Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Perla Ribeiro
Publicado em 9 de junho de 2026 às 18:59
Poucas famílias no mundo podem dizer que somam mais de três séculos de vida em apenas três pessoas. Levita, Zoraide e Zulina podem. Aos 109, 104 e 103 anos, as irmãs nascidas no interior de Sergipe acumulam 316 anos de vida e acabam de ser reconhecidas pela LongeviQuest como o trio de irmãs vivas mais longevo do planeta. Mais do que um recorde, a história das três sergipanas é uma travessia de mais de um século. E para quem se pergunta: "como chegar lá?", Zoraide entrega a receita: “Não existe segredo. Tem que viver tranquilo, não fazer mal a ninguém e pensar no dia de amanhã”, disse, em entrevista ao G1 Rio de Janeiro. Na visão de Zulina, a forma também é bem simples: “O segredo é saber viver.”>
Elas nasceram quando o Brasil ainda era predominantemente rural, assistiram à chegada da televisão, dos automóveis em massa, da internet e dos celulares, criaram filhos, netos, bisnetos e tataranetos e enfrentaram perdas, mudanças e recomeços sem jamais romper o elo que as une desde a infância.Filhas de Manoel de Deus Nunes e Jovelina de Deus Nunes, nasceram em Cedro de São João, no interior de Sergipe — então distrito de Propriá — e cresceram em uma família de oito irmãos. Em uma época em que a vida era marcada pelo trabalho no campo e pela simplicidade, aprenderam desde cedo o compromisso de cuidar umas das outras.>
Irmãs nordestinas de 109, 104 e 103 anos conquistam recorde mundial de longevidade: 'O segredo é saber viver'
A irmã que cuidou de todos>
Nascida em 7 de junho de 1917, Levita de Deus Nunes foi a segunda filha do casal e a primogênita entre os irmãos. Ainda jovem, assumiu responsabilidades que moldariam toda a sua trajetória. Enquanto os pais trabalhavam, era ela quem ajudava a administrar a casa, organizava a rotina doméstica e cuidava dos irmãos mais novos. Com o passar dos anos, transformou-se em uma espécie de segunda mãe para a família.>
Esse papel se fortaleceu quando parte dos parentes migrou para o Rio de Janeiro em busca de novas oportunidades. Por volta de 1953, Levita também deixou Sergipe para ajudar Zulina no difícil processo de adaptação à nova cidade. Embora nunca tenha oficializado uma união em cartório, dedicou a vida ao cuidado da família. Herdou da mãe o talento para os trabalhos manuais e encontrou no crochê, no tricô e na costura não apenas uma forma de sustento, mas também de expressão pessoal.>
A vida ainda lhe reservou experiências pouco comuns para uma mulher nascida no interior sergipano no início do século passado. Durante 12 anos, trabalhou na Rede Globo, participando da plateia de programas de humor apresentados por Chico Anysio e realizando figurações em novelas. O emprego garantiu independência financeira, registro profissional e, posteriormente, aposentadoria.>
Ao longo da vida, construiu patrimônio material e afetivo. Depois de receber um apartamento em Copacabana de seu segundo companheiro, vendeu o imóvel para comprar uma casa em Olaria. Foi ali que acolheu a mãe viúva e o irmão Antônio, mantendo a família reunida sob o mesmo teto.>
Hoje, aos 109 anos, Levita está acamada, mas não abre mãos da leitura. O hábito, cultivado ao longo de décadas, segue sendo um de seus companheiros mais fiéis. Cercada pelo carinho dos sobrinhos, especialmente dos filhos de Zulina, recebe de volta o mesmo cuidado que dedicou à família durante toda a vida.>
Zoraide escolheu os estudos>
Se Levita foi o porto seguro da família, Zoraide de Deus Mota tornou-se símbolo de independência. Nascida em 24 de novembro de 1921, ela escolheu um caminho pouco comum para as mulheres de sua geração. Formou-se professora primária pela Escola Normal de Aracaju e iniciou a carreira em São Cristóvão, em Sergipe.>
Em 1944, mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de novas oportunidades e motivada pela vocação para a área da saúde. Na então capital federal, ingressou na tradicional Escola de Enfermagem Anna Nery, onde estudou como aluna residente e concluiu a formação em enfermagem.>
Em 6 de fevereiro de 1950, casou-se com Enéas Alves da Mota e teve cinco filhos. Mesmo após a separação e o divórcio oficializado em 1975, seguiu conciliando a maternidade com a vida profissional.A trajetória também foi marcada por perdas profundas. Dois de seus filhos morreram em momentos diferentes da vida, uma dor que atravessou décadas. Ainda assim, Zoraide seguiu em frente, tornando-se referência de força e equilíbrio para a família. Hoje, aos 104 anos, vive na Tijuca ao lado da filha Ângela. Ao todo, possui nove netos e 13 bisnetos.
