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Perla Ribeiro
Publicado em 3 de setembro de 2026 às 06:00
Um fenômeno climático que começa a milhares de quilômetros do Brasil pode chegar à mesa dos consumidores na forma de alimentos mais caros. O El Niño, provocado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, altera o regime de chuvas e as temperaturas e pode afetar desde a produção de café, frutas e verduras até a criação de animais. >
O fenômeno deve permanecer pelo menos até o início de 2027. Modelos analisados por órgãos brasileiros apontam alta probabilidade de que o El Niño alcance intensidade muito forte entre a primavera e o começo do verão, potencializando os efeitos já conhecidos no país.>
Curiosidades sobre o clima de Salvador
Segundo a geógrafa e professora da Estácio Débora Rodrigues, um El Niño muito intenso pode trazer seca severa e maior risco de incêndios no Norte e no Nordeste, calor intenso no Sudeste e chuvas mais fortes no Sul. Os impactos não ficam restritos ao clima. “Quando o clima muda, não é apenas a previsão do tempo que muda. Mudam o preço dos alimentos, a disponibilidade de água, a qualidade do ar, a produção no campo e até a rotina das cidades”, explica Luana Romero, especialista em sustentabilidade e presidente do Instituto Ideias.>
Por que o El Niño pode deixar a comida mais cara?>
A primeira parte do impacto acontece no campo. Falta ou excesso de chuva podem reduzir a produção, comprometer a qualidade dos alimentos e aumentar os custos dos produtores, que precisam gastar mais com irrigação, controle de doenças e recuperação das lavouras.>
No Norte, Nordeste e em partes do Centro-Oeste e Sudeste, a redução das chuvas pode prejudicar culturas que dependem da umidade do solo. No Sul, o cenário pode ser inverso: excesso de chuva, solo encharcado e dificuldade para plantar ou colher. Frutas, verduras e legumes tendem a sentir os efeitos mais rapidamente. Mas a consequência pode se espalhar para grãos, leite e carnes.>
Isso acontece porque a produção está interligada. Se milho e soja ficam mais caros, por exemplo, aumenta o custo da ração usada na criação de aves, suínos e bovinos. O resultado pode aparecer posteriormente no preço das carnes, ovos e outros produtos. Algumas projeções divulgadas por instituições financeiras trabalham com cenários de alta de 15% a 20% nos preços dos alimentos mais afetados. Esse percentual, porém, não significa que toda a comida ficará 15% ou 20% mais cara. Trata-se de uma estimativa para os produtos que sofrerem impactos mais fortes caso ocorram perdas relevantes na produção.>
“Os alimentos percorrem um longo caminho antes de chegar à nossa mesa. Se a lavoura produz menos, se uma estrada é interrompida pela chuva ou se um rio deixa de ser navegável por causa da seca, toda essa cadeia fica mais cara”, afirma Luana.>
Quem ganha menos pode sentir mais>
Uma eventual alta dos alimentos não pesa igualmente sobre todas as famílias. Para quem tem renda mais baixa, a alimentação representa uma parcela maior do orçamento. Quando os preços sobem, pode sobrar menos dinheiro para despesas como aluguel, transporte, energia e medicamentos.>
“Uma família com mais recursos consegue absorver parte da alta ou substituir produtos. Para quem já vive com o orçamento apertado, qualquer aumento pode comprometer o acesso a uma alimentação adequada e pesar ainda mais nas demais despesas essenciais”, alerta a especialista.>
O problema também pode chegar às cidades>
Os efeitos do El Niño vão além do supermercado. Períodos de seca podem reduzir o nível de rios e reservatórios, afetar o abastecimento de água, prejudicar a geração de energia e aumentar o risco de incêndios. A fumaça das queimadas, por sua vez, piora a qualidade do ar e pode agravar problemas respiratórios. Com a vegetação mais seca, o fogo também tende a se espalhar com maior velocidade.>
No Sul, o excesso de chuva pode provocar inundações, enxurradas e deslizamentos. E uma região que passou por um longo período de estiagem também pode enfrentar temporais. Segundo a geógrafa Débora Rodrigues, depois de semanas de tempo seco, o solo pode ficar ressecado, compactado e com menor capacidade de absorver a água.>
“Quando uma chuva muito intensa ocorre após um período prolongado de estiagem, grande parte da água escoa pela superfície, favorecendo alagamentos e enxurradas. Nas encostas, a água pode penetrar pelas rachaduras do solo e aumentar sua instabilidade, contribuindo para a ocorrência de deslizamentos”, explica.>
O que pode ser feito para reduzir os impactos?>
A prevenção envolve governos, empresas e população. O poder público pode monitorar rios e reservatórios, fortalecer a Defesa Civil, apoiar produtores rurais e ampliar ações de prevenção contra incêndios, enchentes e deslizamentos. Empresas e consumidores também podem ajudar com medidas como economia de água, descarte correto de resíduos e cuidado para evitar práticas que possam provocar queimadas.>