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Perla Ribeiro
Publicado em 17 de agosto de 2026 às 17:04
A possibilidade de pagar o aluguel com desconto direto no salário pode representar uma alternativa para trabalhadores que precisam organizar as despesas com moradia. Mas a proposta do chamado “aluguel consignado”, aprovada pela Câmara dos Deputados, também levanta uma preocupação: quanto do salário pode acabar comprometido quando essa nova modalidade se soma a outras dívidas? >
Pela proposta aprovada, empregados da iniciativa privada, servidores públicos, aposentados e pensionistas poderão utilizar parte do salário ou benefício para garantir o pagamento do aluguel, com desconto de até 30% da remuneração. O texto ainda será analisado pelo Senado e, caso seja aprovado, dependerá de sanção presidencial para entrar em vigor.>
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A medida se juntaria a outras modalidades de crédito consignado já disponíveis, como empréstimos tradicionais e o Crédito do Trabalhador. Para especialistas, o principal cuidado não está necessariamente em uma modalidade específica, mas na soma de todos os compromissos que saem, direta ou indiretamente, da renda mensal.>
“O grande risco não está em uma modalidade específica de consignado, mas na soma delas. O trabalhador pode olhar para cada parcela isoladamente e considerar que ela cabe no orçamento, mas, quando reúne empréstimos, aluguel, cartão de crédito e outras obrigações, percebe que uma parcela muito grande da renda já está comprometida”, explica Reinaldo Domingos, PhD em Educação Financeira e presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (ABEFIN).>
O perigo de olhar apenas para o valor da parcela>
A facilidade de contratação pode criar uma falsa sensação de que ainda existe espaço no orçamento. Como parte dos pagamentos é descontada automaticamente, o impacto acumulado pode não ser percebido imediatamente. Uma pesquisa da ABEFIN em parceria com o Instituto Axxus de Pesquisas, ligado à Unicamp, ajuda a dimensionar o problema. Entre trabalhadores que contrataram o Crédito do Trabalhador, 83% disseram não saber quanto pagam de juros, enquanto 69% não avaliaram o impacto da contratação no orçamento familiar. Além disso, 36% utilizaram o crédito para quitar outras dívidas.>
Para Reinaldo, esses dados mostram que analisar somente o valor da parcela pode ser enganoso. O que importa é saber quanto da renda já está comprometido e quanto efetivamente permanece disponível para despesas, imprevistos, poupança e projetos. “Crédito não aumenta renda. Ele antecipa o uso de uma renda que ainda será recebida”, afirma.>
Aluguel não é uma dívida qualquer>
O aluguel exige atenção especial porque, diferentemente de uma compra pontual, representa uma despesa recorrente e de longo prazo. Se o valor for somado a empréstimos consignados, cartão de crédito, financiamentos e outras obrigações, o trabalhador pode ficar com uma margem financeira pequena demais para lidar com situações inesperadas, como uma redução de renda ou uma despesa médica.>
“O aluguel não pode ser analisado apenas como mais uma parcela. É uma despesa permanente. Se ela for somada a empréstimos consignados, cartão de crédito, financiamento e outras dívidas, o trabalhador pode chegar a um nível de comprometimento em que qualquer imprevisto provoca um desequilíbrio”, alerta o especialista.>
Mais crédito pode significar menos dinheiro livre>
À medida que aumentam as possibilidades de vincular compromissos diretamente à remuneração, diminui a parcela do salário que o trabalhador consegue administrar livremente. O risco é entrar em um ciclo no qual uma nova dívida serve para resolver o problema provocado por uma dívida anterior. O levantamento da ABEFIN, por exemplo, mostra que mais de um terço dos entrevistados utilizou o Crédito do Trabalhador para quitar outros débitos.>
A substituição pode fazer sentido quando uma dívida mais cara é trocada por outra de menor custo e existe planejamento. O problema aparece quando apenas se troca uma dívida por outra sem resolver a origem do desequilíbrio financeiro. Por isso, antes de contratar, a recomendação é olhar para três pontos: custo total da operação, prazo e impacto sobre os demais objetivos financeiros da família. A pergunta, segundo Reinaldo, não deveria ser apenas “quanto cabe de parcela no meu salário?”, mas quanto da renda já está comprometido, quanto a nova operação custará ao final e o que deixará de caber no orçamento depois dela.>
A dívida também pode chegar ao trabalho>
O excesso de compromissos financeiros não necessariamente fica restrito à vida doméstica. Segundo Daniel Santos, consultor trabalhista da Confirp Contabilidade, o endividamento pode afetar também a relação do trabalhador com a empresa. Uma parcela significativa do salário já comprometida pode gerar estresse, insatisfação e pressão por aumento de remuneração, com possíveis reflexos em produtividade, absenteísmo, clima organizacional e turnover.>
Em alguns casos, a pressão financeira pode até influenciar decisões profissionais. O trabalhador pode considerar mudar de emprego para tentar aumentar a renda ou perder motivação ao perceber que grande parte do salário não está disponível. “Um funcionário que está excessivamente endividado pode buscar outro emprego para tentar melhorar a remuneração ou pode perder motivação porque percebe que boa parte do salário não está disponível”, afirma Daniel.>
Trocar o emprego para fugir das dívidas pode criar outro problema>
Outra possibilidade apontada pelos especialistas é que o trabalhador busque alternativas fora do emprego formal para tentar recuperar parte da renda disponível, inclusive atuando como pessoa jurídica ou no mercado informal. Isso, porém, não é uma consequência automática do consignado, mas pode ocorrer em situações de desequilíbrio financeiro.>
“Quando uma pessoa começa a tomar decisões profissionais exclusivamente para escapar dos descontos ou das dívidas, estamos diante de um sinal de descontrole financeiro”, alerta Reinaldo. Segundo ele, trocar o emprego formal por uma atividade informal ou como PJ pode produzir uma sensação imediata de maior renda, mas também significa abrir mão de previdência, proteção social e planejamento de longo prazo.>
A proposta ainda não virou regra>
O aluguel consignado ainda depende da análise do Senado e de eventual sanção presidencial. Independentemente do resultado da tramitação, especialistas afirmam que a discussão expõe uma questão mais ampla: o trabalhador tem acesso a cada vez mais formas de comprometer a própria renda, mas nem sempre dispõe das informações necessárias para avaliar o impacto conjunto dessas escolhas.>
Isso não significa que o crédito consignado seja necessariamente prejudicial. Ele pode ser útil em determinadas situações e até permitir a substituição de uma dívida mais cara por outra mais barata. O problema está na contratação sem planejamento, sem conhecer o custo total e sem considerar as obrigações que já existem.>
“Educação financeira é justamente aprender a enxergar o conjunto e não apenas a parcela que aparece na tela ou no contracheque”, resume Reinaldo. Para as empresas, o desafio também passa pelo acompanhamento correto dos descontos e pela conscientização dos funcionários. Segundo Daniel, quanto maior a pressão financeira sobre o trabalhador, maiores podem ser os reflexos no ambiente corporativo.>
No fim, a pergunta mais importante diante de qualquer nova modalidade de crédito não é quanto do salário é possível comprometer, mas quanto continuará disponível depois que todas as contas forem pagas. Esse valor é que determina a margem para viver, enfrentar imprevistos e manter planos de longo prazo.>