Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Publicado em 16 de agosto de 2026 às 05:00
Dias atrás comparei o português na escrita brasileira em livros, jornais e revistas dos anos 1950, 1960 com os de hoje. A minha curiosidade não parou por aí. Nas plataformas de vídeos busquei por documentários, reportagens, entrevistas e discursos antigos. O abismo no padrão de linguagem é impossível de passar despercebido. Tudo isso em apenas uma ou duas gerações. >
O debate em torno da instrução da língua portuguesa no Brasil, sobretudo dentro das licenciaturas em Letras e Pedagogia, centra-se na distância abissal entre a teoria e a prática escolar. Correntes da linguística aplicada defendem a pedagogia da adequação, propondo o ensino articulado dos mais diferentes registros. Nas salas de aula, porém, o treino sistemático da escrita ainda perde espaço para o estudo de regras gramaticais abstratas sem significado real para o aluno.>
Está visível e audível que o vernáculo brasileiro consolidou estruturas do uso oral, informal, coloquial até mesmo onde a formalidade é requerida. Não se sabe mais o que é falar “corretamente”. Ao deixar de lado um ensino mais prático e natural da língua culta, da norma-padrão por meio do uso, o sistema de ensino exclui gerações das esferas de poder. Um pequeno exemplo disso é o abandono do “nós” e da conjugação em primeira pessoa do plural. Até mesmo em palestras e aulas universitárias escuta-se uma repetição enfadonha de “a gente”, “da gente”. Outro movimento que percebo é o abandono do modo subjuntivo/conjuntivo, como em “quer que eu ligo de volta?”, “talvez eu passo lá”.>
A falência da escola em ensinar a fala e a escrita formais, acadêmicas, vem à tona quando notamos erros grosseiros de colocação pronominal e de regência sintática em e-mails, reportagens, redações universitárias, concursos, discursos públicos, processos de recrutamento e seleção e documentos corporativos. O domínio pleno do registro culto exige habituar-se à sua prática e à leitura analítica. Demanda exposição natural dos ouvidos e olhos à norma e padrão. Sem a instrução direta do português culto, a informalidade e os erros gramaticais passam para o papel, para as telas e para a oralidade, mesmo em situações que exijam linguagem elaborada.>
O epicentro da língua portuguesa está em África>
A urgência de formar falantes proficientes no registro formal ganha dimensão com a reorganização populacional da lusofonia. Dados do relatório World Population Prospects da ONU projetam o ápice demográfico brasileiro para 2042, com 219,3 milhões de habitantes, seguido de um declínio contínuo até 163,3 milhões em 2100. Em sentido oposto, Angola e Moçambique deverão ultrapassar 250 milhões de pessoas até ao final do século. O censo angolano de 2014 apurou que 71% dos residentes declaravam o português como língua principal falada no domicílio, sinalizando uma expansão acelerada nos centros urbanos.>
Projeções do FMI para 2026 estimam o produto interno bruto somado da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) em 3,216 trilhões de dólares. O Brasil gera 82% desse montante e>
concentra a maior infraestrutura editorial do bloco. Essa prevalência financeira coexistirá com um polo demográfico situado no continente africano. Se os estudantes brasileiros permanecerem alheios às variedades cultas dos demais países lusófonos, o país reduz a sua margem de articulação diplomática, cultural e comercial nas decisões do grupo. Ou seja, em breve estaremos a negociar, escrever e a produzir áudios e vídeos para o consumo dos nossos irmãos nos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) que não nos entenderão com plenitude e vice-versa.>
Superar o isolamento linguístico excessivamente informal e até dialetal da oralidade brasileira exige substituir o ensino estéril de gramática pelo modelo de gramática em uso e pela produção textual orientada. Precisamos de ler os autores dos diferentes países da CPLP, como os moçambicanos Mia Couto e Paulina Chiziane (primeira mulher africana a vencer o Prêmio Camões), os angolanos Pepetela e Ondjaki, o cabo-verdiano Germano de Almeida, as sãotomenses Conceição Lima e Alda Espírito Santo. Estes oferecem bastante repertório necessário para compreender a pluralidade do nosso idioma e responder às exigências da comunicação escrita plural e formal.>
Não, não somos superiores aos africanos, como gostam de crer muitos brasileiros desinformados. É justamente o contrário disso, seremos superados por eles muito em breve. E deles dependeremos, se quisermos exportar a nossa produção agrária, industrial, musical, artística, cultural, literária, científica e continuar relevantes diplomaticamente, influentes como bloco lusófono no cenário mundial. >
Fabricio Zavarise é educador, escritor, palestrante e consultor. Mestre em Educação Linguística pela Universidade de Chichester (Reino Unido), especialista em Educação Bilíngue e MBA em Gestão Estratégica & IA (UFJF). Discorre sobre linguagem, educação, liderança, inovação e Inteligência Artificial.>