>
Recomeçou do zero>
A história de Zulina de Deus Nunes é marcada pela coragem dos recomeços.Nascida em 4 de março de 1923, ela cresceu aprendendo costura, bordado e trabalhos manuais que mais tarde seriam fundamentais para mudar o destino de sua família. Em 17 de julho de 1945, casou-se com José Benvindo dos Santos, funcionário da antiga Rede Ferroviária Federal. Durante anos, administrou a casa e cuidou dos seis filhos enquanto o marido trabalhava viajando entre Aracaju e Salvador. >
Quando o casamento terminou, enfrentou um dos momentos mais difíceis de sua vida. Sem estabilidade financeira e responsável pelos filhos, tomou uma decisão que exigiu coragem. Mudou-se para o Rio de Janeiro levando apenas os dois filhos mais velhos e uma mala cheia de toalhas, bordados e peças produzidas por ela mesma. Era sua única fonte de renda. Os quatro filhos mais novos permaneceram temporariamente em Sergipe.>
No Rio, encontrou apoio em Zoraide, que a acolheu durante o primeiro mês. Pouco tempo depois, conseguiu alugar uma casa, reorganizar a vida e reunir novamente toda a família. Com linha, agulha e determinação, transformou o artesanato em instrumento de ascensão social. Apesar de nunca ter tido um emprego formal com carteira assinada, viu os seis filhos conquistarem diplomas universitários. Hoje, aos 103 anos, continua surpreendendo pela vitalidade. Cozinha, participa das atividades da casa e mantém uma rotina ativa. Tornou-se a matriarca de uma família formada por seis filhos, nove netos e seis bisnetos.>
Um século de união>
Ao longo de mais de cem anos, as três irmãs atravessaram praticamente toda a história do Brasil moderno.>
Viram o país se urbanizar, acompanharam guerras, crises econômicas, mudanças políticas, pandemias e revoluções tecnológicas. Mas, em meio a tantas transformações, preservaram aquilo que aprenderam ainda na infância em Sergipe: o valor da família.As vidas de Levita, Zoraide e Zulina se entrelaçaram de forma inseparável. Em diferentes momentos, cada uma foi apoio para a outra. Houve quem acolhesse, quem cuidasse, quem incentivasse e quem ajudasse a recomeçar. Talvez seja justamente por isso que a história das três vá além da longevidade. Elas não apenas viveram muito. Viveram juntas.>
Embora atualmente detenham o título de trio de irmãs vivas mais longevo do mundo, elas ainda não superaram o recorde absoluto da história. Segundo a LongeviQuest, a marca provavelmente pertence às americanas Maggie Renfro (1895–2010), Carrie Lee Miller (1902–2010) e Rosie Lee Warren (1906–2009). Quando Rosie morreu, em dezembro de 2009, as três irmãs somavam impressionantes 325 anos de vida. Levita, Zoraide e Zulina ainda estão a nove anos dessa marca histórica.>