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Quase metade das pessoas já se sentiu deixada de lado por causa do celular

Fenômeno conhecido como ‘phubbing’ acontece quando a tela passa a ocupar o espaço da conversa e da atenção no relacionamento

  • Foto do(a) author(a) Perla Ribeiro
  • Perla Ribeiro

Publicado em 2 de outubro de 2026 às 05:10

Quase metade das pessoas já se sentiu deixada de lado por causa do celular
Quase metade das pessoas já se sentiu deixada de lado por causa do celular Crédito: Imagem gerada pela IA

O celular vibra durante o jantar, uma notificação aparece no sofá ou uma mensagem interrompe uma conversa na cama. Em poucos segundos, a atenção que estava voltada para quem está ao lado migra para a tela. Quando esse comportamento se repete, o aparelho deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a ocupar espaço dentro da relação. 

Esse hábito tem nome: phubbing, termo criado a partir da junção das palavras em inglês phone (telefone) e snubbing (ignorar). A expressão descreve situações em que uma pessoa prioriza o celular durante uma interação presencial, fazendo com que o parceiro ou outra pessoa se sinta deixado de lado.

Fotos, vídeos e áudios recebidos em aplicativos de mensagens podem se acumular e ocupar espaço no aparelho. por Reprodução/Wikimedia Commons

Quando o celular entra no meio da conversa

Um estudo conduzido pelos pesquisadores James Roberts e Meredith David e publicado na revista Computers in Human Behavior analisou os efeitos do comportamento em relacionamentos amorosos. Entre os participantes, 46,3% disseram já ter sido ignorados pelo parceiro por causa do celular, enquanto 22,6% relataram conflitos relacionados ao comportamento.

Os pesquisadores também observaram uma associação entre a insatisfação provocada pelo uso do celular e a satisfação com o relacionamento e com a própria vida.O problema, porém, não está necessariamente no aparelho. O celular também pode aproximar casais, facilitar a comunicação durante o dia, ajudar na organização da rotina e até ser o ponto de partida para novos encontros. A diferença está em como e quando ele é usado.

Até no meio liberal, combinar limites faz diferença

Entre pessoas que participam do meio liberal, formado por casais e solteiros interessados em encontros casuais ou relações não monogâmicas, a comunicação costuma ocupar um espaço importante antes dos encontros. Um levantamento do aplicativo brasileiro ysos, voltado a esse público, aponta que 64% dos usuários consideram conversar bastante uma etapa essencial antes de conhecer alguém pessoalmente.

É por meio da tela que expectativas podem ser alinhadas, desejos compartilhados e limites estabelecidos.“No meio liberal, o celular aproxima, uma vez que é por ele que as pessoas se conhecem, conversam por dias, falam sobre desejos e limites e chegam ao encontro sabendo o que esperar. Justamente por isso, não faz sentido construir essa expectativa toda para depois competir com uma tela”, afirma Gustavo Ferreira, head de marketing do ysos.

Para Regina G., usuária do aplicativo, a atenção durante o encontro é parte importante da experiência.“Muitas vezes existe uma expectativa construída em conversas no app, então estar presente faz toda a diferença. (...) Quando a pessoa está mais interessada na tela do que em quem está ao lado, a conexão se perde”, relata.

Conversar sobre o incômodo pode evitar conflitos

Nem mesmo casais que estão atentos ao uso do celular estão livres do hábito. Na rotina do Casal Libido, criadores de conteúdo do meio liberal, o aparelho costuma ficar sobre a mesa durante as refeições, muitas vezes por costume. Eles contam que já houve situações em que o celular atrapalhou um momento a dois, mas que o problema foi resolvido com uma conversa.

“Já aconteceu, mas não pôs a noite a perder. O outro chama a atenção e quem está errado reconhece, se retrata e deixa o celular de lado. Reconhecer o erro é o primeiro passo para não repeti-lo”, afirmam. Segundo o casal, o aparelho tende a ganhar mais espaço quando existe alguma pendência de trabalho ou quando não há outra atividade que desperte interesse naquele momento. Quando conseguem deixá-lo de lado, percebem uma mudança na dinâmica.“As conversas fluem melhor, a reciprocidade nas trocas do dia a dia aumenta. Estar presente de verdade para o outro faz toda a diferença”, relatam.

Atenção dividida também pode afetar a intimidade

Para a especialista em saúde sexual Sanny Rodrigues, o principal problema não é simplesmente olhar para o celular, mas dividir constantemente a atenção entre a pessoa e a tela.“Quando uma pessoa está conversando e, ao mesmo tempo, respondendo mensagens ou olhando notificações, mesmo sem intenção, a mensagem transmitida pode ser que o que acontece na tela é mais importante do que o que acontece entre o casal”, explica.

Segundo a especialista, o afastamento pode acontecer de maneira gradual, por meio de pequenas situações do cotidiano: deixar de conversar sobre o dia, interromper uma troca de carinho ou não prestar atenção ao que o parceiro está contando.Essa dinâmica também pode afetar o desejo.

“Desejo não depende apenas de atração física. Intimidade, disponibilidade emocional e curiosidade pelo outro também fazem parte. Quando o casal está fisicamente junto, mas conectado a telas o tempo todo, surge uma sensação de proximidade sem presença real”, afirma.

Como diminuir o uso do celular na relação?

A solução não precisa ser eliminar completamente o aparelho da rotina. Para Sanny, estabelecer momentos em que o celular fica de lado pode ajudar a recuperar a atenção entre o casal.

Algumas possibilidades são:

  • fazer refeições sem o aparelho sobre a mesa;
  • reservar os primeiros minutos após chegar em casa para conversar;
  • evitar o celular antes de dormir;
  • combinar momentos de atenção exclusiva;
  • falar sobre o incômodo quando o uso do aparelho começa a atrapalhar a interação.

“Não é preciso transformar o celular em vilão. O importante é criar espaços livres de distração”, orienta. A especialista destaca que a intimidade não costuma desaparecer de maneira repentina. Pequenas distrações repetidas podem, aos poucos, ocupar o espaço que antes era dedicado à conversa, ao carinho e à presença.