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Perla Ribeiro
Publicado em 17 de agosto de 2026 às 17:18
O Grupo Casas Bahia voltou à Justiça apenas dois anos depois de concluir uma recuperação extrajudicial que havia reestruturado R$ 4,8 bilhões em dívidas. Agora, a varejista enfrenta uma situação ainda mais delicada: o pedido de recuperação judicial chega acompanhado de R$ 17,3 bilhões em dívidas, patrimônio líquido negativo e um prejuízo bilionário no balanço. >
Do total devido, R$ 16,4 bilhões — ou 94,8% — estão nas mãos de credores sem garantia. No segundo trimestre de 2026, a companhia registrou prejuízo contábil de R$ 10,1 bilhões, sendo R$ 9,1 bilhões relacionados a efeitos não recorrentes. Mesmo quando esses efeitos são retirados da conta, a perda ajustada foi de R$ 978 milhões.>
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O tamanho do problema fica ainda mais evidente quando comparado ao valor da própria companhia no mercado. Na manhã em que entrou com o pedido, a Casas Bahia tinha valor de mercado próximo de R$ 660 milhões. Isso significa que a dívida declarada equivalia a aproximadamente 26 vezes o valor da empresa na Bolsa.>
A recuperação judicial interrompe a corrida dos credores e cria espaço para renegociar o passivo. Mas há uma diferença importante: a proteção judicial pode aliviar a dívida, mas não recupera automaticamente vendas, margens, caixa ou competitividade. É justamente aí que está o maior desafio da varejista.>
Por que a Casas Bahia chegou novamente à Justiça?>
Na avaliação de Matheus Matos, sócio da MA7 Capital, a crise atual reúne três fragilidades estruturais. A primeira está na gestão. Segundo o especialista, a sucessão da família Klein e as mudanças posteriores de controle não foram capazes de produzir continuidade estratégica suficiente para adaptar o negócio às transformações do mercado.>
A segunda pressão vem dos juros. Com a Selic em 14%, o custo para financiar estoques e capital de giro aumenta. Ao mesmo tempo, consumidores de menor renda perdem capacidade de comprar móveis e eletrodomésticos parcelados, justamente uma área importante para a varejista.>
A terceira fragilidade está na transformação digital. Mesmo depois de investimentos em tecnologia, a empresa não teria conseguido acompanhar no mesmo ritmo a expansão de plataformas como a Amazon e a mudança no comportamento de compra dos brasileiros. Na avaliação de Matos, a recuperação judicial pode alongar as dívidas e aliviar o caixa, mas não resolve sozinha nenhum desses três problemas. “Estão ganhando tempo. Na minha opinião, o modelo de negócio deles é só ganho de tempo”, afirma.>
R$ 1 bilhão para manter a operação de pé>
Uma das principais apostas para atravessar o período de recuperação será a obtenção de aproximadamente R$ 1 bilhão por meio de um DIP Finance, operação negociada com Banco do Brasil, Bradesco e outros credores. O valor representa cerca de 5,8% da dívida declarada. O objetivo, porém, não é liquidar o passivo, mas financiar a operação enquanto a empresa estiver protegida pelo processo judicial.>
A necessidade de dinheiro novo aparece também nos estoques. No segundo trimestre, o volume de mercadorias caiu mais de 20%, enquanto o prazo médio de disponibilidade recuou de 95 para 75 dias. Na prática, a redução limita a capacidade da companhia de abastecer lojas físicas e canais digitais.>
O dinheiro do DIP pode, portanto, ajudar a recompor estoques, preservar fornecedores e evitar que a falta de produtos acelere a queda das vendas. Mas existe uma diferença entre financiar a operação e tornar o negócio novamente saudável.>
O DIP funciona como uma ponte. Se os recursos servirem apenas para manter as lojas e os canais funcionando, sem que a companhia consiga voltar a gerar caixa e rentabilidade de forma recorrente, a Casas Bahia poderá chegar ao fim dessa ponte diante do mesmo problema estrutural — só que com menos alternativas.>
O tempo virou o principal ativo da empresa>
A recuperação judicial dá à Casas Bahia algo que pode ser tão importante quanto o dinheiro: tempo para tentar mudar o negócio. Para Matos, esse período será decisivo. A empresa precisará transformar o alívio financeiro em uma mudança estrutural, com uma gestão mais eficiente, operação digital fortalecida, recuperação das margens e retomada da geração de caixa.>
“A recuperação judicial pode dar fôlego, alongar dívidas e impedir uma paralisação imediata, mas não salva, por si só, um modelo que perdeu competitividade”, afirma. O desafio é fazer essa transformação antes que a empresa perca ainda mais espaço para os concorrentes e seu valor continue diminuindo.>
Venda ou falência entram no radar>
Se a reestruturação conseguir recuperar a operação, a recuperação judicial poderá cumprir seu papel e abrir caminho para uma nova fase da companhia. Se isso não acontecer, porém, as alternativas ficam cada vez mais restritas.>
Na avaliação do especialista, dois caminhos podem ganhar força caso não haja uma recuperação operacional: a venda da companhia a um concorrente ou investidor, por meio de uma operação de M&A, ou a falência, caso não exista comprador disposto a assumir o negócio e nem um plano economicamente viável.>
“A Casas Bahia precisa usar esse tempo para modernizar a gestão, fortalecer a operação digital, recuperar margens e voltar a gerar caixa. Se essa transformação não acontecer com rapidez, a empresa continuará perdendo espaço para concorrentes e chegará ao fim do processo valendo menos”, conclui Matos.>
A nova recuperação judicial, portanto, não representa necessariamente o fim da Casas Bahia — mas tampouco significa que a empresa esteja salva. O processo compra tempo. O que ainda falta provar é se esse tempo será suficiente para reconstruir o negócio.>