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Wendel de Novais
Publicado em 17 de julho de 2026 às 05:07
Aos 23 anos, Kelly Sales Silva já era uma das figuras mais conhecidas da periferia de Salvador. Não era cantora, atriz ou personalidade da televisão, mas carregava uma fama que ultrapassava os limites dos bairros onde circulava. Todos sabiam quem era Kelly Cyclone. A jovem tatuada de roupas da marca que inspirou seu apelido e cercada por histórias de envolvimento com traficantes. >
A mesma imagem que ajudou a construir sua popularidade também marcou sua trajetória até o fim. Na madrugada de 18 de julho de 2011, após deixar o Salvador Fest, uma das maiores festas de pagode da Bahia, Kelly foi encontrada morta no centro de Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador. O corpo apresentava marcas de tiros e uma facada. >
O assassinato mobilizou familiares, fãs e moradores de diferentes regiões da capital baiana. O enterro reuniu uma multidão, comunidades foram criadas na internet em homenagem à jovem e vídeos com imagens dela passaram a circular em uma velocidade que, para a época, impressionava. Quinze anos depois, o crime permanece sem solução.>
Kelly Cyclone ficou conhecida como 'Dama do Pó'
Festa e desaparecimento >
Em julho de 2011, Kelly Cyclone já era uma figura conhecida muito além dos limites de Lauro de Freitas. Sua presença em festas de pagode atraía olhares, e sua imagem havia se transformado em uma espécie de símbolo para parte dos jovens das periferias de Salvador. No dia 17 de julho, ela foi ao Salvador Fest, evento que reunia grandes atrações do pagode baiano e milhares de pessoas no Wet’n Wild, em Salvador. >
A festa seria sua última aparição pública. Segundo familiares, Kelly passou mal durante o evento e decidiu ir embora antes do fim. Na saída, entrou em um carro conduzido por Carlos Gustavo Cohen Alencar Braga, conhecido como Gustavinho, filho de um policial civil. Horas depois, ela estaria morta. >
O corpo da jovem foi encontrado na madrugada do dia 18 de julho, no centro de Lauro de Freitas. Ela vestia um short jeans e uma camisa da Seleção Argentina, uma das suas preferidas. A peça, que costumava usar com frequência, também fazia parte da imagem que ajudou a construir ao longo dos anos. >
A perícia identificou marcas de violência. Kelly havia sido atingida por tiros e também apresentava sinais de uma facada antes dos disparos. A morte encerrou uma trajetória marcada por exposição pública, mas abriu uma das investigações mais controversas da história recente da violência na Região Metropolitana de Salvador. >
Primeiras suspeitas >
Poucas horas após o assassinato, a polícia passou a investigar as circunstâncias da última noite de Kelly. Gustavinho, que estava com ela antes da morte, prestou depoimento na 23ª Delegacia, em Lauro de Freitas. Ele afirmou que havia conhecido Kelly havia poucos dias e que os dois eram apenas amigos. >
Segundo a versão apresentada pelo suspeito, ele teria ido ao Salvador Fest acompanhado da jovem, da irmã dela, Carla, e de outras duas amigas. Depois do evento, Kelly teria decidido seguir com ele até Itinga. No caminho, o grupo teria parado em um McDonald’s de Lauro de Freitas e, posteriormente, buscado um amigo identificado como Iago. >
A versão contada por Gustavinho indicava que, já durante a madrugada, o veículo onde eles estavam teria sido interceptado por um carro modelo Focus prata. Dois homens armados teriam rendido os ocupantes. Kelly teria saído correndo do carro e sido atingida por dois tiros disparados por uma terceira pessoa que estaria no outro veículo. >
Os supostos criminosos fugiram. A narrativa, porém, não convenceu completamente os investigadores nem a família da vítima. Parentes de Kelly afirmavam que ela havia recebido uma ligação de Gustavinho durante o Salvador Fest e que teria sido chamada para encontrá-lo. A irmã chegou a pedir que ela não fosse, mas Kelly teria respondido que voltaria rapidamente. Ela nunca voltou.>
