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Publicado em 9 de agosto de 2026 às 08:00
Adam Smith costuma ser lembrado como o sujeito que inventou a “mão invisível”. Não inventou. A expressão aparece poucas vezes em sua obra e certamente não significa que o mercado seja uma espécie de entidade sobrenatural capaz de organizar a economia enquanto o governo tira uma soneca. Mas a caricatura prosperou. É mais fácil discutir com um fantasma do que ler um escocês do século XVIII. >
O verdadeiro paradoxo de Adam Smith, pai da economia, é mais interessante. Ele percebeu que o padeiro não acorda de madrugada porque sente uma irresistível paixão humanitária por nosso café da manhã. Ele produz pão porque precisa ganhar dinheiro. Ainda assim, ao buscar o próprio interesse, alimenta pessoas, contrata trabalhadores, compra farinha, paga fornecedores e movimenta a economia. É um egoísmo muito ocupado em prestar serviços aos outros.>
Essa é a beleza desconcertante do mercado. Para prosperar de maneira legítima, alguém precisa oferecer algo que outra pessoa considere útil. Pode ser um pão, um automóvel, uma consulta médica ou um aplicativo que entrega comida em trinta minutos e culpa o motociclista quando demora trinta e dois. O lucro, quando obtido em ambiente competitivo, é uma espécie de voto dado pelo consumidor. Às vezes um voto sábio. Às vezes nem tanto, como demonstram certos produtos vendidos pela internet.>
Durante séculos, a humanidade conviveu com a pobreza como condição normal. Reis, imperadores e sacerdotes administravam a escassez com grande solenidade. Havia palácios, banquetes e carruagens douradas, mas a maioria da população vivia pouco, produzia pouco e consumia menos ainda. A desigualdade era garantida por nascimento, tradição e, sempre que necessário, por soldados muito bem alimentados.>
Foi a expansão da liberdade econômica capitalista, acompanhada da ciência, da propriedade privada, da segurança jurídica e da concorrência, que alterou esse cenário. Quando as pessoas puderam empreender, negociar, investir e conservar parte dos frutos de seu trabalho, a produtividade cresceu. E produtividade, embora não renda discursos emocionantes, é o que permite produzir mais alimentos, medicamentos, moradias e oportunidades com menos recursos.>
Nenhum país eliminou a pobreza distribuindo aquilo que ainda não produziu. Alguns tentaram com entusiasmo. Primeiro distribuíram a riqueza acumulada. Depois distribuíram a escassez. Por fim, distribuíram explicações sobre como tudo teria funcionado perfeitamente, não fosse a realidade.>
É só analisar o resultado da demagogia chavista. Na Venezuela, o governo ampliou gastos, controles de preços, estatizações e transferências apoiado na renda do petróleo. Quando a produção e a receita petrolífera caíram, tentou preservar o consumo por meio de déficits e emissão monetária. Entre 2013 e 2021, o PIB venezuelano encolheu mais de 75%, a maior contração registrada em um país que não estava em guerra em meio século. >
A pobreza não é derrotada por decreto, embora decretos sejam produzidos com extraordinária eficiência. Ela recua quando as pessoas conseguem trabalhar, criar empresas, obter crédito, aprender novas competências e melhorar de vida sem pedir licença a uma fila de repartições. O excesso de burocracia raramente incomoda o grande empresário, que dispõe de advogados, contadores e cafezinho. Ele sufoca o pequeno, que precisa escolher entre preencher formulários e atender clientes.>
