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Carol Neves
Publicado em 7 de setembro de 2026 às 09:18
A advogada e médium Máira Rocha é alvo de denúncias de famílias que afirmam ter recebido cartas psicografadas com informações retiradas da internet e atribuídas a parentes mortos. Há registros policiais contra ela em pelo menos cinco estados por estelionato, calúnia, difamação e ameaça. O Ministério Público também analisa acusações de apropriação indébita, desvio de recursos e rede de influência com servidores públicos. A denúncia foi apresentada no programa Fantástico, da TV Globo.>
Conhecida em Brasília e funcionária do Ministério da Saúde, Máira coordena a Casa da Caridade Inácio Daniel, centro espírita que atende cerca de 5 mil pessoas por mês. Entre as atividades estão sessões de psicografia, nas quais são produzidas as chamadas cartas consoladoras. A instituição também recebe doações e realiza leilões de roupas e objetos usados pela médium nas sessões.>
Os relatos de supostas fraudes envolvem informações que, segundo as famílias, poderiam ser encontradas em redes sociais, reportagens e outros registros públicos. Em um dos casos, Marcela Magalhães recebeu um recado atribuído ao filho Henrique, morto aos 18 anos, no qual ele era apresentado como jogador de futebol. O jovem nunca havia sido atleta profissional, mas uma reportagem publicada após o acidente que o matou continha o mesmo erro.>
Marina Escames também passou a desconfiar depois de receber uma carta atribuída ao marido. A mensagem mencionava uma tatuagem de âncora, chá de camomila e a expressão "te amo pra cacete". Posteriormente, a família encontrou os mesmos elementos no perfil dele nas redes sociais.>
"Tinha o vídeo da camomila. Tinha minha tatuagem e o 'te amo pra cacete' no final. E ali eu vi que realmente estava tudo na internet", relatou.>
A carta ainda mencionava um episódio de bullying sofrido pelo filho mais novo de Marina, informação que não estava nas redes sociais. Depois, porém, o menino contou à mãe que havia relatado o caso diretamente a Máira antes da psicografia. Segundo Marina, a descoberta representou um "segundo luto" para a família.>
Participantes também relatam que precisavam fornecer informações pessoais antes das sessões, como nome completo e CPF. Em alguns casos, eram solicitados comprovantes de passagem aérea ou hospedagem. Máira ainda mantinha contato com os familiares na chamada "fila do abraço", realizada antes das psicografias.>
Outro relato é o de Diva, que identificou na carta atribuída ao pai uma data de nascimento incorreta. A mensagem apontava 5 de maio, enquanto ele havia nascido em 16 de maio. Ao pesquisar, ela encontrou um blog de Jequié que registrava justamente a data errada reproduzida na psicografia.>
Outra possível vítima, Silvano também procurou a polícia após identificar inconsistências em uma carta atribuída à mãe, morta em 2000. Ele registrou ocorrências no Distrito Federal e passou a integrar o grupo de denunciantes.>
Sete lideranças espíritas assinaram um manifesto e apresentaram uma notícia-crime contra Máira por estelionato, charlatanismo e por submeter criança ou adolescente a vexame ou constrangimento, conduta prevista no artigo 232 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).>
A Federação Espírita Brasileira também criticou a realização de leilões vinculados às atividades do centro. "A doutrina não nos autoriza, não nos ensina a realizar leilões, esse tipo de prática. Ela nos ensina a servir. E servir de forma desinteressada", afirmou o presidente da entidade, Jorge Godinho.>
A reportagem não conseguiu contato com a médium. Em sua defesa, ela publicou vídeos nas redes sociais expondo jornalista da TV Globo e um homem a quem chama de "perseguidor", insinuando que as denúncias seriam coordenadas pelo desafeto. Ela também publicou o que seria um áudio com jornalista da Globo em que ela exige que a entrevista ao programa seja exibida ao vivo em suas redes sociais, o que foi negado.>
"Mesmo depois de informações que Maira afirma serem falsas terem vindo à tona, não houve um novo contato para esclarecer os fatos, não houve uma investigação séria e imparcial - eles queriam apenas que Maira justificar o que NÃO fez e que eles cortariam e editariam como quisessem, outras mães que viveram essas experiências também não foram ouvidas", escreveu na legenda.>