e 514 esperam por um novo coração. Pessoas como a auxiliar administrativa Keyla Dourado, que se agarram à esperança de alcançar uma nova vida proporcionada pela solidariedade de outra pessoa.

Aos 40 anos, a baiana de Ibititá viu a vida mudar em 2021, após ser diagnosticada com a doença da anti-membrana basal glomerular, patologia autoimune que atingiu os rins da Keyla. “Fiquei uns 15 dias na UTI, fiz biópsia, e aí soube que só o transplante me ajudaria”, revela. Enquanto não surgia um órgão compatível, a moradora de Salvador precisou realizar hemodiálise três vezes na semana durante quatro anos seguidos.

Ela conta ainda que chegou a ser chamada para testar a compatibilidade com o órgão de um doador morto, mas não aconteceu. Em 2025, após seu meio-irmão testar positivo e se prontificar para doar um dos rins, Keyla, finalmente, foi transplantada.

“A doação de órgãos gera vida, gente! Hoje, levo minha vida normalmente. Trabalho, viajo, tomo minhas medicações... Só em não estar na máquina (de diálise) durante 4 horas, três vezes na semana, pelo menos, me permite ter uma qualidade de vida muito melhor”, diz.

Conscientização

Para a médica Juliana Caldas, a fila de espera por um órgão é conduzida por uma conta que não fecha, afinal, não existe transplante sem doador. Para além de um ato de empatia, de se colocar no lugar de alguém que precisa, segundo ela, a pergunta que deveria conduzir as discussões é “por que não doar?”.

“Existem muitos tabus. Mas o corpo fica íntegro, é imperceptível a retirada. Qualquer funeral, qualquer evento pode ser realizado depois. Então, a doação de órgãos não impede que a pessoa e os familiares tenham o seu rito de passagem”, garante.

A médica ainda aponta para um outro elemento que acaba reforçando a rejeição por parte da família em autorizar a doação: “a pressa em resolver tudo”. “A minha impressão é como se a família quisesse sair daquele redemoinho que está vivendo e fazer o tempo passar muito depressa”, avalia.

Uma vez autorizada a doação, é preciso cumprir alguns protocolos para a captação do órgão/tecido, como as testagens sorológicas e a verificação de compatibilidade com algum paciente da fila, antes mesmo da operação de coleta. São processos que levam, em média, 24 horas, mas que acabam passando disso em alguns casos, fazendo com que muitas famílias optem por não esperar.

Como o melhor remédio é a conscientização e a conversa entre as famílias, a especialista aponta que a pessoa que quer ser um doador de órgãos no futuro precisa falar sobre isso com seus familiares, pois são eles quem autorizam ou não a doação. Ou seja, mesmo que a pessoa queira, se a família não liberar, a doação não acontece. Vale lembrar que a doação de órgãos ocorre em casos em que há o diagnóstico de morte encefálica ou após uma parada cardiorrespiratória.

Neste mês, ocorre a campanha Setembro Verde, voltada à conscientização e incentivo à doação de órgãos e tecidos no país.