Enterro de Kelly reuniu multidão
Suspeitos e contradições >
Com o avanço das investigações, diferentes hipóteses surgiram para explicar a morte de Kelly Cyclone. Uma das linhas trabalhadas pela polícia apontava para uma motivação passional. Gustavinho passou a ser considerado um dos principais suspeitos, principalmente pela proximidade com Kelly na noite do crime e por relatos de que ele teria demonstrado interesse em manter um relacionamento com ela. >
Ele negou envolvimento. Outra linha investigativa relacionava o assassinato à disputa entre grupos ligados ao tráfico de drogas em Lauro de Freitas. Kelly tinha histórico de relacionamentos com homens apontados pela polícia como ligados ao comércio ilegal de entorpecentes. >
Entre eles estava Tayson Rogério, conhecido como Tonny, que, mesmo preso na época, continuaria exercendo influência sobre pontos de venda de drogas, segundo a investigação. A polícia também passou a analisar a possibilidade de uma execução encomendada por rivais. >
O nome de Wellington Nunes, conhecido como Mão, apontado como liderança criminosa na região de Lauro de Freitas, apareceu entre as suspeitas. A hipótese era de que o crime pudesse estar relacionado à disputa pelo controle de áreas dominadas pelo tráfico. Durante semanas, o assassinato de Kelly permaneceu sem uma resposta definitiva. >
Repercussão imediata >
Nas ruas de Salvador, o assunto dominava conversas em escolas, bares, pontos de ônibus e festas. A jovem que havia se tornado conhecida por sua personalidade controversa agora era lembrada em homenagens. No antigo Orkut, mais de 600 comunidades foram criadas após sua morte. Milhares de usuários publicavam mensagens de despedida e compartilhavam fotos da jovem. >
No YouTube, vídeos relacionados a Kelly passaram a receber milhares de acessos. Um dos materiais publicados logo após o assassinato alcançou dezenas de milhares de visualizações em poucos dias. A dimensão da repercussão chamou atenção porque acontecia em uma época em que as redes sociais ainda estavam em processo de consolidação no Brasil. >
Para especialistas, o fenômeno estava relacionado ao papel simbólico que Kelly ocupava dentro de determinados grupos sociais. Para estes, copiar roupas, gírias e atitudes de pessoas vistas como referências era uma forma de pertencimento. >
Kelly foi homenageada nas redes sociais
Multidão no enterro >
No dia 19 de julho de 2011, uma multidão acompanhou a despedida no Cemitério de Portão, em Lauro de Freitas. Familiares tiveram dificuldades para realizar a cerimônia diante da quantidade de pessoas que tentavam entrar na capela. Muitos carregavam celulares e câmeras para registrar o momento. >
A movimentação chamou atenção da polícia. Equipes da Rondesp foram ao local para realizar abordagens e verificar a presença de pessoas procuradas ou armadas, já que Kelly era conhecida pela proximidade com integrantes do mundo do crime. Durante o tumulto, familiares chegaram a pedir respeito aos visitantes. >
“Isso não é uma festa. O corpo vai passar por vocês e todos vão se despedir”, disse Carla Silva, irmã da jovem, tentando organizar a despedida. Sob chuva forte, o caixão deixou a capela no fim da tarde. As homenagens continuaram durante o sepultamento, com aplausos, orações e músicas. >
O encerramento ficou por conta de fãs que cantaram “Cyclone”, música da banda A Bronkka que havia se tornado uma espécie de trilha sonora da personagem criada por Kelly. >
Vazamento no IML >
Poucos dias depois do assassinato, a família de Kelly enfrentou uma nova dor. Um vídeo gravado dentro do Instituto Médico-Legal Nina Rodrigues, em Salvador, mostrando o corpo da jovem antes da necropsia, foi publicado na internet. As imagens, com duração de quase dois minutos, exibiam detalhes do corpo de Kelly, incluindo ferimentos e tatuagens. >
