Acesse sua conta
Ainda não é assinante?
Ao continuar, você concorda com a nossa Política de Privacidade
ou
Entre com o Google
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Recuperar senha
Preencha o campo abaixo com seu email.

Já tem uma conta? Entre
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Dados não encontrados!
Você ainda não é nosso assinante!
Mas é facil resolver isso, clique abaixo e veja como fazer parte da comunidade Correio *
ASSINE

Quem tem fé(ijoada) vai a pé: Tradicional comida "abastece" fiéis durante Lavagem do Bonfim

Evento anual comemora 370 anos em 2024

  • Foto do(a) author(a) Brenda Viana
  • Brenda Viana

Publicado em 12 de janeiro de 2024 às 05:00

Feijoada tradicional no Bonfim
Feijoada tradicional no Bonfim Crédito: Brenda Viana / CORREIO

Para muitos, comer feijão às 7h da manhã não dá 'reggae' por ser muito pesado. Mas para aqueles que sempre estão em festas populares em Salvador, tomar uma milone (uma cachaça forte), bater o prato de feijão é de lei, parada obrigatória, principalmente carregado de farinha e algumas gotas de pimenta, com vinagrete, mesmo no calor de mais de 30°C.

Na Lavagem do Bonfim, que caiu na segunda quinta-feira de 2024, os fiéis bateram ponto entre a igreja da Conceição da Praia, no Comércio, até a Basílica do Senhor do Bonfim, na CBx para comemorar 270 anos do templo sagrado. Nesse meio tempo de fé, cerveja, caminhada e um sol para cada cabeça, algumas banquinhas com panelão de feijão são encontradas, seja na vista, ou no aroma das carnes que vão exalando por onde passa.

Esse é o caso de Ricardo Matos, de 45 anos, que todos os anos come o tradicional prato que tem feijão, diversas partes do porco, linguiça e farinha na Lavagem. O motorista, que levou a família para percorrer os 8km, comenta que é de extrema importância comer o alimento 'sagrado' na festa.

"É a sustância, né? Mas antes a gente tem que tomar uma para abrir o apetite. E estou com meu pai, e meu filho. Vinha com meu pai, comia o feijão, agora eu trago o meu filho para também se acostumar a comer. É de família", diz Ricardo, que tinha acabado de comer na barraca de Mylla.

Ricardo com a família para comer feijão no Bonfim
Ricardo com a família para comer feijão no Bonfim Crédito: Brenda Viana / CORREIO

Na rua Travesso de Fora, ao fundo da Basílica do Senhor do Bonfim, a personal trainer Myllena Abreu, 35, moradora da Ribeira, aproveita as festas de largo para obter um lucro a mais com comidas. Ela iniciou as vendas após passar por uma dificuldade financeira, que incentivou a ganhar dinheiro de forma rápida. Além da feijoada, ela também faz abará e sarapatel, prato bastante pedido entre os clientes que já o conhecem há 10 anos.

"Três dias antes eu compro, e estou sem dormir. Mas o importante é fazer com prazer, porque não tem palavras quando alguém elogia minha comida. Me inspira muito, e fico já querendo melhorar a cada ano. Com esse dinheiro, consigo pagar algumas contas por um tempo", explicou a educadora física, que vende o feijão por R$ 25 para uma pessoa, e até três pessoas por R$ 60 em prato de Nagé (de barro).

Mylla (de top colorido) e as clientes
Mylla (de top colorido) e as clientes Crédito: Brenda Viana / CORREIO

Andando mais um pouco, já próximo ao pé da ladeira do Bonfim, na rua Octávio Barreto, um carro branco estacionado vende feijoada de forma bem tímida, mas que às 10h a panela já estava praticamente vazia. O dono do veículo, Oseias Lacerda dos Santos, 45, que se intitula como "Urso", estacionou o carro na quarta-feira (10) para conseguir uma vaga sem a agonia para vender o feijão pela primeira vez.