O Brasil oferece um exemplo didático desse problema. Criamos benefícios, subsídios, isenções, fundos, cargos e estruturas públicas com a facilidade de quem possui uma fonte inesgotável de dinheiro no quintal. Cada vantagem atende a uma necessidade considerada urgente, cada órgão nasce com uma missão indispensável e cada gasto encontra uma justificativa comovente. O detalhe inconveniente é que a conta de todas essas boas intenções chega ao mesmo contribuinte que paga impostos elevados e recebe serviços frequentemente modestos. O Bolsa Família, cujo esboço e primeiros programas foram criados no Governo FHC (2001) — como o Bolsa Escola e o Bolsa Alimentação —, consome cerca de 2,5% do PIB brasileiro e mesmo assim ainda temos cerca de 30% da população brasileira na pobreza, ou seja, aproximadamente 65 milhões de brasileiros são pobres, o que equivale à população da França.>
O problema não está na proteção social destinada a quem realmente precisa. Uma sociedade civilizada não abandona idosos, pessoas com deficiência, desempregados ou famílias em situação de miséria. De fato, no Brasil, a extrema pobreza diminuiu de 4,4% para 3,5%, ou 1,9 milhão de pessoas. O problema surge quando a assistência deixa de ser uma ponte para a autonomia e se transforma em instrumento permanente de dependência política. Benefícios sem mecanismos de saída, capacitação e ingresso no mercado de trabalho podem aliviar a pobreza imediata, mas também ajudam a perpetuá-la. O cidadão recebe o suficiente para sobreviver, mas não encontra condições para prosperar. Para determinados governantes, essa talvez não seja uma falha do sistema. Pode ser justamente sua principal conveniência.>
Ao mesmo tempo, mantemos um Estado caro, complexo e pouco produtivo, que arrecada muito, gasta quase tudo e ainda precisa tomar dinheiro emprestado para cumprir suas promessas. A dívida cresce, os juros consomem recursos que poderiam financiar educação, infraestrutura e segurança, e o setor privado encontra menos crédito e mais impostos. Para sustentar a máquina, o governo tributa o consumo, a produção e o trabalho. Depois cria programas sociais para ajudar as pessoas empobrecidas pelos preços e pelos tributos que ele próprio ajudou a elevar. É um círculo perfeito, especialmente para quem administra o círculo.>
Estamos, assim, caminhando para o precipício fiscal não porque ajudamos demais os pobres, mas porque gastamos mal, protegemos privilégios e evitamos escolher prioridades. No Brasil, cortar desperdícios é considerado crueldade, rever benefícios corporativos é chamado de ataque a direitos e reduzir a burocracia parece uma ameaça à soberania nacional. O resultado é um Estado que custa como país rico, entrega como país pobre e envia a conta para as próximas gerações, que ainda não votam e, portanto, não podem reclamar.>
Há quem confunda liberdade econômica com defesa dos ricos. É justamente o contrário. Os ricos sempre encontram maneiras de proteger seu patrimônio, inclusive em economias fechadas. Quem mais necessita de liberdade é o cidadão que possui apenas uma ideia, alguma coragem e pouca influência política. Para ele, cada licença inútil, cada imposto incompreensível e cada regra criada sob medida para os grandes funciona como uma muralha.>
O paradoxo, portanto, é simples: o sistema que reconhece o interesse individual pode produzir benefícios coletivos maiores do que aquele que promete organizar toda a sociedade em nome do bem comum. Não porque as pessoas sejam anjos, mas justamente porque não são. A liberdade econômica transforma ambição em investimento, concorrência em inovação e necessidade em trabalho produtivo.>
O mercado não promete igualdade absoluta, felicidade universal nem ministros infalíveis. Promete algo mais modesto e muito mais valioso: a possibilidade de cada pessoa tentar melhorar a própria vida. Quando essa possibilidade é protegida por instituições justas, milhões de iniciativas individuais se convertem em prosperidade coletiva.>
Adam Smith compreendeu que não precisamos esperar pela generosidade dos poderosos para produzir riqueza. Precisamos permitir que as pessoas criem, negociem e prosperem. A pobreza pode inspirar excelentes discursos, programas grandiosos e incontáveis reuniões internacionais. Mas, até hoje, quem efetivamente conseguiu reduzi-la foi a liberdade de produzir.>