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Publicado em 9 de agosto de 2026 às 08:00
Há artistas que nascem prontas para o palco. Outras precisam de anos até encontrar o próprio timbre em meio ao imenso ruído. Mônica San Galo pertence a uma outra espécie, a mais rara de todas: a que constrói identidade artística em múltiplas camadas, até que a vida lhe pareça ter sempre existido naquela forma de arte. Única e original. Seja ela a canção, a escrita ou a pintura. >
Daquilo que viveu, onde, como e com quem viveu herdou um jeito de ouvir, cantar, compor, escrever e pintar o mundo antes mesmo de tentar explicá-lo racionalmente. O diploma em Música apenas carimbou a sua prática antiga de transitar organicamente entre o violão, a composição, a poesia e a palavra sem tratar nenhuma dessas linguagens como sede fixa.>
O nome artístico e lúdico que escolheu, o de “Madame”, condensa esse temperamento teatral. Em "Confissões de Madame", o seu primeiro álbum gravado ao vivo em DVD no Teatro Castro Alves, a música ganha corpo de análise, misturando confissão e encenação, aproximando o palco da intimidade de um quarto de dormir. Em "Comovida", a mesma voz aparece mais nua, menos personagem e mais pele, Como ... vida.>
As referências em João Gilberto, Tom Jobim e Chico Buarque na base, Cartola e Elis Regina na companhia dos dias quietos, e Hermeto Pascoal, com quem aprendeu que a música dispensa instrumento, que mora na voz de quem achar que “a vida no Rio Vermelho é feliz, sim”, de quem pergunta se “lá fora tem lua cheia”, de quem ama a ponto de confessar que “o acaso feliz me guiou, e o tempo parou de correr”.>
Vidrada em cores, sobretudo o vermelho, brinca com os amigos em tom irônico que “a morte não me pega sem batom”. As tintas e os pincéis não poderiam ficar de fora do seu universo tão original, cheio de poesia e de contemplação da vida. >
Dostoiévski escreveu que "a beleza salvará o mundo". Continuar escolhendo o próprio caminho mesmo quando existiam atalhos mais confortáveis é somente para quem tem a convicção e a coragem de que o belo não precisa de justificativa. E muito menos de pedir licença.>
Hoje é o dia de Mônica San Galo. Fica aqui o registo de uma voz que insistiu em ser mais de uma coisa ao mesmo tempo, e que continua a inventar formas plurais de contar a mesma história. >
Parabéns, Mônica. Feliz ano novo pessoal!>