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Perla Ribeiro
Publicado em 14 de maio de 2026 às 17:18
Lara Gabriela Noé Diniz Vláxio e Maria Eduarda Ramos, mais conhecida como Duda, colecionavam coincidências. Tinham 17 anos, nasceram em Rondônia, desde cedo tiveram que enfrentar o peso do diagnóstico de uma leucemia e aprender a conviver com a rotina fria dos hospitais. Foi durante o tratamento contra o câncer que as duas se conheceram. Entre internações, exames e sessões de quimioterapia, nasceu uma amizade costurada pela dor, mas também pela esperança. E quis a vida que elas partissem quase juntas. Lara e Duda morreram nessa segunda-feira (11), com cerca de uma hora de diferença, após anos de tratamento, recaídas e fios de esperança.>
A amizade entre Lara Gabriela e Maria Eduarda nasceu justamente na ala oncológica. Elas compartilharam medos, agulhas, enjoos, noites difíceis e também sonhos. Pessoas próximas contam que as duas imaginavam o dia em que caminhariam juntas pelos corredores do hospital sem precisar carregar exames ou voltar para uma sessão de quimioterapia. Depois das mortes, uma das homenagens mais compartilhadas nas redes sociais dizia: “Os planos de Deus foi que elas caminhassem juntas sim, mas de outra forma.”>
Amigas em tratamento contra a leucemia morrem no mesmo dia com 1 hora de diferença
Lara Gabriela estudava no 3º ano da Escola Estadual Major Guapindaia, em Porto Velho. Em 2021, aos 12 anos, recebeu o diagnóstico de leucemia linfoblástica aguda (LLA), um câncer na medula óssea. Vieram então os ciclos de quimioterapia, os exames constantes e os longos anos de tratamento. Em maio de 2024, depois de três anos de luta, comemorou o encerramento da última sessão de quimioterapia. >
No dia 25 de abril deste ano, Lara publicou um texto nas redes sociais contando que exames recentes haviam apresentado alterações. Ela explicou que precisou fazer um mielograma — exame que analisa as células da medula óssea — e revelou ter recebido a notícia que nenhum ex-paciente oncológico deseja ouvir: “O câncer voltou.”>
Mesmo diante da recaída, Lara escreveu com serenidade e coragem incomuns para alguém de apenas 17 anos. Contou que havia iniciado um protocolo mais agressivo de quimioterapia e que o próximo passo seria um transplante de medula óssea. “Quero tranquilizar vocês: eu estou bem, estou sendo acompanhada e sigo confiante. Mais uma vez, vou vencer.”>
Duda também conhecia bem o peso das palavras “tratamento”, “internação” e “esperança”. Moradora de Cacoal, ela enfrentava a leucemia havia cerca de três anos e meio. Segundo relatos da família, o diagnóstico foi confirmado em 16 de março de 2023. Em uma homenagem publicada pela mãe nas redes sociais, a dor daquele dia ainda parecia intacta: “Hoje faz exatamente 446 dias que recebi a pior notícia da minha vida.”>
Na cidade, Maria Eduarda era conhecida por muitos apelidos carinhosos: “Duda da praça”, “Duda dos carrinhos” e “Duda do berê bordados”. A mãe descrevia a filha como uma menina trabalhadora, dedicada à família e dona de um sorriso que sobrevivia até nos dias mais difíceis.>
Durante parte do tratamento, Duda ficou internada no Hospital de Amor, em Porto Velho, longe de casa, dos amigos e da rotina que conhecia. Em 10 de abril deste ano, Maria Eduarda celebrou a última sessão de quimioterapia. Amigos e familiares acreditavam que uma nova etapa finalmente começava. Em uma homenagem publicada nas redes sociais, um amigo escreveu: “Depois de 3 anos de luta contra a leucemia e o câncer, chegou a última quimioterapia. Uma trajetória de força, coragem e fé que inspira profundamente.”>
A felicidade, porém, durou pouco. Pouco tempo depois, a doença voltou de forma agressiva. Segundo a família, o câncer atingiu o cérebro e agravou rapidamente o quadro clínico da adolescente. A mãe contou em vídeo publicado nas redes sociais que Duda passou por uma semana intensa de tratamento antes de ser entubada. Depois, médicos iniciaram os protocolos para confirmação de morte encefálica.>
Homenagens >
Profissionais da saúde que acompanharam a trajetória das meninas também escreveram mensagens emocionadas. Em um dos textos mais compartilhados, uma técnica de enfermagem descreveu Lara como: “Uma pequena estrela que transformou dias difíceis com sua presença única.” Sobre Duda, escreveu: “Sua passagem pela pediatria não foi em vão... Você ensinou sobre força, fé, amor e sobre como os pequenos podem deixar impactos gigantescos.”>
Amigos próximos também transformaram a saudade em palavras. Em uma despedida publicada nas redes sociais, uma amiga de Maria Eduarda escreveu: “Sua luz iluminava a minha vida todos os dias de um jeito que eu nem consigo explicar.” E terminou com uma frase que resumiu a dor de perder alguém cedo demais: “Me espera na próxima vida, careca preferida.”>
As mortes de Lara Gabriela e Maria Eduarda provocaram comoção em Rondônia. Durante anos, moradores acompanharam campanhas de oração, pedidos de doação de sangue e plaquetas, arrecadações e correntes de apoio às famílias. Em cada nova internação, havia esperança. Em cada alta médica, uma pequena celebração da vida. O velório de Maria Eduarda foi realizado na Igreja Presbiteriana ao lado da Cremol 3R, em Cacoal, nesta quinta-feira (14).>