Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Mariana Rios
Publicado em 15 de julho de 2026 às 13:21
Quem cresceu nas décadas de 1980 e 1990 provavelmente ouviu dos pais que o diálogo era importante, mas também conheceu a famosa palmada, o puxão de orelha ou até castigos mais severos. Décadas depois, uma pesquisa mostra que esse padrão ainda persiste no Brasil: embora a maioria dos adultos diga acreditar que conversar é a melhor forma de educar, muitos admitem recorrer ainda hoje à violência na criação dos filhos. >
Casos de agressão, maus-tratos e até mortes de crianças têm ocupado espaço frequente no noticiário brasileiro. Ainda assim, a violência contra meninos e meninas continua sendo encarada com naturalidade por boa parte da população. É o que revela uma pesquisa do Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis), em parceria com a Quaest. >
Entre o diálogo e a palmada: contradição na educação das crianças brasileiras
O levantamento mostra que 74% dos brasileiros acreditam que a violência contra crianças e adolescentes aumentou nos últimos anos. Apesar dessa percepção, 62% afirmam que não fariam nada caso presenciassem uma criança levando palmadas ou puxões de orelha em um espaço público, um indicativo de que esse tipo de agressão ainda é amplamente tolerado pela sociedade.>
Os dados revelam outra contradição. Embora 91% dos entrevistados defendam o diálogo como a melhor forma de educar, 62% admitem já ter gritado com uma criança, 49% reconhecem ter dado tapas e 27% afirmam já ter usado objetos para bater. Na avaliação dos pesquisadores, o discurso em favor de uma educação sem violência já está consolidado, mas romper com práticas historicamente naturalizadas ainda é um dos principais desafios para a proteção da infância.>
A pesquisa também mostra que quase metade dos brasileiros considera o castigo uma forma adequada de educar, enquanto mais de um terço acha aceitável gritar ou ameaçar bater em crianças.>
Realizado entre 29 de maio e 7 de junho de 2026, o levantamento ouviu presencialmente 2.202 brasileiros com 18 anos ou mais em 128 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais.>
A pesquisa mostra que os brasileiros depositam mais confiança em profissionais da saúde e da proteção social do que em órgãos públicos tradicionais. Os psicólogos lideram o ranking de confiança (60%), seguidos pela polícia (49%), Conselho Tutelar (46%), assistentes sociais e CRAS (42%) e UBSs e hospitais (40%). O resultado sugere que a população enxerga a proteção da infância como uma responsabilidade compartilhada entre diferentes áreas, e não apenas da segurança pública.>
Desde a Lei Menino Bernardo (Lei nº 13.010/2014), crianças e adolescentes têm o direito de ser educados sem castigos físicos ou tratamento cruel ou degradante. Isso significa que a palmada deixou de ser reconhecida como uma forma legítima de educar.>
No entanto, nem toda palmada leva automaticamente à prisão. A lei prioriza medidas de orientação e proteção à família. Já agressões que causem lesões, sofrimento intenso ou coloquem a criança em risco podem enquadrar o agressor em crimes previstos no Código Penal, como lesão corporal, maus-tratos e, em casos mais graves, tortura ou até homicídio.>