Dono de um restaurante em Patamares, 'Urso' elogia que é a melhor comida da região, e estava vendendo o prato entre R$20 a R$ 40. "A gente já conseguiu vender umas 30 feijoadas, então devo ter arrecadado por volta de R$ 700. A gente veio correr atrás, ganhar um pouco a mais do que já ganhamos diariamente", explica.

Urso com o carro da feijoada
Urso com o carro da feijoada Crédito: Brenda Viana / CORREIO

Nesse meio tempo, entre uma barra e outra, uma chuva caiu para refrescar os fiéis que estavam desde Às 5h na porta da Igreja da Conceição da Praia. Para aqueles que não aguentava mais andar, e precisava recarregar a energia - e até a bateria social para não ficar de mau-humor -, na rua Duarte da Costa, em frente a Avenida Dendezeiros, Daiana Lima dos Santos, 32, colocava o feijão para esquentar e há 20 anos exala o cheiro por quem passava pelo local.

Cozinheira desde os 14 anos, ela fala com amor sobre fazer comidas diferentes, principalmente em festas de largo. "Eu faço com tanto gosto, que as pessoas comem o feijão, pedem o caldo para levar, e ainda voltam nos outros anos. Eu gosto muito de escutar os elogios", disse Daiana, que também vendia pirão de aipim (R$ 20), churrasquinho e acarajé - vendido a partir de R$ 10.

Daiana e família vendendo feijoada
Daiana e família vendendo feijoada Crédito: Brenda Viana / CORREIO

Dona Angela Cristina, de 75 anos, disse que comeu cuscuz reforçado em casa, com café preto e uma fruta, mas não aguentou subir a colina sagrada antes de comer um prato de feijão de Daiana. Com um copo de cerveja, a aposentada brincou que já estava em sua 15ª lata da bebida alcoólica, e iria "abastecer" o corpo com mais cerveja ao retornar para casa: "Um feijão bem gordo, uma cerveja gelada, um pedido de paz para o ano todo, e de noite minha novela. Está bom ou quer mais?", questionou.

Na barraca, a cozinheira levou a família inteira, com sobrinhas, Amanda Santana e Alessandra Fernandes, a mãe, Marialva romão, e a esposa, Ananda Reis. O lucro é dividido entre todas para não dar briga, e todo mundo sair ganhando, principalmente por todas saem de São Cristovão, do outro lado da capital. "Agora eu sou a minha própria patroa com minha mulher", brinca.

Barraca de feijoada da Daiana
Barraca de feijoada da Daiana Crédito: Brenda Viana / CORREIO

A reportagem do CORREIO andou mais um pouco, chegando até ao Hospital Irmã Dulce, no Largo de Roma. Descansando do sol 'pelando', o cantor Buja, vocalista da banda Timbalada, 39, que faz o percurso desde os 15, contou que também já é de praxe ele bater o prato de feijão após chegar na CBx, mas acaba fazendo a própria comida que faz sucesso entre os amigos de forma diferenciada.

"A minha acaba sendo a 'amendoada', que no lugar do feijão, eu coloco o amendoim. Eu não inventei a receita, só coloquei o nome mesmo. E por causa dessa feijoada, acabei entrando na Timbalada por causa de um amigo de Brown que comeu a comida, me viu cantar em uma festa, e mostrou ao Carlinhos", explica o cantor, que já faz parte do grupo desde 2017.

Buja, vocalista da Timbalada
Buja, vocalista da Timbalada Crédito: Brenda Viana / CORREIO

Até por volta das 14h desta quinta-feira (11), ainda dava para encontrar pouca feijoada, mas barracas com outras comidas também eram encontradas. A cabeleireira Jamile Pamela aproveitou a frente da casa da tia, dona Clarice dos Santos, moradora do Bonfim há 13 anos, para vender. Desde 2019 ela trabalha com comida, mas este ano, para Jamile, as vendas estavam mais fracas.

"Eu venho para cá vender caldo verde, caldo de camarão, mas não vendi nada até agora. Tem como de R$ 6 e copo de R$ 10, e aqui em anos anteriores, esse local não dava nem para passar direito, era um tapete branco", lamenta.

Jamile Pamela
Jamile Pamela Crédito: Brenda Viana / CORREIO