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Carol Neves
Publicado em 24 de julho de 2026 às 07:26
O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) sobre a queda do voo 2283 da Voepass, em Vinhedo (SP), concluiu que uma sequência de falhas envolvendo a companhia aérea, a tripulação e a fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) contribuiu para o acidente que matou 62 pessoas. O documento foi apresentado nesta quinta-feira (23) e também reúne recomendações para evitar tragédias semelhantes. >
Ao todo, o relatório traz 39 conclusões técnicas. Entre elas, está a constatação de que a aeronave enfrentou condições severas de formação de gelo desde a subida e durante praticamente todo o voo. A investigação também identificou uma falha no sistema responsável por remover o gelo da asa direita, comprometendo o desempenho da aeronave.>
Segundo o Cenipa, o sistema de monitoramento emitiu pelo menos oito alertas de baixa velocidade e de degradação de desempenho. Apesar disso, os pilotos não executaram os procedimentos de emergência previstos para esse tipo de situação. A investigação ainda apontou que conversas sobre assuntos pessoais durante o voo desviaram a atenção da tripulação do monitoramento dos instrumentos e das condições de gelo.>
Acidente com voo da Voepass em Vinhedo
Quando a aeronave entrou em estol, situação em que perde sustentação, o copiloto adotou uma ação contrária ao procedimento previsto em manual ao puxar o manche, em vez de empurrá-lo. De acordo com o relatório, essa reação agravou a perda de controle e impediu a recuperação da aeronave.>
O documento também concluiu que o ATR 72-500 foi liberado para operar com uma falha no sistema de degelo que não havia sido registrada no diário de bordo. Com isso, o defeito deixou de ser reparado antes do voo.>
Outro ponto destacado é a existência, segundo o Cenipa, de uma cultura de "normalização de desvios" na Voepass. A investigação afirma que panes deixavam de ser registradas por pilotos e mecânicos para evitar que as aeronaves fossem retiradas de operação.>
Em relação à atuação da Anac, o relatório afirma que o gerenciamento de riscos adotado pelo órgão não foi suficiente para impedir o acidente. A aeronave perdeu o controle, entrou em parafuso chato, girou cinco vezes sobre o próprio eixo durante a queda e atingiu velocidade de descida de aproximadamente 14 mil pés por minuto, o equivalente a cerca de quatro quilômetros por minuto.>
Recomendações feitas>
Entre as recomendações, o Cenipa orientou a Agência Europeia para a Segurança da Aviação (EASA) a encaminhar quatro solicitações à fabricante ATR. As medidas incluem a revisão dos alertas de degradação de desempenho para exigir reação imediata dos pilotos, mudanças nos procedimentos para voos em condições de gelo, ampliação das informações registradas pela caixa-preta e aprimoramento do sistema de monitoramento da aeronave para aumentar a percepção da tripulação sobre situações críticas.>
Já para a Anac, o órgão recomendou revisar os checklists utilizados por empresas que operam aeronaves ATR no Brasil, aperfeiçoar a comunicação entre tripulações e equipes em solo, atualizar os processos internos de fiscalização, divulgar as conclusões da investigação às companhias aéreas e acompanhar a implementação das mudanças sugeridas à fabricante.>
Avião não poderia decolar>
Durante a apresentação do relatório, o investigador responsável pelo caso, tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, afirmou que a aeronave não deveria ter decolado naquele horário por causa de uma falha no limpador de para-brisa.>
"Não poderia ter sido despachado a aeronave nesse horário em virtude da falha no limpador de para-brisa", disse Fróes.>
"A aeronave não poderia ter previsão de decolagem se houvesse previsão de chuva uma hora antes e uma hora depois após a previsão da decolagem. Isso também valia para o horário estimado de pouso para a decolagem de destino ou na localidade da alternativa", completou.>
Segundo o Cenipa, antes da decolagem entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP), o avião apresentava dez itens com falhas, incluindo o problema no limpador de para-brisa. A investigação também concluiu que o turboélice permaneceu entre oito e dez minutos em uma região com formação severa de gelo.>
O relatório ainda analisou a atuação da Anac antes do acidente. Auditorias e inspeções realizadas pelo órgão haviam identificado diversas não conformidades relacionadas à manutenção das aeronaves da Voepass, à rastreabilidade de componentes e ao registro informal — ou inexistente — de panes técnicas.>
Apesar dessas constatações, o Cenipa concluiu que elas "não foram capazes de auxiliar nas tomadas de decisões estratégicas necessárias à mitigação e ao controle dos riscos". O documento acrescenta que essas falhas permitiram a continuidade das operações da companhia "apesar das degradações dos níveis de segurança". Em nota, a Anac informou que analisará as conclusões do relatório em até 120 dias.>
Voepass se manifesta>
A Voepass também se manifestou após a divulgação do documento. Em nota, a empresa afirmou que o acidente foi "o episódio mais difícil da história da VOEPASS" e destacou que permaneceu solidária às famílias das vítimas desde a tragédia.>
A companhia ressaltou que, em mais de 30 anos de atuação, nunca havia enfrentado um acidente semelhante e afirmou que sempre adotou procedimentos de segurança e capacitação. Também informou que possuía certificação IOSA desde 2012 e que a tripulação do voo era experiente, certificada e acumulava mais de 5 mil horas de voo, sem registros anteriores que impedissem sua atuação.>
Por fim, a empresa declarou que continua colaborando com o Cenipa e com as demais autoridades envolvidas nas investigações.>
Relembre acidente>
O voo 2283 caiu na tarde de 9 de agosto de 2024 em um condomínio de Vinhedo, durante a viagem entre Cascavel e Guarulhos. As 62 pessoas a bordo — 58 passageiros e quatro tripulantes — morreram. O desastre foi o mais grave da aviação brasileira desde o acidente com o voo da TAM, em 2007.>
Além da investigação técnica conduzida pelo Cenipa, a Polícia Federal abriu um inquérito para apurar eventual responsabilidade criminal. Ao longo das investigações, a Anac suspendeu as operações da Voepass em março de 2025 e, três meses depois, cassou o Certificado de Operador Aéreo (COA) da empresa, impedindo a continuidade de voos comerciais.>