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Pesquisa revela os animais que têm mais dificuldade para conseguir um lar no Brasil

Levantamento mostra quais aspectos influenciam a escolha dos adotantes e aponta alta taxa de devolução nos primeiros três meses

  • Foto do(a) author(a) Thais Borges
  • Thais Borges

Publicado em 15 de julho de 2026 às 15:57

Os pets precisam de cuidados redobrados no inverno (Imagem: New Africa | Shutterstock)
Levantamento mostra quais aspectos influenciam a escolha dos adotantes e aponta alta taxa de devolução nos primeiros três meses Crédito: Imagem: New Africa | Shutterstock

O que determina o destino de um cão ou gato que espera por uma família? Para entender os desafios e as oportunidades no cenário de proteção animal no Brasil, a pesquisa Panorama da Adoção no Brasil - ONGs, mostra que a adoção ainda é influenciada por fatores estéticos e práticos. O estudo, que trouxe dados inéditos sobre a realidade dos abrigos no país, foi realizado pelo pelo Opinion Box, além de ter sido encomendado pela GoldeN e pelo Instituto de Medicina Veterinária do Coletivo (IMVC).

De acordo com a pesquisa, animais idosos, de pelagem escura ou com condições de saúde são deixados em segundo plano. O levantamento também aponta uma preocupação com o período após a adoção, marcado por uma alta ocorrência de devoluções.

O envelhecimento dos animais de estimação ainda é um assunto delicado para muitos brasileiros. por Imagem: Budimir Jevtic | Shutterstock

A pesquisa identificou que o cenário da proteção animal é formado principalmente por abrigos privados e ONGs (46%) e por protetores independentes (37%). A maioria dessas instituições atua com estrutura reduzida: 54% cuidam simultaneamente de até 100 cães e gatos, enquanto 66% realizam, em média, até cinco adoções por mês.

Nesse contexto, a preferência dos adotantes acaba criando uma diferença entre os animais com maior procura e aqueles que permanecem mais tempo à espera de um lar. Os filhotes são os que encontram famílias com mais facilidade (81%), assim como os cães de pequeno porte (92%). Já a fila de espera é formada principalmente por animais idosos (59%) e adultos (34%). A idade aparece como o principal obstáculo para a adoção, sendo citada por 86% das instituições.

As dificuldades também envolvem características físicas e condições de saúde. Animais de pelagem preta ou escura enfrentam barreiras para serem escolhidos por uma família, segundo 69% das ONGs. Já pets com deficiências, limitações físicas ou doenças crônicas são considerados mais difíceis de encaminhar por 75% das instituições. Entre os gatos, o preconceito em relação a doenças como FIV e FELV também representa um desafio, apontado por 75% das organizações.

“O que os dados mostram não é um ato de maldade, mas um comportamento guiado pelo medo do desconhecido e pela procura de um ideal. O adotante busca por um filhote a partir de um filtro estético e projeta nele a ideia de uma ‘tela em branco’, sem traumas e de fácil adaptação, enquanto enxerga no animal idoso, preto ou com alguma condição de saúde um futuro de maior complexidade e custos veterinários”, diz o vice-presidente do Instituto de Medicina Veterinária do Coletivo (IMVC), Lucas Galdioli

Para ele, esse viés, que muitas vezes é inconsciente, cria uma invisibilidade que dificulta a adoção dos animais mais vulneráveis. “A pesquisa evidencia a necessidade de ampliar ações de educação sobre guarda responsável e de fortalecer o suporte no pós-adoção para promover relações mais sustentáveis e reduzir devoluções”, acrescenta.

Consulte o médico-veterinário antes da viagem. por Imagem: PeopleImages.com - Yuri A | Shutterstock

Processo

A pesquisa aponta que a adoção ainda é vista por muitas pessoas como o encerramento do processo, quando, na realidade, os principais desafios surgem durante o período de adaptação. A maior parte das devoluções ocorre nos primeiros três meses após a chegada do animal à nova casa.

Segundo o levantamento, 71% das ONGs avaliam que os adotantes têm apenas um "conhecimento básico, com lacunas relevantes" sobre guarda responsável. Entre os principais pontos subestimados pelos tutores estão a adaptação do animal (73%) e os cuidados veterinários (57%).

Os dados reforçam a importância da preparação antes da adoção. Para as instituições, o sucesso do processo depende do alinhamento de expectativas e da conscientização sobre as responsabilidades envolvidas. Entre as medidas apontadas como essenciais estão apoio comportamental, subsídios para consultas veterinárias e educação prática para os futuros tutores.

A percepção também aparece no estudo ‘Percepções e Hábitos sobre Adoção’, realizado pela GoldeN e Opinion Box com tutores e divulgado em abril. O levantamento aponta que os principais desafios após a adoção foram os gastos com saúde (27%) e a adaptação comportamental do pet (32%).

Para o head de Marketing de GoldeN, Felipe Mascarenhas, incentivar a adoção envolve ampliar a conscientização sobre a responsabilidade de acolher um animal.

"A escolha de um pet não deve ser baseada em um 'checklist' de perfeição. Nosso compromisso, ao incentivarmos a adoção, é também desmistificar os medos que deixam tantos animais 'invisíveis' nos abrigos. Para combater o ciclo da devolução é preciso informar o futuro tutor sobre a necessidade de paciência na adaptação e sobre a importância do planejamento financeiro. Assim ajudamos as pessoas a tomarem uma decisão muito mais madura e responsável, garantindo que o sim para um novo pet seja para a vida toda".

Gatos

Os gatos já aparecem como os animais mais adotados segundo o levantamento com ONGs, representando 41% das adoções, enquanto os cães correspondem a 32%. O cenário acompanha uma mudança cultural conhecida como "gatificação", associada ao crescimento da presença dos felinos nos lares brasileiros.

Dados do relatório anual do MVAbrigos Brasil indicam uma predominância das adoções de gatos em comparação aos cães nos últimos anos, apontando maior facilidade de encaminhamento dos felinos.

De acordo com o Instituto Pet Brasil (IPB), a população de gatos nos lares brasileiros já ultrapassa 30,8 milhões, e o crescimento da presença dos felinos foi 96% superior ao de cães entre 2022 e 2023.

Segundo especialistas, o avanço dos gatos está relacionado à busca por animais que se adaptem melhor às novas rotinas dos brasileiros, marcadas por espaços menores e jornadas mais independentes. O mesmo movimento ajuda a explicar a preferência por cães de pequeno porte. Em ambos os casos, a praticidade — seja pela independência dos gatos ou pelo tamanho reduzido dos cães — tornou-se um dos fatores decisivos na escolha de um novo animal de companhia.

Tags:

Pets