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Perla Ribeiro
Publicado em 20 de julho de 2026 às 16:42
O número de brasileiros que decidiram organizar a divisão do patrimônio antes da morte nunca foi tão alto. Em 2025, o país registrou 38.740 testamentos, o maior volume da série histórica, segundo levantamento do Colégio Notarial do Brasil (CNB/CF). O crescimento reflete uma preocupação crescente com o planejamento sucessório, mas especialistas fazem um alerta: um testamento, sozinho, nem sempre é suficiente para evitar conflitos entre herdeiros. >
Embora seja uma ferramenta importante para definir a destinação dos bens, o documento jurídico não resolve questões emocionais que muitas vezes estão na origem das disputas familiares. Segundo a especialista em saúde mental, comportamento humano e desenvolvimento de lideranças Flávia Lippi, o patrimônio costuma representar muito mais do que dinheiro.>
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"O aumento dos testamentos mostra que mais pessoas estão pensando na organização do patrimônio. Isso é positivo. Mas o planejamento sucessório também precisa incluir conversas sobre expectativas, sentimentos e relações familiares. Quando esses temas são ignorados, o documento jurídico sozinho dificilmente impedirá conflitos", afirma.>
As reflexões fazem parte do livro Nunca é só por dinheiro – Um guia sobre luto, herança, traumas e as conversas que podem salvar uma família, publicado pela Matrix Editora. Na obra, a autora reúne pesquisas com famílias e especialistas de diferentes áreas, além de experiências pessoais relacionadas ao luto, para mostrar que as disputas por herança costumam ter origem em conflitos construídos ao longo da vida.>
De acordo com Flávia, a herança frequentemente simboliza reconhecimento, pertencimento e vínculos afetivos. Por isso, a morte pode revelar tensões que permaneciam ocultas e transformar a divisão dos bens em um reflexo de antigas disputas familiares. A especialista destaca ainda que muitos desentendimentos surgem por objetos sem grande valor financeiro. Fotografias, cartas, utensílios domésticos e lembranças de família podem carregar significados afetivos que ultrapassam qualquer avaliação patrimonial.>
"A maioria das disputas por herança nunca foi apenas sobre dinheiro. Os bens acabam representando histórias, feridas, reconhecimento e até o desejo de ocupar um lugar dentro da família. Compreender isso é essencial para reduzir conflitos e preservar os vínculos entre as pessoas", explica.>
Além de discutir temas como luto, herança e planejamento sucessório, a publicação apresenta ferramentas inspiradas na Comunicação Não Violenta e no método VIGÍLIA, desenvolvido pela autora, com o objetivo de ajudar famílias a enfrentar conversas difíceis antes que elas evoluam para disputas judiciais.>
O debate sobre sucessão patrimonial tende a ganhar ainda mais importância nos próximos anos. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do IBGE, mostram que a população brasileira está envelhecendo. Entre 2012 e 2025, a participação de pessoas com 60 anos ou mais passou de 11,3% para 16,6%, enquanto a parcela de brasileiros com menos de 30 anos caiu de 49,9% para 41,4%.>
Para especialistas, esse cenário reforça a necessidade de ampliar o planejamento sucessório, não apenas do ponto de vista jurídico, mas também por meio do diálogo entre familiares, como forma de reduzir conflitos e preservar relações após a perda de um ente querido.>