A divulgação provocou revolta entre os familiares e levou a Secretaria da Segurança Pública da Bahia a determinar uma investigação interna. O órgão classificou o episódio como uma violação grave e afirmou que o responsável poderia responder pelo crime de vilipêndio de cadáver. A mãe de Kelly, Maria Aparecida da Silva, afirmou que pretendia processar o Estado pelo vazamento. >
“Ela não teve paz em vida e não estão deixando ter nem depois de morte”, declarou. A sindicância aberta pelo Departamento de Polícia Técnica apontou posteriormente dois servidores como responsáveis por filmar o corpo, mas o caso também aumentou a sensação de injustiça entre familiares. >
Investigação final >
Quase dois meses após a morte de Kelly Sales Silva, a investigação ainda não havia chegado a uma resposta definitiva. O caso seguia cercado por versões conflitantes, suspeitas envolvendo antigos relacionamentos e a possibilidade de uma execução ligada à disputa entre grupos criminosos. >
Em setembro de 2011, a polícia passou a trabalhar com a hipótese de que três ex-namorados de Kelly poderiam estar envolvidos no planejamento do assassinato. Segundo investigadores, o crime poderia ter sido motivado por questões passionais e também pelo temor de que informações relacionadas ao tráfico fossem reveladas. >
Entre os nomes analisados estava Carlos Gustavo Cohen Alencar Braga, o Gustavinho, que havia acompanhado Kelly na noite do crime e desde o início ocupava posição de destaque entre os suspeitos. >
Ele voltou a ser ouvido pela polícia e manteve a mesma versão apresentada no primeiro depoimento: afirmou que o carro em que estava com Kelly havia sido interceptado por homens armados e que a jovem teria sido morta durante a abordagem. A defesa sustentava a inocência dele. >
Outro nome citado durante as investigações foi o de Tayson Rogério, conhecido como Tonny, apontado pela polícia como um dos homens ligados ao tráfico de drogas na região de Lauro de Freitas e que teria mantido relacionamento com Kelly. >
Também apareceu na apuração o nome de Wellington Nunes, o Mão, suspeito de comandar um grupo criminoso nas localidades de Casinhas e Boca do Vulcão. A polícia acreditava que o assassinato poderia ter relação com a disputa pelo controle de pontos de venda de drogas entre grupos rivais. >
Morte de adolescente >
Dias depois, a investigação ganhou um novo capítulo após uma operação da Polícia Militar em Lauro de Freitas. Um adolescente de 15 anos, identificado pelo prenome Edmilson e conhecido como Kinho, foi morto durante uma ação da Rondesp. Segundo a polícia, ele faria parte do grupo comandado por Mão, um dos suspeitos investigados pela morte de Kelly. >
De acordo com os investigadores, o adolescente teria sido recrutado ainda jovem para atuar como olheiro do tráfico e, posteriormente, teria assumido funções mais violentas dentro da organização. A polícia afirmou que ele era suspeito de envolvimento em diversos crimes na região, embora não tivesse registros oficiais de passagem pelo sistema de Justiça. >
A operação aumentou a pressão sobre o grupo apontado como possível responsável pela morte da jovem, mas não resultou em uma solução definitiva para o assassinato. >
Sem respostas >
Em 2012, o inquérito policial apontou os irmãos Emerson Cosme Anjos dos Santos, conhecido como Miminho, e Ericson Anjos dos Santos, o Véio, como autores do crime. Segundo a investigação, a execução teria sido encomendada por Tayson Rogério, o Tonny. >
A acusação sustentava que a morte estaria relacionada a disputas internas envolvendo grupos criminosos. O caso chegou à Justiça, mas a história teve uma reviravolta. Em 2016, os três acusados foram julgados e inocentados. Com a absolvição, nenhuma pessoa permaneceu presa ou cumprindo pena pelo assassinato de Kelly Sales Silva. >
O crime, oficialmente, continuou sem um responsável condenado. >