Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Wendel de Novais
Publicado em 8 de julho de 2026 às 08:01
A família acusada de manter uma mulher trabalhando por 55 anos sem receber salário é formada por aposentados e profissionais de diferentes áreas, entre eles um advogado, uma servidora pública, um médico veterinário e uma empregada pública. O grupo assinou um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho (MPT) após o resgate da trabalhadora, de 62 anos, em um condomínio de alto padrão no município de Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza. As informações são do g1.>
De acordo com o acordo firmado com o MPT, os empregadores se comprometeram a regularizar os recolhimentos previdenciários referentes ao período reconhecido, pagar R$ 50 mil em verbas rescisórias, adquirir um imóvel para a trabalhadora e iniciar imediatamente o pagamento de salário e indenização.>
Saiba quem é a família que manteve mulher trabalhando 55 anos sem salário
Conforme o TAC, os empregadores são Paulo Martins Brasil e Aurora Dalva Bastos de Alencar Brasil, ambos aposentados; o advogado Paulo Martins Brasil Filho; a servidora pública Zaamarah Alencar Brasil Andrade e o marido dela, o médico veterinário Tiago Silva Andrade; além de Nayarah Alencar Brasil Magalhães, empregada pública.>
Segundo a Auditoria-Fiscal do Trabalho, a mulher começou a viver com a família ainda na infância e permaneceu durante mais de cinco décadas exercendo atividades domésticas e cuidando das crianças da casa sem remuneração. A rotina começava diariamente por volta das 4h30, quando preparava o café da manhã da família e organizava a saída dos menores para a escola. Ao longo do restante do dia, realizava limpeza, preparo das refeições, organização da residência e seguia acompanhando as crianças.>
Durante a fiscalização, uma das empregadoras afirmou aos auditores que a trabalhadora "(Ela) Foi dada pela mãe". Conforme a coordenadora do Grupo Especial de Fiscalização Móvel para Erradicação do Trabalho Escravo Doméstico, Maria Neuzeli, a vítima viveu praticamente sem qualquer autonomia. Ela não sabe ler, nunca teve conta bancária, não mantinha contato com familiares, não possuía amizades fora da residência e jamais construiu uma vida afetiva.>
"Ela vivia em uma prisão induzida. Não sabe se locomover na cidade, tem medo da violência lá fora. Ela se sentia 'paga' pelos trabalhos porque recebia roupa, comida e moradia. Mas a rotina dela ficava em torno das crianças", afirmou a auditora. Ela também revelou que a vítima nunca teve vida pessoal. "Ela relatou que, nos idos de 1980, uma pessoa se aproximou dela, mas a família [exploradora] expulsou. Ela não tinha amizades no prédio, nunca foi à praia sozinha, por exemplo. Nunca teve vida pessoal.">
O caso veio à tona após uma denúncia anônima feita ao Disque 100. Embora tenha sido resgatada, a mulher continuará temporariamente na residência enquanto recebe acompanhamento da equipe psicossocial. Segundo a Auditoria-Fiscal do Trabalho, a decisão busca preservar a integridade física e emocional da vítima, que desenvolveu uma relação de dependência ao longo de décadas. Paralelamente, ela passará por um processo de escolarização e de reinserção social para reconstruir sua autonomia.>